Perdidos por aí

Adi Alsaid · Capítulo 28 de 36

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Perdidos por aí

Capítulo 7

 

Quando Leila entrou no estacionamento do hotel, Sonia deu uma olhada em sua aparência no

espelho retrovisor. Dava para ver todos os sinais da estranha noite. Os olhos inchados de tanto

chorar, as roupas amarrotadas da viagem no porta-malas e algumas folhinhas verdes grudadas no

cabelo, lembranças da tentativa frustrada na floresta. Ao longo do trajeto, o alívio por chegar a

tempo de salvar o casamento deu lugar a uma crescente ansiedade por causa de Jeremiah.

Sonia deixou o espelho de lado e olhou para o hotel. Parecia vagamente um castelo, com

alguns chalés na beira do lago espalhados pelo terreno para combinar com a floresta ao redor. Era

um lindo hotel em uma linda cidade, e, quando Liz anunciou que a festa do casamento seria

naquele lugar, Sonia não conseguiu pensar em nada mais apropriado. O lago era de um azul

metálico comovente sempre que o via, as ruas eram tão calmas que mais pareciam extensões do

lago.

— Será que deu tempo?

— Acho que sim. — Sonia abriu a porta. — Tenho que procurar o Jeremiah. — Ela hesitou.

Tinha a impressão de que era o momento da despedida, mas ainda não queria dizer adeus.

Sobretudo porque não queria que isso acontecesse enquanto se apressava até a entrada.

— Sim, faça isso. Posso esperar no seu quarto — Leila sugeriu.

Sonia sorriu e deu a ela o número do quarto e o nome no qual ele estava registrado para que

ela pudesse pegar a chave na recepção. Depois saiu do carro levando o paletó do smoking, que

pegou no banco de trás. Ela atravessou correndo o saguão, mantendo a cabeça baixa para

ninguém vê-la e perguntar onde havia estado. Quando parou na frente do elevador, apertou o

botão mais vezes do que era necessário. Um ding precedeu a abertura das portas douradas.

Martha estava ali dentro. Ela usava um vestido turquesa e um xale da mesma cor sobre os ombros,

o cabelo e a maquiagem elegantemente prontos.

Sonia se preparou.

— Aí está você! Eu a procurei por todos os lugares! — Martha falou ao deixar o elevador,

estendendo um braço para evitar que as portas se fechassem. — Vá se arrumar! Você sabe que

Liz vai falar na sua orelha para sempre se chegar atrasada. Acredite em mim, não vai ser bom dar

esse poder a ela.

— Hum — Sonia respondeu.

Martha riu.

— Você também teve dificuldade para dormir na noite passada? Eu fiquei muito agitada,

passei boa parte da noite me revirando na cama. No fim, desisti e fui ler um livro na banheira. —

Ela tocou o ombro de Sonia e a guiou para dentro do elevador. — Vá se aprontar! A gente dá um

jeito na maquiagem no carro. Eu espero aqui. Corre! — Martha recolheu o braço e acenou,

desaparecendo do outro lado da porta fechada.

Diante de um reflexo distorcido de si mesma no metal dourado da porta, Sonia se recostou na

parede do elevador e soprou o ar dos pulmões. Pelo menos Jeremiah não tinha contado nada a

ninguém. Ao notar que o elevador não se mexia, ela pressionou o botão do terceiro andar,

sentindo a tensão que formava uma bola em seu estômago diminuir um pouco só para aumentar

outra vez quando o elevador parou e ela se dirigiu à porta do quarto de Jeremiah.

Ele atendeu às batidas tímidas já trajando o smoking (menos o paletó), a gravata-borboleta

ainda sem o laço envolvendo o colarinho como uma coisa sem vida. Pareceu surpreso ao vê-la, e

aliviado. Mas não necessariamente contente.

