Perdidos por aí

Adi Alsaid · Capítulo 3 de 36

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Perdidos por aí

Capítulo 3

 

Lá embaixo, na cozinha, o pai de Hudson estava ajoelhado diante da geladeira, ajeitando as coisas

ali dentro para abrir espaço para uma caixa de refrigerante.

— Oi, pai.

— Oi, filho. — Ele terminou de arrumar as coisas antes de levantar e se virar. Seu olhar foi

direto para Leila. — Desculpa, eu não sabia que você tinha companhia. — Ele abriu um sorriso e

então os contornou para deixar a cozinha. — Você se importa de acender a churrasqueira? Vou

tomar uma ducha. — Ele deu um passo em direção à escada, então se deteve e olhou para Leila.

— Pode jantar com a gente, se quiser.

— Eu adoraria — Leila respondeu.

— Hambúrguer, tudo bem?

— Sempre. Obrigada, senhor...?

— Me chame de Walter — ele respondeu, estendendo a mão com um sorriso. Em seguida, se

virou para Hudson. — Você vai descansar depois do jantar?

— Claro. Estava pensando em ir sonâmbulo até Jackson para descansar o máximo possível

antes da entrevista.

— Você se acha muito espertinho, não? Só porque vai ser médico?

— Você também me acha espertinho, pai. Desde que eu te ensinei a conectar a rede wi-fi,

você me considera um gênio.

— Não faça um único elogio a esse cara — Walter falou para Leila. — Ele nunca esquece. —

O homem era alto, ainda mais do que Hudson, porém mais magro, com músculos definidos. Os

traços eram parecidos: o mesmo queixo rijo e olhos castanhos. Hudson pensava no pai como um

homem jovial, ou pelo menos como alguém que ainda não era velho, por isso ficava surpreso cada

vez que notava como seu cabelo ficara grisalho. — Tudo bem, a gente se vê lá fora, então.

Quando ele estava na metade da escada, Leila falou:

— Sua casa é encantadora!

— Obrigado — ele respondeu, sua voz sumindo conforme ele subia a escada e entrava no

banheiro, fechando a porta.

— Seu pai é muito agradável.

— É — Hudson concordou, cutucando um pedaço de madeira lascada no armário da

cozinha.

— Que entrevista é essa para a qual você precisa estar descansado?

— É com o reitor de admissões da Universidade do Mississippi. Talvez eu consiga uma bolsa

integral.

— Uau. Isso é impressionante.

Hudson deu de ombros.

— Acho que é. Meu pai conhece o cara, então me ajudou a agendar, é por isso que ele está

meio paranoico. — Sem querer pensar no dia seguinte, quando Leila poderia não estar mais por

perto, ele seguiu para a porta dos fundos. — Vamos acender a churrasqueira.

A garota assentiu e o ajudou a pegar algumas coisas na cozinha, depois os dois saíram para o

quintal para acender a churrasqueira. O ar estava ligeiramente mais fresco depois do pôr do sol,

apenas algumas faixas alaranjadas riscavam o céu nas lacunas entre as árvores onde cigarras

cantavam. Era um quintal grande, com grama muito verde e saudável. Um depósito de

ferramentas marcava o centro do espaço, não muito longe de um buraco cavado no chão e

revestido com tijolos. Havia alguns tocos e cadeiras de acampamento formando um círculo em

torno do buraco e uma lata de cerveja amassada esquecida entre os arbustos, lembrança da última

vez em que os amigos do pai de Hudson tinham estado ali. Hudson queria ser capaz de parar o

tempo, interromper a rotação da Terra, porque assim poderia ficar mais com Leila.

— E aí, médico, hein?

— Sim, mas não é lá grande coisa. Nada comparado ao truque de enxergar através de portas.

— Superpoder, não truque — Leila o corrigiu, riscando um fósforo e atirando-o na pilha de

carvão. — E eu tenho certeza que você tem alguns poderes.

