Perdidos por aí

Adi Alsaid · Capítulo 24 de 36

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Perdidos por aí

Capítulo 3

 

Sonia e Leila estavam sentadas no McDonald’s vinte e quatro horas de um shopping center livre

de impostos perto da fronteira. Sonia batia a cabeça de leve contra a janela, olhando para a

rodovia e implorando que uma solução lhe ocorresse de súbito. Leila estava com o queixo

apoiado sobre a mão, o cotovelo sobre a mesa, um saco de batatas fritas entre as duas. Os

funcionários do McDonald’s conversavam casualmente para passar o tempo, esperando o

próximo viajante noturno. De vez em quando, olhavam intrigados para Sonia, que vestia paletó de

smoking, shorts e sutiã meio exposto.

— Eu levo as alianças de volta — Leila sugeriu depois de um tempo, já se levantando da

cadeira. — Ainda tenho meu passaporte.

— Você não precisa fazer isso. Vamos pensar em outra solução.

— Não tem por que pensar em outra se já temos uma solução. Você fica sentada aqui e eu

ligo quando estiver voltando — Leila falou, passando o celular para Sonia registrar seu número

nele.

— Você é um poço sem fundo de bondade, Leila. Obrigada.

— Volto logo — ela sorriu, saindo apressada da lanchonete com as alianças na mão.

Embora Sonia preferisse não criar mais motivos para se sentir culpada, ela mentiu para

Jeremiah, enviando uma mensagem de texto dizendo estar a caminho.

Ele respondeu em seguida, a falta de letra maiúscula lhe parecendo uma característica singular

dele:

 

tudo bem

 

Leila escreveu algumas respostas, então apagou todas e travou o telefone, destravando

imediatamente a tela para apenas apagá-la em seguida.

Depois ela enterrou o rosto nas mãos, pressionando as palmas contra os olhos até ver

pequenas explosões de luz na escuridão. Ela bagunçou o cabelo, depois deu uma olhada no próprio reflexo no celular. A bagunça castanha sobre a cabeça quase nem parecia cabelo, e ela

deslizou os dedos pelos nós. Quando terminou, pegou o telefone de novo.

“Não sei de mais nada, mas amo você”, ela digitou, olhando para as palavras por quase um

minuto inteiro antes de apagá-las.

Quando começava a calcular quanto tempo Leila levaria para ir e voltar, duas horas pelo

menos, a porta do McDonald’s se abriu com um rangido e Leila entrou desanimada.

— O que aconteceu? — Por um breve instante, Sonia imaginou que tudo se resolvera de

algum jeito mágico e as alianças haviam se teletransportado para as mãos de Jeremiah.

— A polícia da fronteira não me deixou passar — Leila respondeu, mordendo o lábio, as

sobrancelhas unidas expressando uma tristeza quase caricata. — Acharam suspeito eu tentar

voltar logo depois de sair.

— No Canadá? Desde quando os canadenses criam problemas para quem quer entrar no

país?

Leila olhou para o chão, dando de ombros.

— Não sei, mas revistaram meu carro, mexeram em todas as minhas coisas. Talvez tenham

pensado que estou traficando drogas ou alguma coisa assim, sei lá. O cara disse que eu tinha sorte

por não me prenderem, mas que os agentes da alfândega podem impedir qualquer um de entrar

no país.

Sonia desmoronou no banco de plástico. Imaginou Jeremiah tendo que contar a Liz e Roger

que não estava com as alianças, a verdade vindo à tona, mesmo que Jeremiah tentasse ocultar os

detalhes. Ela se perguntou quem ficaria mais devastado nesse cenário: Liz, pelo casamento

arruinado; Martha, pela traição de Sonia; Jeremiah, pela indecisão de Sonia; Sonia, por ter criado

toda essa confusão na vida de todo mundo.

— Não se preocupe. Vamos pensar em alguma coisa — Leila disse, apesar da falta de

convicção. Depois olhou em volta. — Talvez alguém que esteja indo para lá passe por aqui e não

se importe de levar as alianças?