Sonia mordeu o lábio, esperando que ele dissesse alguma coisa. Queria ver aquele sorriso

torto, sinal de que se preparava para fazer uma piada. Era como se ela não o beijasse havia muito

tempo, como se todo o esforço para voltar não tivesse como objetivo entregar uma caixinha de

joalheria e um paletó de smoking, mas estar nos braços dele e beijá-lo.

— Você conseguiu — ele disse secamente, ainda a mesma voz que ela escutara ao telefone na

noite passada.

— Sim. — Sonia lhe entregou o paletó e as alianças, o estômago reagindo com um pulo

quando os dedos se tocaram. Ela continuou parada na porta, amaldiçoando silenciosamente os

dedos por sempre fazerem a mesma coisa, como se algo não pudesse ser entregue sem o toque

incidental.

Jeremiah guardou as alianças no bolso e vestiu o paletó, voltando ao interior do quarto para se

sentar na beirada da cama. Ainda estava desarrumada, os lençóis revirados, um travesseiro no

chão. Ele a encarou, os olhos sempre provocando algum tipo de reação em Sonia, sobretudo

quando desviaram, tímidos.

Era claro que ele não seria o primeiro a falar. Não ia propor a reconciliação, mas pelo menos

não insistia em brigar.

— Acho que preciso me arrumar — Sonia falou, os olhos fixos no rosto dele, implorando

para ver a expressão doce habitual.

— Sim — ele disse, apoiando os cotovelos nos joelhos e analisando o carpete. — Está em

cima da hora.

— Eu sei.

Sonia não sabia se o silêncio dele era uma espécie de ultimato — conte a eles, ou acabamos

por aqui —, ou se Jeremiah estava apenas magoado. Não sabia o que significava a própria

incapacidade de tocar no assunto, se a relutância em desistir de Sam era uma disposição para

desistir de Jeremiah.

— Acho que a gente se vê na cerimônia.

— Sim — ele respondeu e olhou para ela por um segundo. Os lábios se distenderam no que

poderia se passar pelo sorriso de um estranho, mas, em alguém que ela amava, só demonstrava

como um sorriso era improvável.

Sonia suspirou, sentindo que estava à beira das lágrimas outra vez.

— Tudo bem — disse e saiu atordoada.

Ela bateu à porta do próprio quarto esperando que Leila tivesse conseguido pegar a chave.

— Você o encontrou? — Leila perguntou ao abrir a porta. — Como foi?

Sonia entrou e deu de ombros.

— Não sei. Ele não contou a ninguém. Então é isso.

— Vocês conversaram?

— Não muito. Eu tinha que vir me arrumar.

Ela vasculhou o interior da mala, tirando dali o estojo com os produtos de higiene. Sonia se

sentiu exausta, como se de repente até o menor movimento fosse demais. Ela deixou a porta do

banheiro encostada enquanto esperava a água esquentar, um hábito adquirido com os banhos na

casa da família de Sam, onde todos tomavam banhos tão quentes que embaçavam os espelhos.

Sonia checou a temperatura da água e entrou no banho, passando um minuto inteiro sob o

jato quente, olhando para uma bolinha preta na cortina do box e tentando encontrar força para se

mexer. Ela tirou a floresta que lhe cobria a pele, se livrou do cheiro de donuts e das horas de

choro.

Ela enxaguou o cabelo sem entusiasmo, cumprindo a rotina do banho como se fosse uma

manhã de segunda-feira qualquer e não quisesse estar acordada. Depois fechou o chuveiro e

pegou duas toalhas, envolvendo uma delas no cabelo e a outra no corpo. O ar fora do banho era

frio, e Sonia sentou sobre a tampa do vaso sanitário, mordendo distraidamente a ponta da toalha

em seu cabelo. Por alguma razão, era nesse momento que as ideias para as histórias sempre

apareciam. Ou costumavam aparecer pelo menos, abrindo linhas que cobriam mundos inteiros,

um único personagem surgindo em sua mente e implorando para ganhar vida.

— Leila? — Sonia chamou.

— Oi.

