Perdidos por aí

Adi Alsaid · Capítulo 17 de 36

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Perdidos por aí

Capítulo 3

 

 

A música da parada de sucessos enchia a escuridão do salão de baile do hotel, onde a formatura

continuava animada. Luzes coloridas dançavam loucamente pelas paredes. Um palco fora

montado para a banda do outro lado do salão e havia uma grande pista de dança. Todos os casais

dançavam juntinhos para impedir que os adultos vissem quem estava colado em quem.

Elliot e Leila estavam no banheiro masculino. Elliot pedira um minuto para ir se limpar, mas

Leila o seguiu, examinando a bancada de pias em busca de poças de água antes de se sentar na

superfície de mármore.

— E aí, qual é o plano? — Ela teve que falar alto, já que as paredes praticamente pulsavam

com a música do salão de baile. As luminárias de vidro colorido penduradas nas laterais do

espelho vibravam como tambores.

Elliot tirou o paletó e começou a umedecer algumas toalhas de papel.

— Hum, não sei, na verdade. Acho que a estratégia de declarar meu amor para ela não

funcionou muito bem, então é melhor tentar outra coisa. Algo...

Ele fez um gesto com a mão, como se tentasse tirar do ar a palavra seguinte.

— Não sei — concluiu. — Alguma coisa mais eficiente, espero. — E tentou não sentir ânsia

enquanto removia pedaços de comida do smoking.

— Alguma coisa maior — disse Leila. Então tirou uma embalagem de chiclete do bolso do

vestido e ofereceu a Elliot. — Maior e um pouco mentolada, talvez. Sem querer ofender.

Ele aceitou e enfiou dois chicletes na boca, grato e envergonhado.

— Claro. Algo maior funcionaria. — Ele pingou uma gota de sabonete sobre o tecido,

esperando que, milagrosamente, tudo parecesse impecável. — Alguma coisa mais

cinematográfica.

Eles ficaram quietos por um instante, ouvindo a música além das paredes enquanto Elliot

fazia o possível para deixar o smoking apresentável. Então eles ouviram o pessoal assobiando e

gritando conforme a banda parava de tocar.

— Vamos fazer um rápido intervalo e voltamos para a última sequência da noite.

Mais gritos.

Alguns instantes depois, três membros da banda entraram no banheiro, se cumprimentando

pelo andamento da apresentação. Elliot os conhecia do colégio. Dois eram formandos, assim como ele. O baterista, Kurt, era da sua turma de inglês. O terceiro era aluno do segundo ano,

lendário por sua habilidade com a guitarra. Havia boatos de que a banda tinha shows marcados

na costa Leste pelo resto do verão, graças ao guitarrista. Os três se detiveram quando viram Leila

sobre a bancada.

— Vocês estão no lugar certo — ela disse, acenando para que entrassem.

Os garotos olharam para Elliot, que deu de ombros. Eles hesitaram, mas então devolveram o

gesto de Elliot e se aproximaram dos mictórios. Kurt disse oi quando passou por ele.

— O que aconteceu com você? — perguntou ao ver o smoking e a mão enfaixada.

— É uma longa história — respondeu Elliot, agora esfregando a calça, tentando não usar

muita água para que não parecesse que também havia urina no smoking, o único fluido corporal

que conseguira evitar.

— Eu bati nele com meu carro e depois ele vomitou — Leila resumiu.

— Tudo bem, não é uma história tão longa — Kurt riu. — Pensei que você tivesse ficado

aqui o tempo todo.

— Saí por um tempinho — Elliot falou, não querendo explicar tudo.

Aparentemente, Leila não se importava com a exposição.

— A Maribel deu um fora nele. — Elliot a encarou sem poder acreditar. — O que foi? Você

não é o James Bond — Leila reagiu. — Não tem motivo para manter isso em segredo. Se você

gosta dela, precisa deixar o mundo saber. Simples assim.

Kurt fechou o zíper da calça e foi lavar as mãos.

— Todo mundo meio que já sabe, cara. O que aconteceu? Só amigos mesmo?