— Eu não confiaria em ninguém — Sonia respondeu, de repente se dando conta de como

tinha sido fácil confiar em Leila, acreditar que ela levaria as alianças até o Canadá e voltaria para

buscá-la. Seria pela bondade de Leila, ou porque o desabafo a aliviara do peso de tanto

sofrimento? Talvez fosse simplesmente porque Leila parecia se importar.

— E se a gente esperar até a mudança de turno na fronteira? Talvez eu encontre alguém mais

simpático que não me crie problemas.

Sonia pensou na sugestão, parecendo cética quanto a isso.

— Se marcaram seu passaporte, o que provavelmente fizeram, ninguém vai deixar você entrar.

— Ela pegou a caixinha com as alianças e a girou sobre a mesa, tentando resistir ao impulso de

arremessá-la do outro lado do McDonald’s. Do lado de fora, no shopping center, letreiros

amarelos anunciavam descontos especiais em chocolates e bebida.

Leila pegou o celular na bolsa, como se de repente lembrasse que tinha um telefone.

— Sabe — ela disse, deslizando um dedo pela tela do aparelho —, estou dando uma olhada

no mapa e... Bom, eu sempre soube que o Canadá é grande e que a fronteira é comprida. Mas é

muito comprida. — Ela passou o celular para Sonia. — Você acha que eles têm agentes

suficientes para patrulhar toda essa extensão o tempo todo? Cada pedacinho da fronteira? Não

tem cerca, nada disso, certo?

O mapa mostrava alguns pontos de entrada importantes ao longo das rodovias. Pequenos

balões surgiam sugerindo paradas de comércio livre de impostos, como aquela onde estavam

agora. Entre as entradas ao longo das rodovias havia quilômetros e quilômetros de vegetação. A

única coisa que havia entre os postos de controle era uma linha imaginária que alguém havia

muito tempo decidira que separaria os dois países.

— Estou maluca? — Leila perguntou. — Ou a gente pode simplesmente passar para o lado

de lá? Quer dizer, se as pessoas cruzam a fronteira com o México, que é muito mais protegida,

não deve ser tão difícil entrar no Canadá por aqui.

Sonia estudou o mapa com um pouco mais de atenção.

— Se a gente conseguir, vai ser uma história memorável.

— Não vejo por que não conseguiríamos — Leila opinou, a empolgação em sua voz.

— E o carro?

— Vamos deixar estacionado em algum lugar perto da rodovia. Um estacionamento de

motel, por exemplo, para não levantar suspeitas. Seguimos a pé pela floresta em direção ao norte.

Tenho uma bússola no celular e ela avisa há quanto tempo você está andando, caso o GPS perca o

sinal. Depois saímos da floresta e pegamos carona para Hope na estrada. Deve ter muitos

caminhões, não vai ser difícil. Tenho uma amiga que passou meses viajando de carona pelo país, e

ela disse que pegar carona é surpreendentemente fácil se você estiver na estrada certa.

— Nós estamos na estrada certa?

— Não tenho nem ideia. Mas vale a pena tentar, não vale?

Sonia olhou de novo para o mapa no celular de Leila.

— Fico pensando se não é possível ver os guardas da fronteira se usarmos muito zoom. — Ela

devolveu o aparelho a Leila. — Como voltaríamos ao seu carro?

— Do mesmo jeito. Não é grande coisa.

— Não é grande coisa — Sonia repetiu, tentando conectar as palavras ao ato de cruzar

clandestinamente uma fronteira internacional. Pensou nas frases começadas e rabiscadas em seu

caderno. O bloqueio de escritor poderia ser curado por uma noite como esta? — Tudo bem —

disse, pegando uma batata que partiu ao meio, olhando para o interior macio que transbordava

como se tivesse espremido um inseto. — Vamos nessa.

De acordo com o aplicativo no celular de Leila, elas tinham percorrido oitocentos metros floresta

adentro. Sonia mal conseguia enxergar o que havia diante dela, por isso ela e Leila andavam com

cuidado, gratas pela lua cheia que brilhava nos espaços entre as árvores e pela luz do celular de

Leila, que as salvava da completa escuridão.