— Na verdade, não. — Naquele instante, o único superpoder que sentia ter era a capacidade

de passar um tempo com Leila e fazê-la querer ficar para o jantar.

— Bobagem — ela insistiu, batendo de leve a lateral do quadril na lateral do dele. —

Tagarelar — ela salientou. — Eu podia passar o dia ouvindo você tagarelar sobre tesouros.

Hudson tentou, mas falhou em manter o tamanho do sorriso sob controle, sobretudo quando

viu que ela também sorria.

— Também sou bom pra caramba em arrumar a mesa — disse, tentando desviar a atenção de

seu rosto vermelho. — E uso só uma das mãos. E nem preciso pesquisar na internet de que lado a

faca deve ficar.

— Eu sabia que você estava escondendo o jogo.

— Vou mostrar — ele avisou, e começou a arrumar a mesa com um cuidado exagerado que

esperava que estivesse sendo engraçado. Leila se sentou e o observou com um sorriso no rosto.

Quando terminou, Hudson sentou ao lado dela, e eles esperaram o carvão virar brasa.

Essa era a época do ano favorita dele, sua hora do dia preferida, o lugar favorito na casa. Era a

primeira vez em muito tempo que sentava ali sem um livro nas mãos. Quase havia esquecido

como o quintal era agradável quando podia simplesmente ficar ali sentado olhando ao redor, sem ter que estudar. Leila se reclinou na cadeira e pôs as pernas para cima, os calcanhares apoiados no

colo dele. O gesto foi tão casual que ele não conseguiu deduzir qual era a intenção dela; se queria

dizer alguma coisa com aquilo, ou se apenas precisava de um lugar para descansar os pés e não

distinguia Hudson de qualquer outra superfície. Ou talvez, só talvez, ela estivesse tão feliz quanto

ele por passarem um tempo juntos.

Hudson mal se movia, concentrado no peso dos pés em seu colo. Quando o pai se juntou a

eles no lado de fora, as pernas do rapaz estavam adormecidas.

— Estamos esperando o fogo pegar — explicou Hudson.

— Bom, parece que já está quase pronto — Walter respondeu, embora Hudson soubesse que

o fogo já estava bom havia algum tempo.

Walter pegou a bandeja com os hambúrgueres e colocou três na grelha, sorrindo satisfeito ao

ouvir o chiado da carne começando a assar.

— Quer ajuda, pai?

— Pode deixar. Obrigado.

Outros pais poderiam ter virado e piscado para o filho, ou sorrido. Mas Hudson gostava do

jeito reservado do pai de demonstrar afeto, a aceitação silenciosa das obrigações de cozinheiro.

— Então, Leila — Walter disse quando os hambúrgueres ficaram prontos, trazendo-os para

a mesa. — O Hudson comentou que você não é de Vicksburg. O que a traz aqui?

— Estou cruzando o país para ir ver a aurora boreal.

Walter puxou a ponta do rótulo de sua cerveja, descolando o papel do vidro.

— É uma viagem longa do caramba. Está indo sozinha?

— Sim — Leila assentiu.

— Bom, todo mundo precisa de pelo menos uma viagem longa de carro na vida. Eu devia ter a

sua idade quando fiz a minha.

— Para onde você foi?

— Da Califórnia a Nova York. De uma costa a outra. — Ele continuava mexendo no rótulo,

perdido em pensamentos. Walter sempre ficava com aquela cara quando falava daquela viagem de

carro. Hudson perguntara sobre a experiência mais vezes do que podia lembrar, no entanto, por

mais que o pai falasse, nunca conseguia ter uma noção de como ele era naquela época. Era

estranho pensar que havia uma parte de seu pai que ele não conhecia, o equivalente a duas décadas

de lembranças que não o incluíam. — O garotão aqui ainda não viajou — acrescentou Walter,

superando o momento de reflexão e apontando para o filho.

— Do que você está falando? Já fizemos várias viagens juntos.

