Perdidos por aí
Capítulo 6
Como quase tudo em Burnsville, o Ruby ficava a uma distância curta de carro. Elliot mal teve
tempo de identificar o que estava sentindo: um misto de esperança e desespero, a exaustão e o
restante da adrenalina da noite, a ausência de Maribel e a intensidade do desejo de estar perto dela
outra vez, de dizer-lhe como a amava falando de um jeito diferente de antes.
Leila estacionou na frente do restaurante. Elliot reconheceu alguns carros no estacionamento
e, pelas amplas janelas, pôde ver que o lugar estava lotado, o que não era comum às quatro da
manhã. Alguns garotos fumavam do lado de fora, as camisas para fora da calça e as gravatas-
borboleta sem o laço. Os penteados das meninas estavam começando a desmontar, o spray
fixador finalmente perdendo a briga contra a gravidade. Todos pareciam cansados, mas
orgulhosos do próprio cansaço, como se a exaustão fosse testemunha de todos os anos de colégio
e quisessem mostrar ao mundo que eram sobreviventes.
— Quer que eu espere aqui fora? — Leila perguntou.
— Não. Eu não teria chegado tão longe sem você. — Elliot tentou avistar Maribel lá dentro,
mas havia gente em todos os lugares. Uma garçonete com uma bandeja cheia de panquecas e
linguiças usou o quadril para tirar alguém do caminho. — Além do mais, sempre tem alguém que
começa a aplaudir devagar nos filmes. Estou lhe dando esse papel.
Eles saíram do carro. Elliot deslizou a mão boa pelo smoking. Ele desejou não ter jogado a
orquídea na rua; ela o ajudaria a parecer apresentável.
— Como estou?
Leila parou diante dele, ajeitou o paletó de Elliot pelas lapelas, tirou uma sujeira imaginária
(ou talvez não tão imaginária) do ombro.
— Parece que você passou pelo inferno. Mas é assim que tem que parecer. Foi ao inferno para
conquistar a garota. — Ela o encarou e sorriu, os olhos iluminados e sem nenhum traço da
distância que às vezes ele via. — Está ótimo.
Dentro do restaurante, a agitação era ainda maior do que Elliot fora capaz de imaginar
olhando pelas janelas. Tantas mesas haviam sido juntadas que o lugar parecia o salão de uma
cervejaria alemã. Garotos se amontoavam em banquetas como em um carro cheio de palhaços.
Eles estavam divididos nos grupos de sempre e gritavam de um lado para o outro do salão. Alguns
bebericavam café, outros devoravam um café da manhã gorduroso, e havia os que dormiam com a cabeça apoiada na mesa. Desgarrados — bêbados perdidos ou bêbados sociáveis — vagavam
pelos corredores entre as mesas. As garçonetes, a maioria mulheres na casa dos cinquenta anos,
pareciam concentradas e bravas, mas sobretudo confusas com o fato de que seu turno da noite,
habitualmente tranquilo, fora tumultuado por adolescentes barulhentos. Os únicos clientes
adultos, dois homens de regata e boné de caminhoneiro, estavam sentados ao balcão, tentando
engolir os ovos mexidos e pagar a conta o mais depressa possível.
Antes que Elliot pudesse seguir adiante, alguém se aproximou por trás e passou um braço por
sobre seus ombros.
— Elliot! Você é meu herói, cara — disse a voz desconhecida. Ele virou para olhar para o
garoto, um jogador de futebol com quem só frequentara duas disciplinas durante todo o colégio.
O cara cheirava a uísque, e Elliot ficou envergonhado ao se dar conta de que também exalara esse
cheiro mais cedo. — O que você fez na formatura? — O jogador de futebol pôs a mão na lateral
da cabeça de Elliot e fez um barulho de explosão, acompanhado de respingos de saliva. — Muito
legal. — E tirou a mão dali para lhe dar um tapinha no rosto. — Legal pra caramba. — Então ele
se afastou, roubando a torrada do prato de alguém ao passar.
Assim que o garoto havia se afastado por completo, Elliot viu Anthony, de sua turma de
matemática, caminhando decidido em sua direção. Ele estava apontando para Elliot com uma das
mãos, a outra erguida para um cumprimento. Elliot se forçou a corresponder, tomando o cuidado
de usar a mão que não estava machucada. O som do encontro das palmas abertas ecoou pelo
restaurante. Anthony se afastou sem dizer nada, mas o cumprimento alertara todos a respeito de
sua presença, e logo ele foi cercado por um clamor.
— Épico! — alguém gritou.
— Não consigo acreditar que você fez aquilo — disse uma garota chamada Diana, dando um
tapa em seu ombro. — Aquilo tornou a formatura, tipo, inesquecível, sabe?
Várias outras pessoas se aproximaram para cumprimentá-lo e, entre outras coisas, sua
apresentação foi chamada de “legítima”, “profissa”, “do caramba” e, em um estranho toque de gíria
anacrônica, “bacana”. Ele também nunca soube que as pessoas gostavam de expressar suas
congratulações com uma variedade tão grande de contato físico indesejado. Elliot escondeu a mão
machucada no bolso do paletó para protegê-la.
— Acho que você não vai precisar de mim. Parece que tem muita gente querendo começar a
aplaudir — Leila sussurrou em seu ouvido.