Sonia estava nervosa, mas eufórica, com o coração mais leve do que estivera nas últimas horas.

— Estamos entrando a pé no Canadá — ela disse, sem saber se era preciso cochichar. A cada

passo, ela esperava ver alguém pular da escuridão. Cada estalido na floresta lembrava a estática de

rádios transmissores; cada galho que lhe tocava o braço dava a impressão de alguém com as

algemas prontas. — E se a gente encontrar uma equipe da SWAT?

— Acho que não tem nenhuma equipe da SWAT. Talvez a Polícia Montada ou alguma coisa

assim.

— Pior ainda! — disse Sonia, esticando o braço para pôr uma mão no ombro de Leila,

temendo perdê-la na escuridão. — Tenho pavor de cavalos.

— De cavalos? Por quê?

— Geralmente não gosto de coisas que podem arrancar minha cabeça com um coice.

— O que foi isso? — Leila parou de repente, o que fez Sonia se chocar contra ela.

— O quê?

— Você não ouviu?

Sonia ficou completamente quieta, esperando ouvir sirenes ou o barulho de um helicóptero se

aproximando. Tudo o que havia era um leve farfalhar quando o vento soprava por entre as copas

das árvores. Ela podia ouvir a própria respiração, grilos distantes, e nada mais.

— Não ouviu um relincho? — Leila perguntou.

— Não tem graça. — Sonia deu um tapinha no braço de Leila e as duas voltaram a andar,

tentando não demonstrar o medo que sentira de terem sido descobertas. O coração de Sonia

estava acelerado, e, embora estivesse apavorada, ela mal podia esperar para atravessar a fronteira,

contar a Jeremiah sobre essa pequena aventura. Se ele ainda quisesse falar com ela.

— Tudo bem, acho que nos afastamos o suficiente — disse Leila. — Podemos seguir para o

norte agora. Deve faltar cerca de um quilômetro e meio até a fronteira; vamos andar três por

segurança, depois voltamos à estrada. — Seu rosto era iluminado pelo brilho da tela, e Sonia

novamente viu um lampejo de melancolia em sua expressão. — A estrada segue em linha reta por

um trecho depois da fronteira, não deve ser difícil encontrar.

— Vamos nessa. — Sonia fez um gesto para Leila liderar o caminho. O celular vibrou no

bolso do paletó enquanto elas seguiam pela floresta. Fechando a mão em volta da tela para conter

a luminosidade, Sonia tirou o aparelho do bolso.

 

cadê você?

Sonia travou a tela do aparelho, sem saber como responder naquele momento.

— É aquele cara de novo?

— É — Sonia respondeu. — Só contato de rotina.

Alguma coisa rangeu sob o pé dela quando ela passou por um galho. Os ruídos que faziam

andando pareciam os únicos em um raio de quilômetros, e pensar nisso era reconfortante e

profundamente aterrorizante ao mesmo tempo.

— Você... — Sonia começou, se sentindo tola por perguntar. — Você tem namorado?

Leila continuou seguindo para o norte por entre as árvores. Seus passos eram curtos,

cuidadosos, os braços iam estendidos diante do corpo no escuro.

— Não — ela respondeu depois de um momento. — Tinha um cara. Achei que pudesse rolar

alguma coisa. Mas agora não acredito muito nisso.

— Por que não?

— Ai! — Leila gritou. — Cuidado com os arbustos. São cheios de espinhos.

Leila os afastou com a manga para Sonia poder passar.

— Tivemos uma briga feia.

— Você ainda fala com ele?

— Mandei cartões-postais, mas não tenho nenhuma notícia dele há algum tempo. Desde a

última vez que a gente se viu, na verdade.

— Há quanto tempo foi isso?

— Quando comecei a viagem. Quase dois meses. — Elas deram mais alguns passos

cautelosos, tentando não tropeçar nos arbustos nem pisar em sujeira de urso.