— Essas não contam — disse Walter, antes de dar um gole na cerveja. — Estou falando de

viajar sozinho. Arrume um emprego de meio período quando for para a faculdade, alguma coisa

que não atrapalhe os estudos, e talvez você consiga economizar para viajar nas férias de verão. E,

se realmente me impressionar com as notas — Walter fez uma pausa para dar dramaticidade à

declaração —, talvez ganhe uma troca de óleo para a primeira viagem.

— Agora eu sei de onde vem a sagacidade do Hudson — Leila comentou, chutando-o de leve

por baixo da mesa.

Hudson retribuiu o chute leve, desejando estar descalço e em seguida se sentindo meio

esquisito por isso.

— Por que a aurora boreal?

Leila deu de ombros.

— É uma coisa que eu sei que tenho que fazer.

— Tipo uma lista de coisas para fazer antes de morrer?

— Mais ou menos isso — Leila confirmou.

— É sua primeira viagem de carro? — perguntou Walter.

Leila comeu mais um pedaço do hambúrguer. Meu Deus, ela era atraente até mastigando. Isso

fazia com que Hudson desejasse cozinhar para ela. Sua cabeça se moveu numa breve resposta

afirmativa.

Quando terminou de mastigar, Leila tomou um gole de refrigerante e limpou o canto da boca

com um guardanapo de papel.

— Estou dando um tempinho na escola agora e achei que seria uma boa hora para viajar.

Hudson assentiu, e então percebeu que não fazia ideia do que ela estava falando.

— Tipo, da faculdade? Você terminou o ensino médio e não seguiu direto para a faculdade?

— Era difícil dizer quantos anos ela tinha. Entre dezesseis e... vinte, talvez?

— Não. — Ela enfiou o último pedaço de hambúrguer na boca, e, por um instante, pareceu

que mastigava para não ter que dizer mais nada. Mas então ela engoliu e continuou: — Passei

anos presa no jardim de infância. A viagem é pra ver se finalmente aprendo o alfabeto.

Enquanto o pai de Hudson ria, Leila fez uma careta para ele, que se deu conta de que o rosto

dela estava ficando gravado em sua memória.

— Estou brincando, Hudson. Você não passou o dia com alguém do jardim da infância.

— Não? Eu podia jurar que sim. Só quem está no jardim de infância ri das minhas piadas.

— Eu percebi. E parabéns por não ter aproveitado a chance para rir da minha altura. Eu me

encaixaria perfeitamente no tamanho.

Hudson deu de ombros.

— Gosto da sua pouca altura — disse ele, imediatamente pegando uma batata da embalagem

aberta sobre a mesa e mastigando para não ter de se desculpar pelo comentário.

O céu havia escurecido com a chegada da noite, e agora a única luz vinha das estrelas e da

cozinha dos vizinhos. Mas ele podia ver Leila sorrindo para si mesma, mordendo o lábio inferior.

Então ela se reclinou na cadeira e apoiou os pés em seu colo novamente.

— O que você planeja ver no caminho? — Walter perguntou, se servindo de mais um

hambúrguer e cobrindo-o com a habitual porção generosa de molho de pimenta.

— Não fiz muitos planos. Vou dançar conforme a música.

— Você já viu Vicksburg — disse Hudson. — Não vai encontrar nada melhor.

Leila riu de um jeito que ele ainda não tinha ouvido, uma risada suave e rouca que

surpreendentemente o arrepiou.

— Tenho certeza que o resto do país vai ter dificuldade para superar isso — ela disse.

Depois de alguns minutos, Walter se levantou para limpar a mesa, e, quando ele entrou, Leila

tirou os pés do colo de Hudson.

— Acho que devo deixar você descansar — falou. — Para a entrevista. — E calçou os

chinelos antes de ficar em pé.

A alegria que sentiu desde que a conhecera começava a desaparecer, mas Hudson não sabia o

que dizer para impedi-la de partir. Ele a seguiu até a porta de vidro. Leila não a abriu, só ficou

parada olhando para os próprios pés como se pensasse em alguma coisa.

