Perdidos por aí

Adi Alsaid · Capítulo 29 de 36

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Perdidos por aí

Capítulo 8

 

O trajeto do hotel à igreja era lindo. Tudo era verde, e o céu ficou limpo de repente. O caminho

contornava o lago, e, embora fosse início de agosto, tudo parecia desabrochar. Flores roxas,

brancas e cor-de-rosa salpicavam a paisagem. Flores amarelas brilhantes cresciam na lateral do

asfalto, se debruçando sobre a rua como se pedissem para levá-las.

O pai de Sam, Bill, dirigia em silêncio, atento à estrada. Ele odiava velocidade e normalmente

pedia para Martha dirigir quando viajavam. Mas Martha estava no banco de trás ajudando Sonia

com a maquiagem. Sonia podia ver pelo retrovisor o suor se formando na raiz dos cabelos de Bill.

— O outro olho — disse Martha, virando a cabeça de Sonia com delicadeza para aplicar o

delineador. — O que você fez a manhã toda? Não desceu para tomar café com todo mundo?

— Não — Sonia respondeu. — Só meio que fiquei na cama tentando dormir mais. — Ela

olhava pela janela, apreciando a viagem de carro, ensaiando mentalmente tudo o que queria dizer.

— A Liz escolheu uma boa data — comentou, admirando a beleza do dia.

— É engraçado, eu podia jurar que o dia começou nublado — Martha respondeu, virando a

cabeça para olhar para cima, para além das copas das árvores pelas quais passavam. — Mesmo que

houvesse nuvens, a Liz encontraria um jeito de se livrar delas. Aquela garota sabe como ir atrás do

que quer.

— Nada parecida com a mãe — comentou Bill, olhando pelo retrovisor para ver se Sonia ria

da piada. Ela sorriu para ele e desviou o olhar, incomodada com a semelhança entre os olhos dele

e os de Sam.

Quando chegaram à igreja, os pajens ainda não estavam conduzindo as pessoas para o interior.

Convidados se aglomeravam perto da entrada, procurando sombra, posando para fotos, uns com

os braços ao redor dos outros. O burburinho coletivo era o único som audível, e Sonia sabia

exatamente o que ouviria se fechasse os olhos e prestasse atenção nas palavras. E, por acreditar

que devia isso a ele, foi o que ela fez. Fechou os olhos e sentiu a brisa na pele enquanto ouvia

atentamente o coro de vozes, até conseguir ouvir alguém pronunciar o nome de Sam.

Ao abrir os olhos, Sonia mirou a igreja, ampla e feita de pedra, com um teto alto abobadado e

janelas de vitrais. Ela avistou Jeremiah parado ao lado de Roger na entrada da igreja. Ele estava

tentando não olhar para ela. Sonia esperou até ele ceder e acenou, convidando-o a se aproximar,

depois olhou em volta, procurando o vestido branco de Liz em algum lugar do gramado. Por um instante, teve receio de que Liz estivesse escondida em algum lugar, longe dos olhos curiosos,

talvez agourentos, do noivo antes da cerimônia. Então lembrou que Liz havia declarado odiar essa

tradição em particular.

— Não sou nenhum prêmio esperando para ser revelado atrás da cortina — dissera. — Isso é

desumanizador. Não, vou me juntar aos meus amigos e parentes antes do casamento também. E,

se o Roger ficar apavorado só por me ver quinze minutos antes de subir ao altar com ele, vamos

começar bem mal.

Roger estava se aproximando com Jeremiah, caminhando na direção de Sonia, provavelmente

para cumprimentar Martha e Bill. Quando todos se reuniram, Sonia pediu a Roger para procurar

Liz e trazê-la para junto do grupo, tentando falar naturalmente, tentando não pensar que isso

estragaria o casamento, justamente o que passara a noite toda tentando evitar.

Enquanto isso, Jeremiah cumprimentou os pais de Sam, apertando a mão de Bill e beijando o

rosto de Martha. Ele cumpria a tarefa com facilidade, como se não fosse um calouro na faculdade,

mas alguém mais velho, alguém que sabia exatamente seu lugar no mundo. Essa era uma das

coisas que ela amava nele: a capacidade de se expressar tão bem, quando ela sabia que no fundo

ele era tímido e desajeitado.

