Perdidos por aí

Adi Alsaid · Capítulo 5 de 36

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Perdidos por aí

Capítulo 5

 

 

Os amigos de Hudson chegaram carregando um robusto arsenal de cerveja barata. Eles

começaram a gritar e a aplaudir do barco, e Leila e Hudson instintivamente se afastaram. Era o

trio de sempre, John, Richie e Scott, cada um deles exibindo um sorriso grande e estúpido

conforme se aproximavam da ilha.

— Hudsy! O que você tá fazendo aqui? — perguntou John. Ele saiu do barco e se aproximou

do amigo, bagunçando seu cabelo. — Sempre teve um mulherengo por trás dessa fachada de

nerd?

— E aí, pessoal? — Hudson cumprimentou o grupo. — Hum, o que estão fazendo aqui?

— Que outra merda temos pra fazer? Uma pergunta melhor seria o que você está fazendo

aqui? E por que estão molhados? E quem é essa? — disparou John, olhando de Hudson para

Leila, depois para Hudson outra vez.

— E que raios ela tá fazendo aqui com você? — Richie acrescentou, sem fazer o mínimo

esforço para disfarçar que estava olhando para Leila, para as roupas molhadas coladas em seu

corpo. Ele correu a mão pela barba, que era vermelha e cheia, sua marca registrada desde quando

os pelos começaram a crescer em seu rosto, no nono ano.

— Meu nome é Leila — ela disse simplesmente, acenando para todos, fazendo certo esforço

para se cobrir.

Os três rapazes se entreolharam. Scott deu um passo em direção a Hudson e bateu com força

em suas costas.

— Onde você a encontrou?

Hudson deu de ombros, depois olhou para John e tentou explicar com os olhos que eles

tinham interrompido no pior momento possível e que deviam voltar imediatamente para o barco

e deixá-lo sozinho com Leila. Se seus olhos se esforçavam para transmitir a mensagem, John não a

lia. E, se John não liderasse o grupo, os outros dois nunca tomariam a iniciativa.

— Bom, Leila, é um prazer conhecer você. Agora quem quer ficar bêbado? — John pegou

uma lata de cerveja e a abriu com um estalo gratificante, a aproximando imediatamente dos lábios

para não derramar a espuma. Richie e Scott o seguiram e abriram uma lata também.

— Não vamos ficar por muito tempo — Hudson falou. — Tenho aquela entrevista amanhã.

— Ah, merda, é verdade — John respondeu. Depois de mais um longo gole, olhou para Leila.

— E você? Tem entrevista amanhã?

— Não.

— Ótimo. — E pegou uma lata da caixa que deixara a seus pés para oferecer à garota. —

Vamos jogar, então?

Scott e Richie se animaram em sinal de aprovação e bateram as latas em um brinde que

precedeu mais goles.

— Não posso, cara — Hudson recusou. — A gente vai embora logo. Eu só queria mostrar a

ilha pra ela.

— Ela não vai conhecer a ilha de verdade se não jogar Drunkball. — John deu mais um gole

rápido. — Uma rodada e você pode ir. Ela pode ficar.

John piscou para Leila, e Hudson sentiu aquela coisa que devia ser o que as pessoas chamam

de aperto no coração.

Leila olhou para Hudson, ainda tão perto que ele poderia beijá-la se tivesse coragem de fazer

isso. Como ele conseguia ver o verde dos olhos dela na escuridão?

— Uma rodada? — ela perguntou.

Hudson respirou fundo, principalmente para colocar o coração no lugar certo. Cada

momento com ela era um tesouro, mesmo que tivesse de dividi-la.

— Tudo bem — decidiu. — É meio sem sentido vir até aqui e não jogar Drunkball.

Leila aceitou a cerveja que John ofereceu, e os cinco seguiram para a parte da ilha onde havia

mais árvores. Felizmente o espaço entre elas era grande o bastante para que eles conseguissem se

mover sem se machucar. Era como se a ilha soubesse antecipadamente para que seria usada e

quisesse oferecer proteção do mundo externo, adulto, para os adolescentes que um dia a

visitariam. Além das árvores, havia uma grande clareira, embora estivesse escuro demais para

enxergar algo ali.