A luz da cozinha se acendeu quando o pai começou a limpeza. Hudson pôde ver Leila

claramente outra vez, as mãos nos bolsos traseiros, uma estreita faixa de pele visível entre a

camiseta e a cintura do shorts. Ela deu um passo à frente e o abraçou. Um abraço

surpreendentemente forte para alguém daquele tamanho, para alguém que ele conhecera havia

apenas algumas horas. E era muito bom se sentir abraçado por ela.

— Foi muito legal te conhecer — disse Leila. — Boa sorte com tudo.

Então ela o beijou no rosto e entrou. Foi quase paralisante, o beijo, a sensação dos lábios dela

na pele dele, a distância que já aumentava entre eles. Tão paralisante que, quando ele entrou, Leila

já havia se despedido de Walter e estava na porta da frente. Não só na porta, mas passando por

ela. Ela o viu e se deteve, mas só para acenar, depois saiu e fechou a porta.

Hudson ficou parado no hall entre a cozinha e a sala de estar, tentando superar o choque de

vê-la partir tão de repente. Quando tomou consciência do ruído de água corrente, lembrou que o

pai estava lavando os pratos do jantar.

— Pai, precisa de ajuda?

Walter se virou com a frente da camisa respingada de água.

— Não, obrigado.

— Tudo bem. Vou subir. Boa noite.

Mas Hudson não se moveu por um tempo, ficou ali encarando a porta da frente.

— Boa noite — respondeu o pai. — Vou passar no seu quarto às seis para ter certeza de que

você acordou. Amanhã vai ser um grande dia.

— Beleza.

Quando saiu do transe, Hudson subiu a escada com esforço comedido e foi para o quarto, se

jogou na cama e pegou as folhas com o texto impresso da internet, cheia de perguntas que

poderiam ser feitas em uma entrevista de admissão. Folheou algumas páginas, mais consciente do

ruído que faziam quando manipuladas do que das palavras no papel. Ele deu uma olhada na

roupa que ele e o pai haviam escolhido para a entrevista: o terno azul risca de giz com camisa

branca e gravata verde-esmeralda. Estava tudo no cabide pendurado na maçaneta da porta do

armário, protegido pela embalagem da lavanderia.

Alguns minutos mais tarde, Hudson ouviu o pai subindo a escada e a luz do corredor foi

apagada. Ele percebeu que não tinha lido uma única palavra, então levantou e se aproximou da

janela. Hudson suspirou profundamente, como se as lembranças de Leila estivessem em seus

pulmões e ele tivesse que soprá-las para fora. Quando o ar fez a persiana balançar, ele notou que o

carro de Leila continuava lá fora. Hudson se aproximou um pouco mais e espiou pelas frestas da

persiana. Dava para vê-la sentada lá dentro, um cotovelo apoiado na janela, a outra mão sobre o

volante. Ela abaixou o cotovelo e olhou para cima, para ele, os olhos brilhantes mesmo àquela

distância. Hudson pensou na curva do rio, em percorrer toda sua extensão com Leila a seu lado, o

Mississippi rugindo como música de fundo para a conversa.

Hoje não, pensou, se aproximando da porta e espiando o lado de fora para ter certeza de que a

luz do quarto do pai estava apagada. Não vou ficar em casa hoje à noite, não quando tenho a chance

de ficar um tempo com ela. De volta ao quarto, Hudson puxou o cordão que levantava a persiana e

abriu a janela. Devagar, pulou no telhado da varanda e de lá para o gramado da frente, olhando

para cima para se certificar de que a luz do quarto do pai continuava apagada.

Então ele deu uma corridinha até o carro. Leila abrira a janela e o observava se aproximar sem

dizer nada. Ele se debruçou ali.

— Chega pra lá — murmurou. — Eu dirijo.

— Você não ia descansar? — ela ergueu uma sobrancelha.

Ele deu de ombros.

— Prometi te mostrar um tesouro.