Perdidos por aí
Bree
1
A única coisa com a qual Bree nunca conseguia de fato lidar era com a calmaria entre uma
aventura e outra. Em Reno, o tempo não era valioso, então desperdiçá-lo não tinha importância.
Mas agora, em sua vida nova, cada momento parada era sufocante, perdido. E, por mais que
quisesse se mover, lá estava ela, caminhando pelo acostamento da estrada no Kansas, chutando
tufos de grama seca porque nem pedras havia ali. Ela esperava, entediada, que outro carro
passasse para erguer o polegar.
A alça da bolsa de viagem estava cortando seu ombro, por isso ela a mudou de lado e
examinou as marquinhas na pele. Não sabia dizer se a vermelhidão era da alça ou do sol que a
castigava o dia todo. A bolsa não estava pesada — nunca carregava muita coisa, simplesmente
porque tinha se apaixonado pela ideia de viajar sem peso —, então deduzia que aquilo era
resultado do sol. Ela abriu a bolsa e pegou uma das três camisetas que tinha, uma regata verde que
já fora fluorescente, e a amarrou na cabeça para proteger o rosto.
Suspirou alto e olhou para o sol como se ele fosse culpado pela ausência de carros. Ali estava
ela, leve como uma flor, pronta para ser levada pelo vento, e nada acontecia.
Por fim, o brilho de algo prateado começou a se aproximar. Ela esticou o braço com o polegar
erguido e até se inclinou um pouco para frente, para o caso de ser mais fácil ver o decote. Ela
esperava que não fosse um caminhoneiro. Às vezes eles eram simpáticos, mas quase sempre
assustadores — por causa deles ela aprendera a carregar consigo uma faca de carne.
O som dos pneus raspando o asfalto era tão lindo quanto qualquer música que já havia
escutado. Ela prendeu a respiração quando o sedã apareceu, mas o carro não deu sinal de que
reduziria a velocidade e, segundos depois, já havia passado por ela.
Bree praguejou para o vento provocado pela rápida passagem do automóvel, uma rajada que
lançou sua camiseta verde no asfalto. Ela resmungou enquanto se abaixava para pegá-la, tão
ansiosa para continuar que quase não viu outro carro se aproximando. Bree ficou de pé e mostrou
o polegar novamente, e o carro reduziu a velocidade no mesmo instante, o freio não fazendo
cantar os pneus, mas ruidoso o suficiente para ser ouvido mesmo com a música urrando lá dentro.
O carro era velho e sujo, a pintura vermelha pedia brilho, mas mais lembrava sangue seco.
Bree deu dois passos em direção ao carro e se abaixou para olhar pela janela aberta do lado do
passageiro. Ela ficou surpresa ao encontrar uma garota mais ou menos da sua idade ao volante. Raramente encontrava outros adolescentes na estrada, principalmente sozinhos.
— Para onde você está indo? — a motorista gritou por sobre a música, a qual não se
incomodou em abaixar.
— Para qualquer lugar — Bree respondeu, exatamente como havia dito tantas e tantas vezes,
a resposta perfeita do nômade. Ela olhou para o interior do veículo, notando o café gelado no
porta-copos, os recibos espalhados, o saco de lixo preso ao câmbio e completamente cheio de
garrafas de plástico e embalagens de comida nada saudável. O interior também era vermelho, mas
mais brilhante que a parte externa e com uma aparência de quase novo. O estofamento era
vermelho, o volante era vermelho, até o líquido esquecido na garrafa de Gatorade no assoalho era
vermelho.
— Perfeito — disse a garota, e fez um gesto com a cabeça convidando Bree a entrar.
Ela abriu a porta, se sentou no banco do passageiro e pôs a bolsa no banco traseiro vazio. Ela
podia sentir o coração começar a bater mais rápido com a sensação familiar de adrenalina e
movimento. Era como se ele não estivesse apenas bombeando sangue para o corpo, mas a
monotonia para fora de seu organismo.