Sonia puxou um fio da toalha com os dentes, sem perceber o que estava fazendo.

— Nada. Só queria saber se estava acordada.

Ela tentou se livrar do vazio em seu peito e ligou o secador para começar a cuidar do cabelo.

Imaginando-se no casamento, de pé ao lado da noiva, enquanto Jeremiah permanecia fora de

alcance ao lado do noivo, ela soube que passaria a cerimônia toda olhando para ele, tentando não

ser pega em flagrante por Martha. A culpa a invadiu de um jeito tão forte que era como uma

cãibra, forçando-a a abandonar o secador e sair do banheiro.

Leila estava diante da janela, olhando para o estacionamento ou talvez para o bosque além

dele. Sonia se ajoelhou sobre a mala, tentando tirar tudo da cabeça.

— Tá tudo bem? — Leila perguntou atrás dela.

Sonia se levantou.

— Sim — ela sorriu, voltando ao banheiro para começar a se vestir. O banho havia lhe

devolvido sua aparência normal, a ondulação natural dos cabelos e removido o inchaço dos olhos.

Ainda parecia cansada, mas uma maquiagem leve e a hipótese de Martha sobre ela não ter

dormido por causa da agitação dariam conta disso.

Houve uma batida à porta do banheiro quando ela estava terminando de vestir a roupa íntima.

Sonia abriu a porta e sorriu para Leila, casualmente apoiada na parede do lado oposto.

— Você parece um pouco... — ela fez um gesto vago com as mãos antes de deixá-las cair. —

Não sei. Desligada.

Sonia abriu o armário e tirou o vestido de dama de honra do plástico no qual ele tinha sido

entregue no dia anterior. Estendeu o vestido pêssego sobre a cama e deu de ombros de maneira

exagerada, como uma criança que está chorando costuma fazer quando alguém pergunta o que

aconteceu.

— É lindo — disse Leila, fazendo uma bola com o plástico e jogando-o no cesto de lixo no

canto. Depois sentou perto do pé da cama, tomando cuidado para não amassar o vestido. — Em

que você está pensando? Precisa fazer mais chá?

Sonia deu de ombros novamente, comprimindo os lábios. Sam costumava dizer que essa era

sua “cara triste”, e ele jurava que a expressão só aparecia no segundo em que ela se dava conta de

por que estava aborrecida com alguma coisa. Sonia pegou desanimadamente o vestido e abriu o

zíper devagar, como se o ato exigisse um esforço descomunal.

— Vai parecer muito idiota — disse em voz baixa.

— Sonia, passei a noite ajudando uma desconhecida a entrar ilegalmente no Canadá. Deixei

um cara chamado Stoner Timmy me enfiar no porta-malas do meu próprio carro e dei as chaves

na mão dele. Nessa viagem, já fui multada três vezes por excesso de velocidade, quatro por

estacionar em lugar proibido e duas por dirigir na contramão, tudo porque eu estava chorando.

Passei dias, é sério, dias, pensando em um garoto de quem não tenho notícias há dois meses.

Duvido que você esteja pensando em alguma coisa idiota, mas, mesmo que esteja, a idiotice é parte

natural da condição humana. Especialmente no que se refere a emoções.

Sonia queria sentar, mas sabia que Martha estava esperando. Olhou para o relógio no criado-

mudo, daqueles com painel verde luminoso que os hotéis gostam de ter em estoque.

— Tudo bem — disse Leila. — Acho que sei em que você está pensando. — E levou uma

mecha do cabelo preto para trás da orelha, lambeu o lábio e respirou fundo. — Sei que você

pensa que o Sam foi o amor da sua vida — começou, levantando as pernas para sentar sobre elas.

Leila olhava para Sonia, que estava segurando o vestido contra o peito. — O amor é raro, com

certeza. Mas não necessariamente acontece só uma vez na vida. Não importa com quantas pessoas

você vai ficar até o fim da vida, quantas vai amar, nada vai mudar o fato de que você amou o Sam.