Scott se separou do grupo, caminhou até o galpão e ligou o gerador. As luzes se acenderam.

As lâmpadas ficavam mais ou menos na altura dos joelhos, espalhadas pelo perímetro do campo e

voltadas para a parte interna dele, de modo que a área toda, mais ou menos do tamanho de uma

quadra de basquete, era tão iluminada quanto o estacionamento de um supermercado. Objetos

aleatórios estavam espalhados por todos os lados, conferindo ao lugar uma aparência de terreno

baldio com bazar de caridade: duas poltronas reclináveis de couro idênticas, uma mesinha de

vidro, uma coleção de móveis de jardim em vários estados de deterioração. Um grande guarda-sol

estava preso ao chão, um armário cheio de copos de plástico vermelhos, uma enorme versão em

pelúcia do Rafiki, de O rei leão. Perto de uma das extremidades do campo havia um playground

com brinquedos pré-fabricados, os balanços substituídos por pneus. O que um dia devia ter sido

um agradável e remoto refúgio natural se transformara em um elaborado campo de Drunkball.

Richie e Scott, depois de alguns segundos devorando com os olhos o corpo de Leila sob a

nova luz, correram para se apossar das poltronas de couro, o que fez Richie perder duas latas de

cerveja pelo caminho. Eles lutaram pela poltrona reclinável que ainda reclinava. Scott ganhou a briga, e Richie voltou para pegar as cervejas perdidas. Em seguida, tirou um MP3 player e os alto-

falantes de dentro da mochila que levava nas costas, se abaixando para ligá-los em uma extensão

elétrica cuja outra ponta estava dentro do galpão.

— Uau, a coisa aqui é sofisticada — comentou Leila, as mãos na cintura, um leve tremor

sacudindo seu lábio inferior. Hudson sentiu vontade de abraçá-la para aquecer seu corpo. — Não

pensei que teria luz.

— Antes não tinha — respondeu John. — Foi o Hudson que teve a ideia de trazer um

gerador. Ele instalou tudo. Até construiu o galpão.

Leila ergueu as sobrancelhas para Hudson.

— É mesmo?

— Ele é um cara esperto. Por isso que ele anda com a gente. Ficou muito mais fácil jogar

Drunkball. Antes vivíamos perdendo os dados e os frisbees.

— Dados e frisbees? Como é que se joga isso?

— Vamos lá — disse John, conduzindo-os para o meio do campo. — Você já leu Calvin e

Haroldo? Aquela tirinha?

— Sim, claro — Leila respondeu. Agora ela estava alguns passos à frente de Hudson, mais

perto de John.

— Bom, o Drunkball é uma versão embriagada do Calvinball — John explicou conforme eles

se aproximavam dos móveis de jardim perto das poltronas. Hudson puxou uma cadeira para Leila

e se sentou ao lado dela enquanto John continuava falando: — A principal regra é que não há

regras. Não as estabelecidas, pelo menos. Então nunca jogamos duas vezes da mesma forma e

nunca enjoamos da brincadeira.

— E todos ficamos bêbados — acrescentou Scott, já abrindo outra lata.

— Exatamente — disse John, sorrindo. — Agora a gente se deu conta de que, por mais

divertida que a ideia seja, na verdade ela não funciona tão bem assim. Não conseguimos

improvisar tantas regras divertidas e as pessoas começam a perder o interesse. Então trouxemos

alguns elementos diferentes para o jogo para dar certa estrutura. A cada rodada é preciso ter uma

nova regra para cada elemento do jogo.

Hudson interrompeu a conversa:

— Os elementos são: frisbees, dados, cartas e a pista de obstáculos. — E apontou para o

playground. — A rodada de abertura...

— Espera um pouco, não tem bola no Drunkball? — Leila estranhou.

— Não quando este grupo está jogando — disse Richie, mal conseguindo conter uma risada

orgulhosa pela piada.