Os outros dois membros da banda ignoravam a conversa e discutiam o que tocar na

sequência. Eles deram descarga e se aproximaram da pia, e Elliot deu um passo para o lado para

usarem a torneira.

— Não — disse Elliot. — Não foi isso. Essa coisa de só amigos elimina todo o sofrimento.

Vamos dar o nome certo às coisas: a garota que eu amo não me quis.

— Foi uma rejeição precipitada — Leila falou. — Ele ainda vai conquistar a garota.

Kurt usou o secador de mãos por alguns segundos antes de terminar de enxugá-las batendo

na parte de trás da calça.

— Ah, é? E como você planeja fazer isso?

— Ainda não temos um plano — Leila respondeu. — Só sabemos que vai ser algo grandioso.

Elliot deixou o paletó sobre a bancada, desistindo das manchas e apenas passando a toalha de

papel sobre as partes que ainda estavam molhadas. Ele deu uma olhada para Kurt, para Leila e

depois para os outros membros da banda.

— A gente tem cinco minutos para decidir — dizia o guitarrista quando o secador de mãos

desligou. — Podemos esticar um pouco a brincadeira ou, sei lá, seria divertido tocar “Don’t You

Forget About Me”. Uma ironia, sabe como é.

— Nunca ensaiamos essa — respondeu o cantor, os olhos vagando para o local onde Leila

estava sentada.

— O que acha de uma música do Weird Al?

— Caramba, cara, a gente precisa de alguma coisa ensaiada.

— Merda, desculpa por tentar pensar em alguma coisa. Você ainda não sugeriu nada — o

guitarrista resmungou.

— Não se trata de pensar em alguma coisa. Precisamos de mais uma música na sequência, e

temos duas que ainda não tocamos. Ou vamos tocar “All That She Wants”, do Ace of Base, ou

“99 Problems”, do Jay-Z. Qual delas?

Elliot já conseguia imaginar: os ângulos da câmera, as imagens da multidão cantando junto,

closes do rosto sorridente de Maribel entre uma cena e outra, o tipo de energia que deixa a gente

sem ar.

— Acho que tenho uma ideia — ele disse.

 

Houve um momento de empolgação e autoconfiança antes de Elliot se dar conta de que teria de

subir no palco e cantar. E não seria uma música qualquer, seria “All That She Wants”, sobre uma

mulher tão solitária que sai à procura de homens, tentando engravidar. Não era o ideal, mas ele

sabia todas as letras do Ace of Base, graças à obsessão do pai pela banda.

A esperança era que dizer as palavras “Essa é pra você, Maribel” de cima do palco fosse

suficiente. Se aprendera alguma coisa com os filmes, era que passar vergonha em nome do amor

só podia ter resultados positivos.

Eles saíram juntos do banheiro, Leila escondida entre eles para impedir que o segurança na

porta a visse.

— Voltamos ao palco em cinco minutos. Vamos cantar as últimas músicas da sequência para

animar o pessoal e depois chamamos você — Kurt explicou, e foi nessa hora que os nervos de

Elliot entenderam a situação.

Ele sentiu que começava a suar, o que fez a mão enfaixada coçar. Olhou ao redor tentando

encontrar Maribel. Já não tinha mais tanta gente como na hora em que ele saíra dali, mas o salão

continuava cheio, alguns garotos dando uns goles em garrafas escondidas perto da mesa de

petiscos, casais se agarrando nas paredes, os que estavam sozinhos se reunindo em grupos.

— Onde ela está? — perguntou Leila. — Me mostra quem é.

— Leila, acho que não vou conseguir. — O estômago dele roncou como se concordasse. Ele

se perguntou se o hospital não deveria ter feito uma lavagem estomacal, mesmo que ele já meio

que tivesse resolvido isso sozinho. — Não sei cantar. Não sei dançar. Nunca nem fui a um

karaokê. — Ele começou a respirar mais depressa. — Meu Deus, o que foi que eu fiz?

Leila parou diante dele e pôs as mãos em seus ombros.