A motorista pareceu analisar a estrada por um instante, como se a desafiasse a impedi-la de
pisar fundo.
— Meu nome é Leila — ela falou.
— Bree.
Leila assentiu e sorriu. O carro se pôs em movimento, e o vento começou a entrar pelas janelas
abertas, soltando algumas mechas do rabo de cavalo de Bree. Os fios batiam na nuca queimada de
sol e lhe dançavam diante dos olhos, grossas mechas que quase tinham virado dreads durante os
nove meses de peregrinação.
Depois de dois ou três quilômetros, quando a música acabou, Leila abaixou o volume e
fechou metade da janela.
— E então, qual é a sua história?
— Não tenho uma história — respondeu Bree, ainda precisando meio que gritar por causa do
barulho da rodovia.
— Todo mundo tem uma história — insistiu Leila, empurrando para trás da orelha os cachos
negros, apenas para o vento despenteá-los em seguida. O jeito como seus cabelos dançavam
despertou em Bree uma sensação de conexão entre elas.
— Bom, então minha história é... — ela apontou para a rodovia. — Você sabe. É aqui.
Movimento. A estrada.
Leila olhou por sobre o ombro, desviando os olhos do caminho por tempo suficiente para
Bree ficar nervosa.
— Você fugiu de casa?
Elas passaram por uma placa que indicava que faltavam oitenta quilômetros até Kansas City, e
Bree assentiu. Ela fechou os olhos, se concentrando no vento contra sua pele. Não culpava Leila
por perguntar, porque também pensava assim sobre outras pessoas, mas ainda odiava ter de responder. Principalmente porque, por mais que embelezasse a história e os detalhes de sua
partida, por mais que tivesse se encharcado de vida desde então, a verdade era simples: sim, ela
tinha fugido. Como sempre acontecia nos momentos mais tranquilos, lembranças da irmã de
Bree, Alexis, surgiram. Ela abriu os olhos.
— E você? — perguntou. — Qual é a sua história?
— Para o norte — Leila respondeu, como se isso explicasse tudo.
— Só isso? Não é uma longa história.
Leila se virou para encará-la, os olhos verdes tão cheios de vida que Bree quase invejou o que
podiam ter visto.
— Tenho que ir para o Alasca. Sofro de uma doença rara, não posso passar muito tempo
longe dos polos magnéticos ou meu corpo começa a se decompor.
Bree se moveu desconfortavelmente no assento, ficando tensa. Não sabia muito bem lidar
com doenças. Tinha passado tempo demais lidando com a doença dos pais. Depois de um
instante, Leila sorriu. Bree relaxou.
— Para, quase acreditei em você.
Leila se inclinou sobre o volante enquanto seu corpo era sacudido pelas gargalhadas.
— Uau, eu não pensei que você fosse cair nessa. Normalmente não minto bem. — Ela
controlou o riso, depois continuou: — Não, eu vou para o Alasca para ver a aurora boreal. Quero
tirar fotos para o meu portfólio do colégio.
Bree assentiu e olhou pela janela para o céu do Centro-Oeste. Às vezes tinha a impressão de
que poderia ser engolida por ele. A música que vinha dos alto-falantes era rápida, cheia de uma
energia que combinava com Bree e destoava do vazio da paisagem.
— É muito legal — ela disse. — Você já viu antes?
— Só em fotos. Você já?
Bree desviou o olhar da janela.
— Já, quando eu era criança. Na Europa. — A lembrança era fraca, a imagem da aurora
boreal ofuscada pela presença dos pais. Ela não conseguia nem lembrar se tinha sido na Suíça ou
na Dinamarca, ou como era o cheiro de sua mãe: café em seu hálito ou sabonete na pele. Bree
sempre se arrependia de não ter prestado mais atenção antes de o cheiro de doença começar a
tomar conta de tudo. — Não lembro tão bem assim.
— Hum — comentou Leila, e se perdeu em pensamentos por um instante. Ela levou a mão à
boca e mastigou distraída a pele entre o polegar e o indicador.