Liz chegou radiante, sem demonstrar qualquer preocupação com o casamento enquanto

cumprimentava os pais com alegria. Depois de abraçar todo mundo, ela segurou a mão de Roger e

entrelaçou os dedos aos dele de maneira natural, automática. Sonia resistiu ao impulso de fazer o

mesmo com Jeremiah.

— Martha, Bill, Liz, tem uma coisa que preciso contar a vocês. — Todos olharam para Sonia,

e ela quase perdeu a coragem. Olhou para Jeremiah, e ele sorriu, assentindo discretamente. — Sei

que não é o melhor momento, mas não quero esconder mais nada. Vocês sempre me trataram

muito bem, como parte da família. — E se deteve, sentindo a voz tremer. — Jeremiah e eu

estamos juntos.

Sonia tentou ler a expressão no rosto de cada um, mas, depois de registrar a surpresa de todos,

preferiu abaixar a cabeça, encarar a grama e os seis pares de sapatos reunidos em semicírculo,

todas as pontas voltadas para ela. Sentiu alguma coisa no rosto, e só depois de tocar ali se deu

conta de que estava chorando.

— Peço desculpas por não ter contado antes. Só não queria dar a impressão de que estou

esquecendo Sam. Não estou. Eu juro que não.

Sonia abriu a bolsa e pegou um lenço, que usou para limpar o nariz. Uma mulher de vestido

verde chamou Liz e começou a se aproximar do grupo. Liz acenou e levantou um dedo, pedindo

um minuto de privacidade.

Sonia continuou:

— É muito cedo, eu sei. — E segurou o lenço sobre o nariz enquanto fungava. Não era uma

coisa delicada, era uma fungada de respeito, uma tentativa de manter a coriza dentro do nariz

enquanto terminava de se desculpar com aquela família maravilhosa. — É muito cedo, mas

aconteceu. — E olhou para Jeremiah, cuja expressão não revelava muita coisa. — Estou apaixonada por você — ela falou. — Eu sempre vou amar o Sam, mas agora estou apaixonada por

você, e peço desculpas por não ter tido coragem de admitir isso antes. — E olhou de novo para a

família de Sam. — Também peço desculpas por não ter contado a vocês antes e por estar

contando agora. Mas eu precisava contar. E, Liz, vou entender se não me quiser mais na

cerimônia ou... — Ela olhou para Martha e Bill. — Se preferirem que eu vá embora. Só faço parte

da família por causa do Sam, e só lamento não ter sido capaz de amá-lo ainda mais enquanto ele

estava aqui.

Ela podia dizer que as pessoas estavam começando a olhar em sua direção. Sonia olhou para a

grama, para os sapatos inexpressivos no chão. Sentiu uma mão em seu ombro e presumiu que

fosse de Jeremiah, e talvez ela se sentisse estranha por segurá-la se não precisasse tanto disso. Mas,

quando tocou aquela mão, Sonia sentiu anéis e não reconheceu o toque.

— Querida, olhe para mim. — Martha estava sorrindo para ela. — É normal seguir em frente.

— Por sobre o ombro de Martha, Sonia viu Liz secar o canto do olho com a mão que ainda

segurava a de Roger. Ela também estava sorrindo. — Sim, você se juntou a esta família por causa

do Sam. Mas vai ser sempre parte dela. E, como qualquer membro da família, quero que você seja

feliz.

Ao redor deles, os convidados começaram a se dirigir para a entrada da igreja. Quando Sonia

sentiu o sabor salgado das lágrimas, ela se deu conta de que estava sorrindo. Os soluços tinham

sido controlados, mas as lágrimas ainda escorriam.

— É um momento estranho para todos nós, mas fico feliz que tenha nos contado — Martha

continuou. — Eu posso desejar manter o Sam vivo por seu intermédio, mas, se algum dia eu

tentar fazer isso, por favor, me impeça. Você não é só a namorada do Sam para nós. Ou a ex, ou

alguma coisa dele. Você é a Sonia. A nossa Sonia.

— E — Liz interferiu —, se acha que vai escapar de ser a minha dama de honra por causa

disso, você está mortalmente enganada. Sem nenhuma intenção de fazer uma piadinha de

extremo mau gosto. — Ela enxugou as lágrimas e abraçou Sonia, puxando o braço de Roger para

o gesto, já que se recusava a soltar a mão dele. — E você — ela olhou para Jeremiah e pôs o dedo

em riste diante do nariz dele —, faça a Sonia sofrer e eu corto o seu...