— Ei, olha para mim. — Ela o encarou até ele sustentar o olhar. — Vai ficar tudo bem. É

sempre um pouco assustador ir atrás do que você quer, mas ela vai ver o que você está disposto a

fazer por ela e vai adorar. Você consegue.

— Não, é sério. Não sei cantar. Não sei quantas cordas vocais as pessoas têm normalmente,

mas eu devo ter metade. Quando tento cantar no chuveiro, a água esfria. Toda vez, eu juro, como

se tentasse me fazer parar.

— Elliot — Leila falou. — O que viemos fazer aqui?

— Ter um ataque de pânico?

Leila o sacudiu.

— Fala.

Ele olhou em volta. Podia ver alguns dos seus amigos do outro lado, todos meio bêbados, mas

entediados. Uma garota da sua turma de cálculo estava sozinha em uma das mesas, digitando

furiosamente no celular. Dois professores tomavam conta da saída de emergência sem tomar

conta de nada, mas tentando dar a impressão de que era isso que estavam fazendo. Elliot queria

dar uma olhada em Maribel em seu vestido roxo, mas também estava ciente de como seria

doloroso vê-la de novo.

— Fala — Leila repetiu.

Ele se esforçou para resmungar uma resposta, algo que nem ele conseguiu ouvir. As pessoas

aplaudiram entusiasmadas quando a banda voltou para o palco.

— Tudo bem, eu digo o que viemos fazer. — Leila segurou a mão dele e o conduziu para

algumas cadeiras próximas. Ela o fez sentar e puxou outra para se acomodar na frente dele. —

Quero que feche os olhos e se imagine beijando a Maribel. Na frente de todo mundo, ou em

algum lugar privado, ou em qualquer outro lugar.

Elliot fez o que ela disse. O pensamento lhe veio naturalmente, ele vinha pensando nisso havia

muito tempo. Sentiu um arrepio alegre lhe descer pelas costas no instante em que imaginou os

lábios tocando os dela. A mente criou a cena do beijo em um descampado, em um piquenique; na

cama dela com todos aqueles travesseiros; casualmente no cinema, antes de as luzes se apagarem,

como se a beijasse houvesse anos.

— Se não fizer isso, provavelmente você nunca vai beijar a Maribel — disse Leila. — Nunca.

Então é muito simples. Vai lá cantar. Cante bem ou mal, não importa, desde que você ponha a

merda do seu sentimento para fora — Leila concluiu, erguendo a voz quando a banda voltou a

tocar.

Embora ainda estivesse nervoso, Elliot se pegou assentindo.

— Não sei o que dizer da minha sorte depois de quase ter sido atropelado pela única pessoa

em Minnesota capaz de fazer um discurso como esse.

Era difícil afirmar sob aquela iluminação horrível, mas Leila parecia um pouco vermelha.

— O que eu posso dizer? Sou uma romântica incorrigível. Talvez um dia você retribua o

favor.

A banda terminou de tocar uma versão divertida de um rap famoso, e, quando todos pararam

de aplaudir, Kurt pegou o microfone preso à bateria.

— Agora, senhoras e senhores, temos uma surpresa muito especial para vocês. Por favor,

recebam neste palco, em nome do amor, a performance de Elliot Pinnik!

Umas duas pessoas aplaudiram e alguém assobiou. Elliot praticamente pulou da cadeira e

começou a caminhar para o fundo do salão, marchando para não ter tempo de mudar de ideia.

Uma garota bêbada que ele não conhecia gritou:

— Vai, Elliot!

Ele passou pelos amigos, que pareciam confusos sobre onde ele estivera e por que subiria no

palco.

Elliot subiu a escada lateral e evitou olhar para a plateia, caminhando diretamente até o

cantor. Quando pegou o microfone e olhou para as pessoas, se surpreendeu ao ver que tudo era

escuridão. As luzes brilhantes voltadas para o palco só permitiam ver silhuetas, e sua náusea

diminuiu. Mais algumas pessoas assobiaram.

— Maribel — ele disse, desconhecendo a voz nos alto-falantes —, esta é pra você. Kurt bateu

as baquetas.

