Perdidos por aí

Adi Alsaid · Capítulo 15 de 36

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Perdidos por aí

Elliot

1

 

— Elliot — disse Maribel, tocando de leve o antebraço dele. Toques leves no antebraço são o

começo de todas as grandes histórias de amor. Ele sabia que se lembraria desse momento para

sempre, que no futuro seria capaz de contar os detalhes referentes a ela: como ela estava bonita,

como ela o tocou com o braço em que estava o corsage que ele fizera para ela e que combinava

com a orquídea na lapela dele. Seria capaz de recitar cada palavra da resposta que ela dera à sua

tão esperada declaração de amor.

Ele se preparou para lembrar, resistindo — pela última vez, assim esperava — à urgência de

beijá-la.

— Dou muito valor à sua amizade. De verdade. E não quero perder o que temos. — Ela se

inclinou para beijá-lo no rosto. — Não vamos complicar as coisas, está bem? Vamos deixar tudo

como está.

Filme errado, pensou Elliot imediatamente. Não era isso que ela devia dizer. Era a formatura

deles, e seu melhor amigo de uma vida inteira acabara de lhe confessar seu amor em um longo

discurso. Tinham todo um verão de romance pela frente. Depois do leve toque no antebraço, ela

devia beijá-lo. Devia dizer “Eu sei” e “Eu também”.

Não estava no roteiro — em nenhuma versão do script que Elliot imaginara para esta noite —

Maribel dar um daqueles sorrisos pelos quais ele tinha se apaixonado e depois ir embora. Mas foi

exatamente isso que ela fez.

 

Tudo parecia pesado para Elliot. Os pés que o carregavam pela calçada, a garrafa na mão, o

uísque na língua. O smoking pesava como se não fosse só tecido, mas um lembrete real de que a

noite devia ter terminado com ele tirando um peso do peito, não nesse oposto brutal.

Depois de arranjar uma garrafa de uísque e tomar uns goles, Elliot saíra do salão de baile no

hotel em Minneapolis e começara a caminhada de vinte e sete quilômetros de volta para casa, em

Burnsville. Depois de percorrer quase três pelo centro da cidade, evitando os olhares experientes

de adultos claramente mais habituados a andar bêbados por aí, ele parou para se recuperar apoiado em um prédio. Fechou os olhos por um instante, mas ainda podia ver a expressão de

Maribel: indiferente. Uma onda de náusea o invadiu, então ele abriu os olhos e respirou fundo. Se

a vida fosse como nos filmes, estaria chovendo. Mas a noite de Minneapolis era perfeita, com

algumas estrelas se exibindo nos vãos entre os edifícios. Risadas se erguiam das multidões que

deixavam cada bar na First Avenue. Era como se a cidade risse dele, ou, pior, fosse indiferente a

seu sofrimento. “Elas nunca dizem sim quando você quer que digam”, dizia a música que

transbordava dos bares. “Por que você acha que estamos todos aqui bebendo?”

Alguma coisa fazia cócegas em seu queixo, e ele levou a mão à orquídea que usara para

combinar com o corsage de Maribel. Ele arrancou a flor do smoking e, antes de se dar conta do

que estava fazendo, a atirou no meio da rua. A flor voou sem qualquer delicadeza, as pétalas

brancas vibrando como asas quebradas. Evitando uma caminhonete que passava por ali, a

orquídea caiu no asfalto sem sofrer dano nenhum. Elliot olhava para a flor, para as pétalas

internas roxas salpicadas de vermelho, como um hematoma. Não demorou muito para um carro

esmagá-la na rua. Na câmera em sua mente, Elliot deu zoom na flor destruída e congelou a

imagem por um instante, deixando o som dos carros que passavam se misturar ao das notas de

abertura de uma canção. As pétalas tinham sido arrancadas, o bulbo esmagado contra o solo

implacável. Elliot pensou consigo mesmo que sabia exatamente como era estar naquela posição.

Esquecendo a náusea, ele abriu a garrafa de uísque e bebeu mais um gole, derrubando um

pouco na lapela. Então, abandonando a decisão de voltar a pé para casa, pensou em outro plano.

Imaginava uma cena deletada de Digam o que quiserem, na qual Lloyd Dobler se deita no meio da

rua, deixando a chuva lavá-lo. Se ao menos estivesse chovendo.