Elliot sorriu e então se deu conta de que o que ela acabara de dizer era verdade. Nunca antes
sentira tantos olhares de aprovação. As mãos continuavam erguidas para cumprimentá-lo, e a
cada um ele respondia com entusiasmo crescente, o estalo das mãos cada vez mais satisfatório,
como aplauso desconstruído.
Era isso, o ponto de transformação da noite. A qualquer momento, a multidão de rostos
sorridentes se abriria lentamente, um a um, todos dando um passo para o lado até por fim
revelarem Maribel olhando para ele. Ela sorriria e diria algo doce, encantador e instantaneamente clássico, algo que se tornaria uma citação. Essa noite era para ser assim, e agora estava
acontecendo. Ela estava no restaurante. Elliot podia sentir isso no ar.
Ele deu um passo à frente, os olhos percorrendo as banquetas à esquerda, as mesas à direita. O
ruído de tantas vozes ao mesmo tempo era como silêncio para ele, como o precursor de um
estrondo que só aconteceria depois que ele e Maribel finalmente se beijassem.
Quando ele passou pela mesa onde todo o pessoal do teatro estava, alguém agarrou seu pulso
e puxou.
— Aqui — disse o garoto, colocando três pedaços de bacon na mão de Elliot. — Você
merece.
Confuso porém grato, Elliot assentiu e pegou o bacon. Ele sentiu um tapinha no ombro, e seu
coração disparou quando pensou que fosse Maribel.
— Estou com muita fome — Leila falou quando ele virou para encará-la. — Você se
importa?
Ele lhe passou o bacon, limpou a gordura na calça e continuou andando. Os jogadores de
basquete comiam com voracidade, os alunos de artes erguiam xícaras vazias pedindo mais café.
Peter Jones, futuro aluno do MIT, olhava desolado ao redor, contando.
— Eu simplesmente não entendo — Elliot o ouviu dizer.
Então, como um raio de sol atravessando as nuvens em um dia nublado, um lampejo de roxo
brilhou do outro lado da multidão.
Tudo que ele conseguia ver da garota era o vestido ao lado da banqueta, aquele tom de roxo
inconfundível. Ela estava sentada no canto, de costas para Elliot. Quando uma garçonete passou e
empurrou alguém do caminho, ele avistou a mão de Maribel sobre a mesa, a orquídea do corsage
visível em seu punho.
Por cima do ombro, sem querer desviar os olhos de Maribel, Elliot disse a Leila:
— É ela.
Sem esperar pelo incentivo da amiga, ele atravessou o restaurante desviando de todos que
ocupavam o corredor, dos bêbados cujas pernas ultrapassavam o limite das mesas. Ele perdeu a
noção da velocidade dos próprios batimentos, de quantos nós o estômago dera em si mesmo, se a
mão ainda doía. Tudo o que tinha na cabeça era Maribel.
O nome dela estava na ponta da língua antes mesmo de alcançá-la; ele se sentia pronto para
pronunciá-lo em voz alta, dizer como ela era importante para ele. Mas Maribel não estava
sozinha.
Tinha um cara na mesa com ela. Um sujeito que Elliot nunca vira antes, alguém que, até onde
ele sabia, nem frequentava o mesmo colégio que eles. O cara estava de smoking, imaculado.
Maribel ria de algo que ele havia dito. Eles nem notaram a presença de Elliot.
Incapaz de desviar os olhos, com os pés aparentemente relutantes em tirá-lo dali, Elliot
conseguiu apenas olhar conforme a garota que amara pela maior parte de uma década se inclinava
para frente e beijava o desconhecido.
Durante a amizade deles, Maribel beijara o rosto de Elliot de vez em quando. Certa vez o
beijo escorregara do rosto para a região embaixo da orelha. Mas o que ele via ali não era um
beijinho. A mão dela, a que sustentava o corsage, tocou o rosto do garoto e o puxou mais para
perto.
O coração de Elliot se despedaçou outra vez, antes mesmo de a cena chegar ao fim. Tudo pelo
que passara naquela noite, só para encontrá-la desse jeito. Queria desaparecer. Ele sentia como se
estivesse desaparecendo, como se o corpo finalmente tivesse se fartado de toda a merda daquela
noite e pressionasse o botão de autodestruição. Como se, a qualquer minuto, fosse simplesmente
explodir.
Ele achava que amor não correspondido era tortura. Achava que entendia o que a orquídea
sentira ao ser atirada no chão daquele jeito. Mas ele passara a noite toda apenas deitado, ainda
inteiro, e agora Maribel era o pneu que o esmagava no asfalto.
Finalmente, misericordiosamente, o desconhecido sentiu sua presença e se afastou de
Maribel. Quando ela percebeu que a atenção dele estava voltada para outro lugar, ela se virou.
Seus olhos imediatamente encontraram os de Elliot.
Como é injusto a pessoa que parte o coração de alguém ainda poder ser tão
irremediavelmente linda, ainda ter o rosto que você mais ama no mundo. Naqueles olhos, Elliot
viu algo que devia ser pena. Imaginava se aquilo sempre tinha estado ali e ele não notara em todos
esses anos. De repente se dando conta de que preferia estar em qualquer outro lugar do planeta,
Elliot virou para sair. Quando passou por Leila, ele estava quase correndo, desejando poder
esquecer a noite toda.