Perdidos por aí

Adi Alsaid · Capítulo 22 de 36

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Perdidos por aí

Sonia

1

 

O barulho no restaurante se tornara um rugido sombrio. Garfos tilintando nos pratos, risadas

ecoando nas paredes de tijolos. De pouco em pouco, um ajudante carregando um recipiente de

plástico cheio de pratos sujos abria a porta da cozinha e deixava escapar uma cacofonia de

conchas raspando panelas, o chiado de alguma fritura.

Sonia fechou os olhos como Sam lhe ensinara e ouviu uma ou outra palavra que se

sobrepunha ao ruído. Às vezes, os dois faziam uma lista das palavras que ouviam e as juntavam em

frases sem sentido. Sonia nunca contou a Sam que costumava guardar essas frases em segredo.

Ela as transformava em verso em um poema ou em diálogo em um conto.

Nos meses seguintes à morte de Sam, no entanto, Sonia só conseguia ouvir o nome dele no

burburinho.

Por que esperava que as coisas fossem diferentes no jantar de ensaio do casamento da irmã de

Sam, ela não sabia. Sonia abriu os olhos e viu Martha e Liz acenando para ela do outro lado do

restaurante. Ela forçou um sorriso e se aproximou, as cumprimentando com abraços, como se

não se vissem havia muito tempo.

— Meu Deus — disse Liz, estendendo a taça de vinho para um garçom que passava

completar. — Você fica linda nesse vestido.

— Absolutamente linda — Martha concordou, fazendo Sonia corar.

— Se Sam estivesse aqui, ele não conseguiria manter as mãos longe de você — comentou Liz,

dando uma cotovelada de leve em Sonia. Martha lançou um olhar duro para ela, mas Liz só deu

de ombros e disse que era verdade.

Sonia olhou para o vestido florido como se ele a envergonhasse, alisando a saia com os dedos.

— Ele teria adorado aquelas coisinhas de frango tailandês.

— Eu sei! — gritou Liz. — Quando fizemos a degustação, havia muitas opções de canapés

deliciosos, mas não consegui tirar esses da lista. Sam teria me matado se soubesse que recusei

alguma coisa tailandesa.

O rugido abafado do barulho no restaurante tinha voltado, e as três olharam para o salão, os

olhos seguindo a trajetória de um garçom por entre as mesas, enchendo as taças de vinho.

Sonia bebeu um pouco de seu refrigerante, tentando não olhar na direção do padrinho do

noivo.

— Obrigada de novo por me convidar para ser dama de honra — disse. — É muito

importante para mim.

Liz revirou os olhos.

— Para de agradecer. Teria sido muito estranho você não ser minha dama de honra.

— Eu sei, mas ainda assim...

— Mas nada. Você é praticamente minha irmã. — Ela bebeu um gole de vinho e acenou para

alguém. — O dever me chama. — Ela sorriu e abriu caminho até um grupo de amigos em uma

mesa de canto.

— Dá para acreditar que ela vai casar? — Martha perguntou. — Estou me sentindo velha.

— Quando a gente se viu pela primeira vez, ela estava descendo a escada de pijama,

carregando aquele pato de pelúcia. Parecia ter doze anos. Achei que o Sam tinha mentido para

mim sobre ter uma irmã mais velha que estava na faculdade.

— O Roger disse que de vez em quando ela ainda dorme com o pato.

Sonia riu.

— Acho que não tem nenhuma regra que diz que você deve se desfazer dos seus bichinhos de

pelúcia depois do casamento.

— É — Martha concordou, os olhos ainda fixos em Liz. — Ainda a vejo com aquela idade.

Doze anos, quero dizer. Carregando cadernos cheios de nomes de garotos, se contorcendo

quando eu a abraçava em público. Ainda a vejo com dois anos, espalhando comida no cabelo.

Ainda vejo os dois em todas as idades que tiveram. — Ela ficou em silêncio, então balançou a

cabeça e olhou para Sonia. — Olha só, estou ficando nostálgica.