De repente Leila parou de novo. Ela estendeu a mão, sinalizando para Sonia ficar quieta.

Sonia olhou em volta, tentando determinar o que tinha feito Leila parar, mas tudo o que via era a

rica escuridão da floresta.

— Leila, se disser que tem alguma coisa relinchando de novo, juro...

— Tudo bem, mocinhas — disse uma voz alta e profunda que as fez pular de susto. — Já se

divertiram. Agora é hora de voltar.

Sonia não conseguiu ver nada de imediato. Na verdade, até Leila pegar o celular e virar a luz

da tela na direção do agente, Sonia nem tinha se dado conta de quem estava falando de fato ou de

onde a voz vinha. O oficial usava boné de beisebol e estava encostado em uma árvore. Parecia ser

bem grande, e, quando ele acendeu a lanterna, Sonia percebeu que estava presa ao colete à prova

de balas com outros equipamentos. Ele direcionou a luz para o rosto das duas e, por um instante,

desapareceu atrás da intensa claridade enquanto as pupilas de Sonia se ajustavam à mudança.

Sonia esperou pelos oficiais que a algemariam, o estômago formando um nó. A qualquer minuto

alguém começaria a gritar seus direitos.

— Você são americanas?

— Sim — responderam as duas.

O oficial mal se afastara do tronco, continuando na mesma postura relaxada, quase como se

estivesse no intervalo para o café.

— Muito bem. Obrigado pela intenção de visitar o Canadá. Espero que voltem para casa em

segurança. No futuro, por favor, tentem entrar no país por um posto de controle, onde os

serviços de fronteira poderão documentar sua visita de forma apropriada.

Leila virou para olhar para Sonia por sobre o ombro. Ela parecia tão confusa quanto Sonia.

— Senhor, pedimos desculpas, a gente só...

Ele se afastou da árvore, e Sonia se assustou ao ver que o homem sorria.

— Acho que a minha esposa já se cansou de me ouvir falar “Você não vai acreditar no que me

disseram hoje”. — E pôs as mãos na cintura. — Vocês acharam mesmo que iam simplesmente

atravessar a fronteira andando?

Nenhuma das duas ofereceu uma resposta.

— Infelizmente, vocês decidiram passar bem no meu banheiro — ele continuou, apontando

para a árvore e rindo.

— Então vai deixar a gente ir embora? — Sonia grunhiu.

— Vocês alguma vez já preencheram formulários tarde da noite? É horrível. Seja qual for a

razão de vocês para tentar atravessar a fronteira, não quero saber. Vocês parecem ser boas

garotas. — Ele fez uma pausa como se lembrasse alguma coisa. Apontou a lanterna para a roupa

de Sonia e ergueu uma sobrancelha. — Talvez meio estranhas, mas tudo bem. Voltem para casa e

para seus pais.

Ele não precisaria dizer isso a Sonia duas vezes. Ela agarrou o braço de Leila, deu meia-volta e

começou a andar depressa, grata por não estarem algemadas.

— Não sei se estou aliviada por não termos sido presas, ou furiosa por não termos

conseguido atravessar — Leila comentou.

— Vamos escolher o alívio — Sonia decidiu, embora não tivesse tanta certeza disso, agora

que voltava a sentir o estojo das alianças no bolso interno do paletó de Jeremiah. No começo, elas

dispararam pela floresta, usando a luz dos celulares como lanterna. Mas, aos poucos, os passos

foram se tornando mais lentos, talvez porque se davam conta de que logo chegariam ao carro no

estacionamento do motel com o mesmo problema ainda sem solução. A cada passo que dava,

Sonia sentia as alianças mais pesadas no bolso.

Ela sabia que só havia uma coisa que podia fazer, mas pensar nisso era tão repulsivo que ela

imaginava todo tipo de possibilidades malucas — quanto tempo levaria para conseguir um

passaporte falso? ou seria muito difícil pular de paraquedas perto da fronteira e, acidentalmente,

cair no Canadá? — antes de admitir a única alternativa. Teria que voltar para casa e pedir ajuda à

família.