Mas vou dizer uma coisa. Não vão ser tantas assim. — Leila fez uma pausa. — Você tem sorte de

já ter se apaixonado duas vezes. O momento dessa segunda paixão pode ser um pouco confuso,

mas não pense que isso diminui a importância de um desses relacionamentos. — Leila se levantou, pegou os lenços de papel em cima do criado-mudo e os ofereceu a Sonia. — Se perder a

família do Sam é o preço que você vai ter que pagar para ficar com o Jeremiah, eu digo, pague com

prazer.

Sonia caminhou até a janela e olhou para fora, tentando avistar Martha lá embaixo. Não havia

ninguém no estacionamento, só os carros brilhando ao sol como uma caixa de lápis de cor cheia

de repetições. Pensou em não ter mais que mentir para a família de Sam, em poder beijar Jeremiah

sempre que quisesse, em ficar de mãos dadas com ele. Uma onda de excitação percorreu suas

costas e a fez sorrir.

— E se eles me odiarem por isso? — Sonia pensou em como seria não ser mais convidada

para ir à casa deles, voltar à vida em família que tinha antes de Sam e a família dele aparecerem.

Depois viu o próprio reflexo na janela e se lembrou de Stoner Timmy fazendo pose, tentando

olhar para longe como se isso tivesse algum significado. Sorrindo, pensou em como era clichê

ficar parada diante de uma janela e fazer uma declaração dramática.

— Então é assim que as coisas vão ser.

Sonia apoiou a testa na vidraça e um nó de preocupação voltou a contrair seu estômago,

embora a excitação persistisse. Em seguida ela se afastou da janela, pegou o vestido novamente e o

colocou.

— Me ajuda com o zíper?

Leila ficou de pé para ajudar e acompanhou Sonia ao banheiro, onde ela prendeu o cabelo

num coque.

— Merda, vou deixar a Martha esperando — ela comentou quando terminou de arrumar o

cabelo. Carregando o estojo de maquiagem que pegou de cima da bancada do banheiro, Sonia

enfiou os pés nos sapatos de salto que havia escolhido com Liz. Depois pegou a bolsinha cor de

pêssego que combinava com o vestido e enfiou nela o celular e a chave do quarto que Leila pegara

na recepção, além de alguns lenços de papel que tirou da caixa no banheiro.

Sonia se dirigiu para o elevador. Antes de apertar o botão, no entanto, encarou Leila, tentando

decidir o que dizer.

— Acho que ninguém mais vai fazer o que você fez por mim. — E balançou a cabeça,

olhando para o chão, se dando conta, talvez pela primeira vez, de quanto Leila tinha feito por ela.

— Tenho a sensação de que te devo muito mais do que essa despedida apressada.

— Não seja boba. Você não me deve nada. Nossa aventura me apresentou ao homem dos

meus sonhos. Assim que sair daqui, vou voltar ao Tim Hortons.

Sonia riu e, relutante, chamou o elevador.

— Falando sério, você tem meu telefone. Se um dia precisar de alguma coisa, fale comigo.

O elevador anunciou sua chegada com um ding. Quando as duas entraram, Leila puxou a

garota para um abraço inesperado.

— Obrigada — falou Sonia, retribuindo o gesto. — Não sei de onde você saiu, mas fico feliz

por ter aparecido. Sem você eu estaria perdida.

— Eu também — Leila respondeu.

Elas se separaram, e Sonia se surpreendeu ao ver uma lágrima correndo pelo rosto de Leila.

Em seguida, a porta do elevador se abriu, e Sonia avistou Martha sentada no sofá de couro do

saguão, a bolsa no colo. Ela olhava diretamente para o elevador, e, quando fizeram contato visual,

Martha acenou e começou a se levantar.

— Tchau — disse Sonia, e a palavra parecia pequena ao deixar sua boca. Então ela sorriu para

Leila e correu, os saltos batendo barulhentos no piso de mármore.