Ele voltou a tampa à garrafa e se afastou do prédio em que estava apoiado, cambaleando em

direção à rua. Comparava essa marcha pela calçada à abordagem adotada na formatura e

rapidamente decidiu que essa era mais fácil. A conclusão era mais previsível e havia menos

sofrimento envolvido.

Na beirada da calçada, ele nem hesitou. Seguiu para a rua sem nem sequer titubear por causa

da bebida. Depois deu mais um passo e ficou bem no meio da pista.

Elliot não podia ver nada do carro que se aproximava com os faróis acesos, só que vinha em

sua direção. Esperou que um filme de sua vida lhe passasse diante dos olhos, mas tudo o que via

era Maribel entrando no salão de baile do hotel. Ela usava um vestido roxo que combinava

exatamente com o tom das pétalas internas da orquídea. O cabelo estava preso, deixando só

algumas mechas loiras onduladas caindo como raios de sol entre folhas.

Talvez fosse o smoking preto, ou o fato de tudo em Elliot ser um pouco escuro: o cabelo, a

pele vagamente na tonalidade do Oriente Médio, os olhos castanhos. Ou talvez Elliot fosse

magro demais para ser notado. O motorista nem parecia ter visto que ele estava ali e continuava se

aproximando em alta velocidade. Por instinto, ou talvez por uma falha de convicção própria da

embriaguez, Elliot pulou para trás, para a calçada. O movimento deve ter chamado a atenção do

motorista, que brecou com um barulho alto.

Quando o carro passou derrapando por Elliot, um coro de buzinas se juntou ao som da freada, uma sinfonia tão alta que ele quase não conseguiu ouvir o estrondo de vidro quebrando.

Seu coração estava disparado, mas, por um vago instante, Elliot pensou no próprio bem-estar.

Levantou a cabeça, meio atordoado, quando o carro parou.

Levou um segundo para ele entender que o estrondo era do choque do espelho lateral do

carro com a garrafa de uísque em sua mão e que, no fim das contas, não escapara ileso. Assim que

olhou para baixo, sentiu o calor do sangue lhe escorrendo por entre os dedos, antes mesmo de

sentir o ardor do álcool lavando o corte. Elliot ergueu a mão na altura do rosto. Sob a fraca luz da

iluminação pública, era difícil saber de onde saía o sangue, mas era abundante. Sua mão estava

tremendo, exibindo os cacos de vidro que cintilavam sob a luz da rua e os fazendo se transformar

em estrelinhas brilhantes de um desenho infantil.

Ele desviou os olhos da mão para o carro que conseguira evitar o atropelamento. Tudo o que

conseguia focalizar eram as brilhantes luzes de freio vermelhas. Então a porta abriu, e a motorista

desceu com uma das mãos sobre a boca, incrédula, enquanto a outra segurava o vestido tomara-

que-caia. Ela correu até Elliot.

— Puta merda! Você está bem?

Ele apenas assentiu, olhando para si mesmo como se quisesse demonstrar que estava quase

inteiramente bem.

— Quase matei você — a garota gaguejou, a mão ainda cobrindo a boca. — Desculpa.

Carros passavam buzinando para os dois parados na rua, atrapalhando o tráfego.

— Estou sangrando um pouco — ele disse.

— Ai, meu Deus — a garota gritou. E agarrou o antebraço de Elliot para examinar sua mão.

— Eu nem te vi.

Ela correu até o carro e voltou com um punhado de guardanapos com o logotipo de várias

redes de fast-food. Colocou-os na mão de Elliot que não estava machucada e, com apenas um

deles, começou a limpar a ensanguentada. Como se estivesse distante, ele a observava trabalhar

com cuidado, como um arqueólogo exumando um artefato.

— Não consigo acreditar que quase te atropelei — disse a garota, a voz trêmula. Ela não

perguntou o que ele estava fazendo no meio da rua.

Elliot não sabia dizer se estava meio tonto por causa da bebida ou pela perda de sangue.

— Acho que estou bem — disse. Quando os faróis de outro carro que passava iluminaram o

lugar, ele viu o rosto da garota, sua testa franzida expressando consternação.

— Você não está bem. Uma idiota acabou de bater com o carro em você. — Ela jogou o

guardanapo sujo de lado e pressionou um limpo contra a mão dele. — Tem muito sangue aqui.