— Tudo bem — disse Sonia. Os barulhos que vinham da cozinha agora pareciam tênis de

basquete guinchando na quadra. Sonia lembrou como Sam costumava passar a mão na sola do

tênis obsessivamente para limpá-la. Suas palmas estavam sempre pretas no fim das partidas, e

Sonia se preocupava com germes.

— Estou muito feliz por você ter vindo. Não teria sido a mesma coisa sem você. — Martha

deixou escapar um suspiro, depois tocou o ombro nu de Sonia. — Este é um fim de semana de

comemoração. Você devia beber um pouco de vinho.

— Vou beber — Sonia respondeu, embora não tivesse a menor intenção de se consolar com

álcool. Se havia uma comemoração a celebrar, teria que contar só com Jeremiah. Assim que esse

pensamento passou por sua cabeça, Sonia sentiu uma onda de culpa a invadir e decidiu que uma

taça de vinho podia ser uma boa ideia. — Vou buscar uma taça agora mesmo.

— Ótimo — Martha respondeu, a mão apertando de leve o ombro de Sonia. — E não se

esqueça de comer a sobremesa também, é a sua preferida. Torta de limão.

Sonia sorriu, depois virou para procurar um garçom com uma bandeja de taças de vinho.

Assim que deu as costas para Martha, sentiu seus olhos se encherem de lágrimas. Ela pegou um

guardanapo de uma mesa próxima e passou de leve no canto dos olhos, para evitar que a

maquiagem borrasse.

Mais tarde naquela noite, Sonia saiu do quarto de hotel e, vestindo uma camiseta de dormir e

shorts, seguiu pelo corredor na ponta dos pés para ir bater à porta de Jeremiah. Enquanto andava,

sentia nas veias o efeito do álcool dos drinques que ingerira no bar do hotel com o pessoal do

casamento. Jeremiah abriu a porta com a camisa desabotoada, as sombras enfatizando os

músculos abdominais que não haviam desaparecido completamente durante o ano de bebedeira e

preguiça desde que fora para a faculdade.

— Ei — ele falou.

Ela hesitou por um instante, sem saber ao certo por que estava ali. Seria mais seguro, mais

inteligente, voltar para o seu quarto e escrever como fazia todas as noites antes de dormir. Então

Jeremiah sorriu daquele jeito dele e estendeu a mão e ela lembrou como a presença dele era

reconfortante.

Jeremiah a puxou para um beijo, fechando a porta atrás dela.

— Passei o dia todo esperando por isso — disse ele, os lábios roçando os dela e os pés se

movendo, recuando até caírem na cama. Sonia podia sentir o gosto do vinho na própria boca, o de

cerveja na dele. Ela tirou a camiseta e se inclinou novamente para beijá-lo.

— Eu também — disse, sentindo as mãos dele deslizando por seus cabelos.

Sonia sentiu as batidas do coração dele, sentiu as próprias batidas em resposta. Tentava não

imaginar uma doença escondida lá dentro, alguma coisa prestes a explodir silenciosamente em seu

cérebro. Desde a morte de Sam, ela havia começado a ver doença em todos que a cercavam.

Sempre que recostava a cabeça no peito de Jeremiah, tinha de se controlar para não contar os

batimentos, ouvir as falhas que poderiam levá-lo também.

— Ninguém no planeta beija melhor do que você — Jeremiah sussurrou.

— Tem certeza?

— Sim — ele respondeu, se afastando dos lábios dela para começar a lhe plantar aqueles

beijos rápidos que gostava de depositar no canto de sua boca e nas bochechas, como se não

pudesse deixar de beijar um único centímetro da sua pele. — Fiz uma grande pesquisa. Milhares e

milhares de mulheres.

Ela se afastou, segurando a cabeça dele no lugar para que ele não pudesse segui-la para mais

beijos.

— Que conversa de travesseiro mais horrorosa. Por favor, não comece a falar de estatística.

Ele escapou das mãos dela e olhou para onde sua cabeça estivera descansando sobre a cama

um segundo antes.

— Tecnicamente, isso não é conversa de travesseiro. Estamos a pelo menos dois desvios

padrão do travesseiro mais próximo.