— Um, dois, três, quatro — gritou, e a música explodiu em volta de Elliot.

Ele se sentia nadando na melodia, como se a música brotasse do ar. Começou a bater com a

mão que não estava machucada na lateral da perna, acompanhando o ritmo, depois balançando a

cabeça. Antes de se dar conta, estava segurando o pedestal e dançando, esperando outras notas até

chegar sua vez de entrar na canção.

Quando cantou as primeiras linhas da letra, nem parecia que o som saía de dentro dele.

— She leads a lonely life — gritou ele ao microfone.

Elliot podia ouvir o barulho da plateia em meio à música. A situação o fez pensar na cena de

Curtindo a vida adoidado, quando Matthew Broderick canta “Twist and Shout” no desfile.

Canalizando seu Ferris interior, Elliot começou a pular pelo palco, fechando os olhos enquanto

cantava:

— All that she wants is another baby. — Ele saltou sobre a plataforma elevada onde estava a

bateria de Kurt, pulou do outro lado sobre o palco e tocou guitarra aérea ao lado do guitarrista

do segundo ano. Sempre ouvia as pessoas dizerem que era preciso dançar como se não tivesse

ninguém olhando, mas até aquele momento nunca tinha entendido realmente o que isso

significava. Alguma coisa simplesmente se soltou dentro dele, e a sensação era fantástica.

A música acabou antes que ele percebesse, e, quando os últimos instrumentos silenciaram e o

barulho da plateia aumentou, Elliot sentiu que era o próprio Ferris Bueller. Ele se sentia pronto

para pular do palco e beijar Maribel. Imaginou as pessoas lá embaixo abrindo caminho para o

beijo acontecer.

E foi isso que ele fez. Pulou do palco procurando Maribel em meio à multidão antes mesmo

de chegar ao chão. Porém, em vez de lhe dar passagem, a plateia o cercou. Mãos batiam em suas costas e se erguiam no ar tentando cumprimentá-lo.

— Isso foi incrível! — gritou um jogador de futebol com quem ele nunca tinha falado antes.

Abrindo caminho por entre as pessoas, Elliot continuava procurando Maribel e até chamou

por ela algumas vezes, embora ninguém prestasse muita atenção no que ele dizia; estavam todos

ocupados demais elogiando a apresentação.

Por fim, a música de fundo começou a brotar dos alto-falantes, e ele encontrou mais espaço

para se mover. Elliot avistou os amigos e, meio ofegante, se aproximou deles.

— Caramba, cara — disse Mario. — Aquilo foi incrível. Não consigo acreditar no que você

acabou de fazer. — Mario era o melhor amigo de Elliot havia anos e raramente elogiava alguma

coisa.

— Obrigado — Elliot respondeu, e os outros membros do grupo também o

cumprimentaram. — Vocês sabem onde está a Maribel? Não a vi por aqui.

— Ah, ela foi embora — disse Mario.

— O quê?

— É, faz uma hora, mais ou menos.

— Mais, provavelmente — Damon acrescentou.

— Merda — resmungou Elliot.

— É, isso vai acabar com a sua empolgação — Mario comentou. Ele tirou uma garrafinha do

bolso interno do paletó, bebeu um gole e a passou para os colegas. — Ela foi à festa na casa

daquele tal de Bobby. Nós também vamos pra lá. Aqui já era. Você deu um show, cara. Não

conhecia esse seu lado artístico.

Mario deu um soco de leve no ombro de Elliot, que nem percebeu o contato. Como lhe

acontecera na maior parte da noite, seus sentimentos se concentravam no estômago, que parecia

dizer em sua linguagem de grunhidos e gorgolejos: “Droga”. A adrenalina desapareceu de suas

veias. Imaginava Maribel em uma festa, segurando um copo de plástico vermelho, conversando

com as amigas sem nem sequer saber de sua apresentação.

Leila se aproximou da roda, os olhos arregalados e cheios de entusiasmo.

— Deu certo? Onde ela está?

— Ela foi embora — Elliot respondeu.