— Um pouco disso pode ser uísque. E provavelmente parece pior do que é de verdade.

A menina ergueu a cabeça e olhou para Elliot com preocupação, depois voltou a limpar

cuidadosamente o sangue com os guardanapos. Eram baratos e ásperos, e, não fosse pela

delicadeza do toque e pela bebida, Elliot estaria sentindo muito mais dor.

— Você precisa ir pro hospital.

Ele sentiu o sangue escorrer para debaixo da manga e a camisa o absorveu, formando uma

mancha morna e pegajosa que se estendia até o cotovelo. O corte começou a aparecer no meio de

todo aquele sangue, uma fenda profunda atravessando a palma no sentido diagonal. Havia cortes

menores nos dedos.

— Eu vou ficar bem — ele disse. — Só preciso limpar quando chegar em casa e pronto.

Mais carros buzinaram. Alguém abriu a janela e passou gritando para eles saírem da rua.

— Ótima ideia — a garota gritou de volta. — Muito útil. Obrigada!

Elliot riu, mas se deteve ao sentir um arroto se formando.

— Cretinos — ela comentou. — Mas eles têm razão. Vamos procurar um hospital. Vão

cuidar muito melhor da sua mão.

Elliot teve uma rápida visão de Maribel indo visitá-lo no hospital, a preocupação estampada

em seu rosto ao perguntar por que ele estava parado no meio da rua.

— Vai parar de sangrar logo — ele disse, segurando sobre o corte os guardanapos que

sobraram. — Só preciso fazer um pouco de pressão e...

— Foi minha culpa — a garota o interrompeu. — Me deixa te levar para casa, pelo menos.

— Não, está tudo bem.

Mas ela já o conduzia para o carro. Elliot se concentrava na tentativa de andar em linha reta.

Os pés se arrastavam pelo chão, esmagando os cacos de vidro da garrafa. Eles chegaram ao carro,

e a garota o ajudou a sentar no banco do passageiro.

— Mantenha pressionado — disse ela.

— Vou tentar não sangrar em cima de tudo aqui — ele comentou. Depois olhou em volta,

como se quisesse determinar com o que devia tomar mais cuidado. — Desculpa. Acho que já

sangrei.

A garota riu.

— Não, é só o forro.

— Ah. — Elliot olhou para ela, notando apenas que seu cabelo era mais curto que o de

Maribel. Ele levou um instante para lembrar de onde ela tinha aparecido. — Meu nome é Elliot.

A garota sorriu.

— Prazer, Elliot. O meu é Leila.

Ele assentiu, apoiou a cabeça no encosto para fechar os olhos. Ouviu a batida da porta a seu

lado e, segundos depois, Leila entrou no carro.

— Você não pode dormir ainda — disse. — Para onde vai?

— Burnsville. — Sua cabeça girava agora, a mão latejava. Definitivamente, não era assim que

essa noite tinha que ser. Ele respirava devagar, tentando acalmar o corpo.

Mais alguns carros buzinaram atrás deles.

— Tá bom, tá bom — Leila gritou pela janela aberta. — Já estou indo.

Ela engatou a marcha, e imediatamente Elliot sentiu o incômodo do movimento. Virou a

cabeça para a janela, buscando ar fresco. A abertura era pequena, apenas uma fresta, e ele tateou

com a mão saudável até se dar conta de que não havia um botão para abri-la, mas uma daquelas manivelas. Com certa dificuldade, conseguiu abaixar o vidro por completo. Guardanapos

ensanguentados foram levados pelo vento.

— Elliot? Não dorme, tá?

— Hummm — ele gemeu. Precisava da leveza do sono. Precisava esquecer Maribel e a

formatura, precisava deixar o corpo esquecer o uísque.

Algo em seu estômago revirou. Ele tentou fazer um sinal para Leila encostar, mas, antes que

conseguisse, o vômito formou uma poça em seus pés, deixando rastros no colo e nas pernas. E no

painel, nas saídas de ar-condicionado, no revestimento da porta e na moldura da janela aberta,

respingando no asfalto.

Assim que terminou de vomitar, Elliot apoiou a cabeça no encosto.

— Desculpa — disse, e não falava só para Leila, mas para Maribel e para si mesmo. Em

seguida, fechou os olhos e dormiu.