Perdidos por aí
Capítulo 6
Hudson estava atento aos barulhos para além daqueles que fazia seu coração disparado. Eles
estavam no chão, as costas contra a terra fria. Leila mantinha o corpo colado ao dele, a pele morna
e a respiração lenta e profunda, o hálito carregado de uma doçura alcoólica. A cabeça descansava
no ombro dele, a mão ainda na de Hudson.
Eles se esconderam onde algumas árvores caídas haviam se empilhado, formando uma
pequena elevação e criando um refúgio grande o suficiente para esconder duas pessoas. Ouviram
os rapazes entrarem no barco, os remos batendo na água. Alguns instantes depois, gritos abafados
e ininteligíveis. Mais de três vozes, definitivamente. Leila e ele decidiram continuar escondidos
por mais um tempo, e isso tinha acontecido quinze minutos atrás. Agora Hudson estava deitado
ao lado dela por tempo suficiente para esquecer o perigo e ter uma breve esperança de que a vida
continuaria como antes. De que o dia seguinte seria como aquele, com a oficina e Leila. Jantar
com o pai no quintal, nada urgente para dizer um ao outro. Ele queria que pudesse ser assim
todos os dias.
Pensar no pai provocou em Hudson uma onda de vergonha e arrependimento por ter saído
escondido, por ter enganado. Então Leila apertou sua mão, e todas as ressalvas desapareceram.
Grama e folhas úmidas colavam em seus braços. Uma coruja chiou em algum lugar da ilha.
Ela olhou para ele.
— Desculpa — ela falou. — Não queria fazer você ficar fora até tão tarde. Acho que já estou
bem para nadar de volta. Vamos, você precisa voltar para casa.
— Não — Hudson respondeu. — Não tem outro lugar onde eu prefira estar. — Ele passou
um braço por trás das costas dela, a mão tocando a nuca de Leila, massageando-a com suavidade.
Ela sorriu e se aproximou um pouco mais, recostando a cabeça em seu ombro.
— Você não está preocupado com a entrevista?
— Não. Vou chegar a tempo. Agora eu só quero ficar aqui com você.
Leila se encolheu nos braços dele, recostou a cabeça em seu peito e colocou uma perna em seu
colo. Quando ele a abraçou e os dois se acomodaram, a sensação de conforto foi tão envolvente
que ele pensou que poderia adormecer ali mesmo, imediatamente. Hudson ficou olhando as
estrelas até que elas trouxeram à sua mente a lembrança da aurora boreal, e então ele olhou para
Leila.
Ele nunca fizera isso antes, só ficar tão perto de alguém. Mas isso é algo que as pessoas nunca
tiveram que aprender, nunca tiveram que estudar para fazer. Ou não, não é bem assim. Aquilo era
como consertar um motor. Tudo o que você precisa fazer é encontrar as peças certas e colocá-las
no lugar, ver como se encaixam.
Ele movia os braços para cima e para baixo nas costas de Leila, deslizando a mão por baixo da
camiseta e explorando sua pele com os dedos. Era mais como se a pele dela guiasse os dedos dele,
como se ele não tivesse opção a não ser traçar o contorno das omoplatas, seguir a renda do sutiã
da alça até o fecho. A mão dele parou ali por um segundo, depois, atraída pela pele, seguiu para a
parte inferior das costas, para as covinhas ali, a curva suave do quadril. Ele apoiou a mão bem ali, a
ponta dos dedos no cós do shorts.
Quanto tempo isso durou, Hudson não saberia. Imaginava o celular no carro de Leila, o pai
telefonando muitas e muitas vezes. Mas ter Leila a seu lado sufocava instantaneamente a
ansiedade. Ela deslizava os dedos pelo cabelo dele, perto das têmporas, massageando a cabeça. Ou
mudava a perna de posição, e ele sentia o calor da pele se transferir para lugares novos, ainda frios.
Enquanto ela estivesse ali, não seguisse para o norte e para longe dele, Hudson estaria feliz.
— Conta uma história — ela pediu, as palavras pronunciadas diretamente em seu peito, a
boca se movendo junto à pele dele.
— Que tipo de história?
— Não sei. Qualquer uma. Uma história para dormir.
Hudson estava quase dizendo que não conhecia história nenhuma, mas, em vez disso, falou
simplesmente o que estava sentindo.