— Não sei muito sobre estatística, mas tenho certeza de que essa afirmação não fez sentido

nenhum.

— Você não faz sentido nenhum — ele devolveu, puxando-a para mais um longo beijo.

Na primeira vez em que se beijaram, Sonia ficou chocada. Foi um beijo incrível, difícil de

interromper, daqueles que persistem nos lábios por tanto tempo que ela passou o restante da

noite se sentindo culpada por pensar se Sam beijava tão bem, ou se ela não notara a diferença até

Jeremiah aparecer.

Como costumava fazer, Jeremiah interrompeu o beijo de repente e mudou de posição,

puxando-a para baixo dele. Ele simplesmente olhou para ela, as mãos alisando seus cabelos de um

jeito que despertava nela a vontade de fechar os olhos e sorrir por horas.

— O que você tá fazendo? — Sonia o puxou mais para perto.

— Só olhando — Jeremiah sorriu. Ele sustentou o olhar dela por um segundo e então a

beijou no pescoço. Sonia notara que ele não era capaz de sustentar contato visual por muito

tempo e, por alguma razão, adorava aquele pequeno sinal de timidez. — Você é muito linda.

Sonia sorriu, o puxando para um abraço, enroscando as pernas nas dele.

— Sua conversa de travesseiro melhorou muito nos últimos trinta segundos.

— De novo, não é conversa de travesseiro — ele disse, estudando o rosto dela como se nunca

tivesse visto nada parecido.

O quarto estava quieto, exceto pelo ruído do ar-condicionado e pelo estalido suave e

ocasional dos beijos de Jeremiah. Sonia viu de relance a tela da tevê muda mostrando destaques

do esporte e se sentiu grata por não ser temporada de basquete. Do lado de fora, a julgar pelo som

das gargalhadas, duas pessoas passaram bêbadas pelo corredor, provavelmente outros convidados

do casamento. Jeremiah desceu a mão dos cabelos até a omoplata de Sonia, deslizando um dedo

para cima e para baixo algumas vezes antes de se inclinar para refazer o caminho com beijos.

Era só nesses momentos que a ausência de Sam não doía. Quando o momento terminasse e

ela voltasse sozinha para o quarto, Sonia sabia que a culpa a impediria de dormir. Mas por ora

aquela dor constante com a qual convivia fazia quase um ano era quase esquecida.

— Quero dançar com você amanhã — disse Jeremiah. — No casamento.

Sonia suspirou.

— Com a família do Sam lá? Ah, acho que não.

— Por favor. Ando procurando na internet tutoriais em vídeo sobre como dançar salsa, e

estou quase conseguindo dançar no ritmo.

— Impressionante. Mas vai ter que exibir suas habilidades com outra pessoa.

— Não quero dançar com outra pessoa.

— É muito doce da sua parte — Sonia respondeu tocando o rosto dele. — Mas não vai rolar.

— Por que não?

— Porque eles vão perceber — ela disse simplesmente, esperando que isso acabasse com a

conversa.

Jeremiah suspirou, puxando um fio do edredom perto da cabeça de Sonia e enrolando-o entre

os dedos. Ele a encarou, os lindos olhos verdes com uma ponta de tristeza.

— E daí?

Sonia se inclinou para beijar a região onde o pescoço e a mandíbula dele se uniam. De vez em

quando, quando estavam namorando, ele se detinha e apontava para aquele ponto, dizendo:

— Aqui.

Foi a expressão em seu rosto depois de um desses beijos que fez Sonia se dar conta de que o

amava, embora ainda tivesse de dizer isso a ele.

— Não vamos falar sobre isso — ela falou.

Jeremiah se afastou.

— Acho que a gente devia falar.

Sonia gemeu e rolou para o lado. A dor sombria voltou ao estômago, aquela área escondida

de suas entranhas que ganhou vida assim que Sam faleceu. Sonia se dirigiu à escrivaninha em um

canto do quarto. Puxou a cadeira com um movimento brusco e teve de segurar o paletó do

smoking que Jeremiah pendurara ali.