— Há quanto tempo está na estrada? — perguntou Bree.
— Estou começando a viagem. Quanto mais perto do fim do verão, maior é a chance de ver,
por isso não tenho pressa. — Leila pôs as duas mãos no volante. — E você?
— Hum, estou viajando há alguns meses, acho. Depois de um tempo a gente perde a noção. E
é assim que eu gosto.
— Por quê?
— Quando você não tem motivo para pensar nos dias como úteis ou fins de semana, começa a
perceber que todos os dias são iguais. E isso te dá a liberdade de fazer o que quiser. É muito mais
fácil curtir o dia do que curtir uma terça-feira. Você tem obrigações na terça. Na terça você come
pizza de novo. Seu programa favorito na tevê vai ao ar na terça, sabe? Mas o dia... — ela
gesticulou para enfatizar. — O dia são apenas horas em que você está viva. Podem ser
preenchidas com qualquer coisa. O surpreendente, a rebeldia, talvez até um pouco de
contravenção. — Ela olhou para Leila para analisar sua reação. — Se é que isso faz sentido.
Leila desviou os olhos da estrada e sorriu com gratidão para Bree.
— Sim, acho que entendo o que você quer dizer. — E olhou para frente. — Curta a terça-
feira.
Alguns instantes passaram. Outra música, outra explosão de energia e vida. Bree virou para
trás para pegar uma barra de granola na bolsa e ofereceu uma a Leila, que aceitou e agradeceu.
Quando terminou de comer, Leila enfiou o papel da embalagem na sacolinha no câmbio.
— Alguma vez você já achou que era mais fácil falar do que fazer? Essa coisa de curtir o dia,
um dia de cada vez. Carpe diem é uma filosofia bem conhecida, mas, se fosse fácil pôr em prática,
não teríamos de passar o tempo todo lembrando uns aos outros.
Bree deu risada.
— É, acho que é verdade. — Era inútil, mas ela ajeitou as mechas grossas atrás da orelha
apenas para os quase dreadlocks serem novamente sacudidos pelo vento. — Você só precisa ter
alguma coisa para te lembrar sempre. Não preciso dizer a mim mesma para curtir o dia. Quando
minha atitude não é essa, tenho a sensação de estar desintegrando lentamente, ou alguma coisa
assim. Tipo, como se minha alma coçasse, e, se eu não passar a viver de maneira ativa, a coceira
não para nunca.
— Ah, é? E qual é o seu lembrete?
— Pais mortos — respondeu Bree. Ela não queria acabar com a animação, mas esse era o
único assunto sobre o qual ela nunca conseguia mentir.
— Sinto muito — disse Leila e, depois de um instante, acrescentou: — Vou usar essa coisa da
doença degenerativa como um lembrete para curtir todos os dias.
— Cala a boca.
— E então, como você sabe que está vivendo sua vida de maneira ativa? Tem uma receita exata
que possa escrever para mim?
Bree riu outra vez, feliz por não ter sido o sedã prateado a parar para lhe dar carona.
— Não tem fórmula. Ou você faz, ou não. Só sei que às vezes minha alma coça e às vezes não.
Isso, por exemplo. Essa conversa. Bem agora, a caminho de Kansas City ou sabe-se lá para onde
vamos, falando sobre essas coisas. Se eu tivesse que morrer agora, não me incomodaria muito.
Leila simplesmente assentiu e sorriu. O ruído dos pneus na estrada e o vento entrando pela
janela se sobrepuseram à música por um instante. Do lado de fora, o mundo tinha exatamente três cores: o amarelo da grama alta e seca depois de um verão sem chuva, a faixa preta da estrada e o
azul do céu para onde ela parecia subir.
Sem dizer mais nada, Leila aumentou o volume e seguiu em frente, sorrindo animada e
batucando os dedos no volante. No refrão ela cantou junto, gritando as palavras como se o
mundo tivesse que ouvi-las. Bree cantava com ela, improvisando até conseguir entender a letra.