— É a melhor noite da minha vida, acho. — Ele se deteve e deixou o ar do Mississippi servir
como música ambiente enquanto organizava os pensamentos. — Até agora, meu melhor
momento tinha sido no ano passado, quando um carro velho que meu pai e eu estávamos
reformando finalmente funcionou. Ou quando eu tinha cinco anos, no parque. Não lembro
muita coisa, só que tinha caído e estava com dor. Então meu pai apareceu do nada e me pegou,
como se eu não pesasse quase nada. Eu lembro como fiquei feliz e aliviado. Mas isto — ele
continuou, enfatizando ao puxar Leila mais para perto, como se fosse possível. Sentia a pele dela
preenchendo os espaços entre as costelas dele, as lacunas criadas pelos ossos do quadril. — Isto
aqui é melhor que tudo.
Hudson deixou um tempo passar, se concentrando apenas na garota em seus braços. Depois
inclinou o pescoço e beijou o topo da cabeça de Leila. Ele a beijou suavemente, não porque queria
alguma coisa, mas porque não conseguia mais guardar o beijo para si. Sem dizer uma única
palavra, Leila se virou, e, antes que ele pudesse pensar ou fazer alguma coisa, os lábios dela
estavam nos dele.
Eles se beijaram loucamente, como duas pessoas que esperavam por isso há muito mais tempo
do que eles. Os corpos pareciam se entender; os lábios se abriram no mesmo instante, as línguas
se moviam de modo sincronizado, as mãos sabiam exatamente quando se encontrar e quando explorar outras regiões. Hudson não tinha certeza se era melhor tocá-la ou ser tocado por ela, e
não estava a fim de decidir.
Ele tinha uma vaga consciência do céu noturno, das estrelas abundantes, do ruído do rio e da
vida dentro dele. Eles rolaram no chão, e Hudson só tinha noção da terra ao redor deles, mais fria
que seus corpos, ciente de um ou outro arranhão provocado pela grama ou por uma pedra. Fora
esses detalhes sem importância, seu mundo era inteiramente Leila.
Quando finalmente pararam de se beijar, Leila se encolheu junto dele, a cabeça em seu peito outra
vez, uma perna estendida sobre seu quadril. Hudson tinha certeza de que sorria feito um idiota,
mas não se importava mais.
— Posso te perguntar uma coisa? — ela falou com suavidade. Não era exatamente um
sussurro, mas o tom que Hudson sempre imaginava que as pessoas usavam quando estavam na
cama com alguém. Próximas, íntimas, as palavras chegando sem esforço ao outro.
— É claro.
Ela hesitou e tocou o maxilar dele, deslizando os dedos do queixo até a área atrás da orelha.
— Por que você quer ser médico?
A pergunta o surpreendeu, não só por causa do momento, mas porque não conseguia se
lembrar de ninguém ter perguntado isso antes.
— Humm, eu não sei — respondeu. — Eu quero. — Um mosquito passou zunindo perto de
sua orelha, e ele o espantou com um movimento desanimado. — Acho que tenho trabalhado pra
isso há tanto tempo que esqueci quando tomei a decisão.
— Bom, me conta se lembrar — ela pediu, movendo a mão até o peito dele e depositando um
beijo ali, para em seguida se apoiar sobre um cotovelo e estudar o rosto dele. Depois de um
tempo, Leila perguntou: — Você não está arrependido de ter vindo pra cá comigo?
— Nem um pouco. Estou muito feliz por ter te conhecido e não tem outro lugar onde eu
gostaria de estar agora.
Ela abriu aquele sorriso, aquele que ele sabia que compararia a outros pelo resto da vida.
Então ela o beijou, lenta e profundamente, não um beijo faminto como o de antes, mas tão rico
quanto.
— Que bom — ela disse e mudou de posição, o rosto enterrado no pescoço dele. De vez em
quando, ele sentia o contato de um beijo rápido e pensava neles como beijos que ela não
conseguira guardar. — Também gostei de te conhecer. Eu meio que não consigo acreditar que
tenha acontecido logo no começo da viagem. Esperava alguma coisa incrível. Mas não isso.
— Que tipo de coisa?
Leila se ajeitou e beijou o dorso da mão de Hudson.
— Agora não importa. Já tenho isto aqui.
Uma das mãos de Hudson repousou sobre a cintura de Leila, a outra segurava a mão dela. Ele
olhou para as estrelas no céu do Mississippi, pensando que não gostaria de partir nunca. Um
suspiro lhe escapou, tão profundo e satisfeito que bem podia ser o primeiro, a primeira vez que
respirava. Então, sentindo o peso de Leila, incapaz de conter um sorriso, Hudson fechou os
olhos.