Perdidos por aí

Adi Alsaid · Capítulo 34 de 36

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Perdidos por aí

Capítulo 5

 

Leila desviou os olhos do livro por um segundo, mantendo o dedo no lugar onde interrompeu a

leitura para poder retomá-la sem dificuldade. A música nos fones de ouvido era ótima, e em

circunstâncias normais ela não ousaria trocar. Mas a leitura também era envolvente, e a letra da

música era tão boa que ouvi-la seria como tentar ler duas coisas ao mesmo tempo. Por isso ela

pressionou o botão para mudar de faixa até encontrar algo instrumental, uma música de fundo

melhor para sua leitura. Depois voltou ao livro.

Na ponta do sofá estava outro livro que ela terminara de ler naquele dia. Um copo de chá

gelado deixava sua marca na madeira sem verniz de uma mesinha próxima. A janela atrás do sofá

estava aberta para o gramado, e a brisa que entrava por ali jamais poderia ser imitada por um

ventilador. Tia Cathy e Tom tinham ido passar o dia na cidade, e Leila estava feliz com as horas

de leitura, música e sobras de jambalaya.

Desde sua volta, Leila descobrira o seguinte: dez e meia era a hora perfeita para acordar;

determinava o perfeito equilíbrio entre dormir e não perder o dia. Jambalaya era a melhor comida

do mundo, sobretudo na receita da tia (e da mãe). Uma cicatriz quase imperceptível no cotovelo

era resultado de uma briga com a irmã quando eram pequenas. Por que elas tinham brigado

Cathy não conseguia lembrar, mas a imagem do arranhão e de Olive se desculpando aos prantos

depois de ver o sangue surgiu na cabeça de Leila instantes depois de ter visto a cicatriz no banho.

Em vez de tentar se lembrar de tudo, Leila se concentraria em descobertas. Se redescobria

algo do passado ou completamente novo, ela percebeu, não tinha importância.

Foi o que fizera com a música do celular durante a viagem. Era o que faria com todo o resto.

A começar pelos livros em seu quarto. Tia Cathy conseguira matricular Leila no colégio local a

tempo de salvar seu último ano. As aulas começariam em duas semanas, e Leila planejava ler

tantos livros quanto pudesse até lá, fazer descobertas.

Ela bebeu um gole de chá e virou a página, vendo a umidade do copo manchar o papel. Seguiu

lendo, mergulhando cada vez mais a fundo no sofá e no livro, totalmente satisfeita. O mundo em

torno dela era composto apenas de detalhes: o couro frio sob seu corpo, o ar lhe acariciando a

nuca, o sabor do chá na boca. Todo o resto era esquecido, dominado pelo livro.

Leila não sabia há quanto tempo as batidas se repetiam quando finalmente as ouviu. Se não

tivesse terminado um capítulo exatamente entre duas músicas, talvez tivesse começado o próximo sem ouvir nada. Usando um cartão-postal em branco do Alasca como marcador de página, Leila

parou a música e tentou determinar de onde vinham as batidas, se ainda se repetiam.

Um instante ou dois se passaram em silêncio. Leila estava quase ligando a música outra vez

quando ouviu o mesmo som, batidas na porta da frente. Ela pousou o livro sobre o sofá e foi abrir

a porta, pronta para assinar o recibo de uma encomenda qualquer. Queria voltar para sua leitura.

Sem prestar atenção em nada do que a cercava, Leila abriu a porta.

Só quando viu aquele rosto se deu conta de quantas vezes sonhara com ele aparecendo desse

jeito, embora houvesse um pouco mais de barba em seu queixo do que lembrava, e bolsas sob os

olhos, como se tivesse passado a noite toda dirigindo. A camiseta estava amassada, o jeans caía

solto no quadril, como se ele tivesse emagrecido recentemente. Ele havia se bronzeado durante o

verão, e a pele mais escura e os cabelos mais claros realçavam os olhos como se fossem faróis.

O nome dele dançava em seus lábios havia tanto tempo que praticamente saltou da boca por

vontade própria.

— Hudson — ela disse.

— Você estava certa. — Ele mantinha as mãos unidas e estalava os dedos. Leila se pegou os

estudando, esperando vê-los sujos de graxa, como se ele tivesse acabado de sair da oficina. —

Levei muito tempo para me dar conta de que você estava certa. — Mordendo o lábio inferior, ele

olhou para o chão, mas se forçou a encará-la novamente.

Leila estava chocada demais para dizer alguma coisa. Continuava olhando das mãos para o

rosto dele.

— Aquela noite na curva do lago, eu sabia exatamente o que estava fazendo. Não era nada tão

inconsciente, eu nem deixei de pensar nas consequências de perder a entrevista. Queria ficar em

Vicksburg, queria ficar na oficina, queria que a minha vida continuasse como era. — Ele passou a

mão pelos cabelos e segurou a nuca, apertando-a como se doesse. — Você tinha razão. Eu estava

com medo da mudança, mesmo que fosse para melhor. E devia ter entendido isso quando você

falou. Mas fui um idiota. Em vez de te ouvir, perdi a cabeça com você, e passei os últimos dois

meses tentando encontrar um jeito de te dizer isso. — Hudson balançou a cabeça e sorriu, triste.

— Não posso acreditar que você me deu a melhor noite da minha vida e eu nem pedi o seu

telefone. Não podia ligar, não podia escrever. Então fui para o Texas. Fui até a cidade onde você

contou que tinha crescido. Com os formigueiros. Passei as últimas duas semanas em

Fredericksburg, tentando descobrir onde poderia te encontrar, esperando que você voltasse logo

para casa.

Leila franziu o cenho, prestes a perguntar sobre os postais que enviara, se ele os havia

recebido. Ela olhava para aquela boca, praticamente hipnotizada pelos lábios, lembrando-se deles

nos seus e dos arrepios provocados pelo contato. Então assimilou o que ele tinha dito.

— Você esteve em Fredericksburg? Só morei lá até os onze anos.

Ele riu e balançou a cabeça, massageando a nuca outra vez.

— Sim, eu acabei percebendo isso. Depois lembrei que a placa do seu carro era de Louisiana.

Sabia que tinha que encontrar você, que precisava me desculpar.

— Hudson — Leila falou, passando pela porta. Não podia acreditar que havia demorado

tanto para se aproximar dele. Não sabia se o abraçava, se o beijava, ou se fazia outra coisa

qualquer. Depois de tanto tempo pensando que ele não queria nada com ela, ali estava Hudson,

parado diante dela, querendo-a de volta em sua vida.

— Desculpa por ter gritado com você naquele dia. Desculpa por ter te deixado ir embora. —

Ele deu um passo à frente, de forma que agora estavam separados só pelo comprimento de um

braço. Provavelmente era só a lembrança, mas Leila teve a impressão de poder sentir o cheiro do

rio Mississippi nele. — Sei que é loucura depois de uma única noite e depois de dois meses, mas,

Leila, você é a coisa mais certa na minha vida.

As palavras se moveram dentro dela, desenharam um sorriso em seu rosto. A distância entre

eles desapareceu naquele abraço. O beijo foi como ela lembrava, suave e forte ao mesmo tempo,

como se os lábios dele fizessem parte dos dela. A felicidade a invadiu. Não era alívio, não era

serenidade, era pura alegria, talvez pela primeira vez.

Ela estava em casa.