— Você não quer ficar comigo? — Jeremiah perguntou, sentando e evitando encará-la.

— Você sabe que não é isso — Sonia respondeu, dobrando o paletó sobre o colo e alisando o

tecido.

— O que é, então? — Sonia não disse nada. — Sei que você tem passado por muita coisa, So.

Sei que uma parte sua ainda ama o Sam e provavelmente vai amá-lo para sempre. Eu entendo

totalmente, e nunca pediria para você tentar esquecê-lo. — Ele esfregou um braço no outro,

estalou os dedos e olhou para o teto. Quando falou novamente, sua voz estava tremendo, e a

expressão de sofrimento no rosto dele fez Sonia querer beijar o pescoço dele e, ao mesmo tempo,

berrar com ele por ter criado essa situação. — Eu sou louco por você, louco demais para manter

tudo isso em segredo.

Sonia cruzou os braços, se sentindo exposta de repente. Ela o encarou. O olhar dele

encontrou o dela e Jeremiah não desviou os olhos, e ela podia sentir as lágrimas se formando.

— Eu simplesmente não posso dançar com você — disse.

— Pode sim. Ia ser só uma dança.

Sonia sentiu um arrepio e desdobrou o paletó que estava sobre as pernas para vesti-lo, embora

isso não fosse acalmar o arrepio em sua pele.

Jeremiah ainda a encarava, e agora ela podia ver um brilho novo em seus olhos.

— Você já superou? O suficiente para ficar comigo?

Ela tentou sufocar o soluço em sua garganta, mas ele explodiu alto e claro no silêncio do

quarto de hotel.

Finalmente rompendo o contato visual, Jeremiah abaixou a cabeça.

— Preciso de um tempo sozinho — disse.

Assim que saiu do quarto, Sonia se sentiu sufocar. Ela se apressou pelo corredor para apanhar

a bolsa no quarto, depois desceu a escada desesperada por ar fresco. Só quando já estava fora do

prédio se deu conta de que ainda vestia o paletó de Jeremiah.

Tudo na cidade de Hope, em British Columbia, gritava excentricidade. Os postes da

iluminação pública imitavam antigas lâmpadas a gás. As ruas eram ladeadas por prédios de três andares, lojas familiares, vasos de flores e tantos bancos que a cidade inteira poderia se sentar ao

mesmo tempo e sem aviso prévio. As belas ruas eram perfeitas para os passeios de mãos dadas que

ela e Sam costumavam dar sempre que a família dele a convidava para se hospedar no chalé que

mantinham ali. Ela tentara muitas vezes capturar o encanto da cidade em seus textos, mas nunca

conseguira.

Sonia seguiu até uma loja de conveniência, esperando que ainda estivesse aberta para poder

comprar algo que pudesse acalmá-la. Na metade do caminho, explodiu em lágrimas outra vez e

teve que parar para se apoiar em um carro, os soluços rasgando seu peito e brotando na forma de

tremores que eram como pequenas convulsões.

— Você está bem?

Sonia levantou a cabeça. Uma garota mais ou menos da sua idade estava parada diante dela

com um copo de café em uma das mãos e a chave de um carro na outra. Sonia se afastou do

veículo e assentiu, mas não conseguiu conter os soluços. A garota ofereceu um guardanapo, Sonia

o aceitou e limpou o nariz.

— Desculpa — falou.

— O que aconteceu?

— É complicado — Sonia respondeu, se perguntando se ela e Jeremiah ainda estariam juntos.

Pensar nisso a fez chorar ainda mais. Ela tentou se acalmar respirando fundo algumas vezes, se

concentrando nos detalhes: uma rachadura na calçada, a mosca na janela da loja de conveniência.

— Tem alguma coisa que eu possa fazer? — a garota perguntou. — Quer um café?

Sonia balançou a cabeça.

— Obrigada. — Amassando o guardanapo usado, ela soltou: — Na verdade, será que você

pode me dar uma carona? Para qualquer lugar. Só preciso me afastar daqui.

A garota de cabelo preto assentiu, a testa franzida em sinal de preocupação.

— Claro. Entra aí.