— Liz! — Martha e Bill gritaram juntos, tão oportunamente que Sonia conseguiu imaginar

Liz repetindo a ameaça várias vezes antes, o suficiente para os pais saberem o exato momento de

interrompê-la.

— Estou falando sério: se ela chorar por sua causa, faço você chorar também — Liz insistiu,

ainda com o dedo apontado para o rosto de Jeremiah.

— S-sim — Jeremiah gaguejou rapidamente. — Combinado. Se eu fizer a Sonia sofrer, vou

querer que você me faça sofrer também.

— Ótimo. — Liz abaixou o dedo e olhou para os convidados entrando na igreja. — Agora, se

importam se a gente der continuidade ao meu casamento? Por favor?

— Não seja mimada — respondeu Martha. — Estamos vivendo um momento importante

aqui.

— É o meu casamento. Posso ser mimada, se quiser. — Liz mostrou a língua.

Uma brisa nada perfeita, quente demais e cheia de pólen, soprou em torno deles. Por algum

motivo, isso fez Sonia pensar em Leila. Quando sentiu o ar passando por ela, esfriando as

lágrimas em seu rosto, tocando sua pele, teve uma imagem clara de Leila em seu carro vermelho,

com o interior vermelho, os cabelos ao vento por causa da janela aberta.

— Vamos — Martha chamou, ajeitando o xale. — Vamos entrar antes que a minha filha

ameace cortar uma parte do corpo de mais alguém.

 

A pista de dança estava começando a encher. Satisfeita com o jantar de quatro pratos, meio

embriagada de vinho e alívio, Sonia agarrou a mão de Jeremiah e o puxou da cadeira.

— Pronta para se surpreender com o meu talento de dançarino? — ele sorriu, mas ainda

parecia um pouco nervoso.

— Espero ficar chocada.

— Se por acaso isso não acontecer, tenho um plano para distrair sua atenção fazendo você rir

e/ou dando uns amassos com você.

— Gostei do plano.

Ela se sentiu um pouco envergonhada ao conduzi-lo pela mão em um salão cheio de gente. O

lugar mais público em que tinham estado de mãos dadas antes tinha sido a loja de conveniência na

rua onde ele morava. Na pista de dança, ela ficou de frente para Jeremiah e, sem soltar a mão dele,

apoiou a outra sobre seu ombro. A mão dele tocou suas costas um pouco acima da cintura, e eles

começaram a dançar uma valsa, movendo-se um pouco fora do ritmo da música. Jeremiah não

sabia o que estava fazendo, mas não deixou que isso o impedisse de continuar. Sonia se

aproximou, esperando sentir os dedos afagando seu quadril.

— Desculpa por ter desaparecido ontem à noite — ela olhou para ele. Teria amado ver os

olhos dele encontrando os seus, mas eles estavam fixos nos pés de Jeremiah.

— Posso saber o que aconteceu agora?

Sonia pensou um pouco, depois apoiou a cabeça em seu peito, sentindo o queixo másculo se

encaixar perfeitamente em um dos lados do coque.

— Ainda não sei nem se eu mesma acredito na história. Acho que dá para esperar até amanhã.

— Tudo bem.

Ela o abraçou com mais força e sentiu que Jeremiah perdia o passo. Liz e Roger, que

dançavam com muito mais habilidade, haviam tropeçado neles de propósito.

— Parem de ser fofos! — Liz gritou no meio da música. — Essa tarefa é nossa.

Sonia riu e, se sentindo esquisita e grata por isso, beijou Jeremiah na pista de dança, na frente

de todo mundo. Era o tipo de beijo que podia impulsionar um casal a começar um relacionamento, e não era o primeiro que trocavam do tipo. Ele manteve os olhos fechados por

um tempo quase cômico depois do fim do beijo, como se precisasse se recuperar dele. Sonia

apoiou a cabeça novamente em seu peito, no paletó que vestira na noite passada.

Um pensamento lhe ocorreu, o passaporte dentro da bolsa roubada, e, por pura alegria e

cansaço, resmungou contra o peito de Jeremiah:

— Não faço a menor ideia de como vou voltar para casa.