— Você entende que também está incriminando a si mesmo, certo? Se você diz que nosso

grupo não tem bolas — Hudson falou lentamente, exagerando nos gestos como se quisesse

explicar algo a uma criança. — Você faz parte desse grupo e está admitindo que não tem bolas.

Richie correu a mão pela barba, a testa franzida enquanto tentava entender o que Hudson

tinha dito.

— De todas essas coisas em que você é especialista, eu devia saber que bolas é uma delas. —

Richie e Scott bateram as mãos no ar e gargalharam.

— É impossível ser condescendente com esses caras — Hudson disse a Leila. Ela riu e deu

um gole na cerveja, apertando de leve o ombro dele.

John continuou explicando:

— Bom, sempre temos a opção das bolas — ele disse, dando uma olhada para Scott e Richie

para se certificar de que os dois não teriam outro ataque de riso, o que tiveram. — Temos todas

as opções, na verdade. Desde que seja uma regra divertida com a qual todos concordem, qualquer

jogador pode introduzir uma novidade. Os elementos estão sempre ali para nos dar um apoio.

— E como alguém ganha o jogo?

— Temos dezessete anos e uma ilha só nossa. Já somos vencedores — concluiu John.

Leila riu de novo, e Hudson se perguntou se o amigo sentia a mesma coisa que ele ao ouvi-la

rir. Se John, sendo quem a fizera rir, sentia o mesmo orgulho que ele havia experimentado, a

mesma necessidade de ser responsável pela risada dela muitas e muitas vezes.

— O jogo geralmente meio que acaba quando todo mundo fica bêbado — Hudson explicou,

vendo Leila dar mais um gole em sua lata. Era verdade o que dissera sobre não beber muito, mas,

nesse momento em particular, tomar uma cerveja com eles não era a pior coisa do mundo. Ele

pegou uma lata da caixa que John deixara sobre a mesa.

— Ei, o que você está fazendo?

— Pegando uma cerveja.

John se debruçou sobre a mesa e arrancou a lata da mão dele.

— De todas as noites em que jogamos e você nunca bebeu, escolheu justamente a véspera da

sua grande entrevista para mudar de ideia? Não, cara. Você não vai aparecer lá de ressaca. Deixe

as decisões estúpidas para os dois ali — ele apontou para Scott e Richie, que, por alguma razão

inimaginável, faziam uma luta de dedão.

— A gente ouviu isso — falou Scott, sem desviar os olhos da batalha.

— Você pode ser o juiz mais uma vez. Amanhã à noite, depois de arrebentar na entrevista, a

gente volta aqui e joga de novo. Vamos acampar, desabar aqui mesmo. Mas hoje não.

— Tudo bem — resmungou Hudson. — Acho que faz sentido.

O Drunkball começou com uma rodada de aquecimento. Um jogador virava uma cerveja

enquanto os outros lançavam os dados, um de cada vez. Eles somavam os pontos dos dados até

quem estava bebendo bater a lata vazia, de cabeça para baixo, na mesa. Então o próximo da fila

virava a cerveja, e eles repetiam a rodada. Quem acumulasse o menor número de pontos ao

terminar a cerveja era o primeiro a escolher um elemento.

Além de estabelecer a ordem dos jogadores e associar um jogador ao elemento para o qual ele

teria de criar as regras, a rodada de aquecimento também ajudava a criar o clima. E alongava os

músculos para evitar cãibras, torções e outras lesões que podem ocorrer durante esforços físicos.

Como juiz, Hudson tinha o privilégio de acrescentar qualquer regra a qualquer momento, e

se divertia com isso, fazendo os amigos falarem com sotaque ou só se moverem dando

cambalhotas. Ele adorava ver as manifestações de alegria de Leila, a forma como ela estendia a

mão e agarrava seu braço, como apoiou o rosto em seu peito para rir bem em cima de seu coração.

— Nova regra! — Leila gritou cerca de quarenta minutos depois do início do jogo. Estavam

de pé perto do playground, recuperando o fôlego depois de um esforço físico que envolvia fazer

malabarismo com os dados e correr pela pista de obstáculos. Seu cabelo estava seco, embora as

roupas ainda não, e o rosto tinha um tom levemente corado por causa do álcool e do esforço

físico. — Cada vez que um dos três olhar do meu pescoço pra baixo, vai ter que virar o resto da

cerveja. — E fez uma pausa para criar um efeito dramático, durante a qual Scott olhou para os

seios dela e bebeu feliz. — E depois o Hudson vai dar uma bofetada no infrator.

— Nem vem! — Scott protestou. — Não ouvi a regra toda.

John olhou para Hudson.

— Juiz, regra válida?

Richie interferiu.

— Espera um pouco, por que ele tem que participar da regra que você criou?

— Em primeiro lugar, porque ele não está me olhando como se eu fosse um vídeo pornô de

trinta segundos na internet.

— E eu tô? — Richie tentou parecer indignado, apesar de imediatamente comprometer sua

credibilidade olhando para onde não devia.

— Ah! Você também, vira a cerveja e toma um tapa do Hudson! — ela riu, então se

aproximou de Hudson e o pegou pelo braço para conduzi-lo até Richie e Scott. — Em segundo

lugar — ela continuou, perfilando os dois e passando as cervejas que teriam de virar —, eu gosto

do amigo de vocês. Caso não tenham percebido, quando vocês chegaram eu estava prestes a

demonstrar quanto. Então, por terem interrompido a gente, ele vai bater em vocês.

Leila olhou para Hudson e bebeu um gole de cerveja, cambaleando de leve. Depois entrelaçou

os dedos nos dele.

— Então, juiz, regra válida?

Hudson olhou para os amigos. Scott e Richie bebiam obedientemente toda a cerveja que

havia nas latas, e John sorria para Hudson com o ar confiante, o incentivando a cumprir a nova

regra. Os dedos de Leila acariciavam os dele.

— Regra válida — ele anunciou.

Quando erguia a mão para dar uma bofetada em cada um, um barulho soou em meio às

árvores. Todos olharam na direção do ruído e paralisaram, tentando determinar se tinham

imaginado aquilo ou se era, talvez, um pequeno animal. Então eles ouviram de novo, diferente

dessa vez: uma voz. John correu para o galpão e desligou o gerador. A ilha ficou completamente

escura de novo. Os cinco prenderam o fôlego, os olhos se ajustando à escuridão. Hudson sentiu

Leila se aproximar, encostar o corpo no dele.

Então um raio de luz brilhou entre as árvores do outro lado do campo, oposto ao lado por

onde tinham chegado. Ninguém se mexia.

— Acham que é a polícia? — Richie sussurrou.

Ninguém disse nada. Ficaram parados até virem outro raio de luz, depois mais um.

— Para o barco! — Scott falou um pouco alto, e eles começaram a correr para as árvores,

rindo com a adrenalina de uma perseguição.

Hudson e Leila ficaram para trás. Corriam de mãos dadas, tentando guiar um ao outro e

evitar as pedras no chão e os galhos mais baixos. Hudson queria dizer aos amigos que o barco não

era uma boa ideia. Mas eles já estavam longe e Hudson não queria gritar, então tentou ir mais

depressa. Leila abafava o riso e se esforçava para acompanhá-lo. Quando ele pensou que tinham

perdido os outros de vista, tropeçaram em John.

— Vamos distrair os caras — falou John. — Não faz mal se pegarem a gente, mas não vou

deixar você pôr em risco sua bolsa de estudos por causa de uma prisão por invasão de

propriedade. Desapareça. — E ele voltou pelo meio das árvores antes que Hudson pudesse

protestar.

— Merda — resmungou Hudson, olhando ao redor, tentando decidir em que direção seguir.

Mas, antes que pudesse escolher, Leila o puxou pelo braço e os dois caíram. Com medo de que ela

estivesse machucada, Hudson a chamou pelo nome para perguntar se estava bem. Foi quando ela

se aproximou e pressionou um dedo contra sua boca.

— Shhh. Estamos seguros aqui.