Perdidos por aí
Capítulo 4
Estava escuro, não havia luz na estrada, nada além dos faróis do carro iluminando um ou outro
refletor na lateral da pista. Eles cintilavam amarelos, depois sumiam na escuridão.
Hudson dava olhadas rápidas para o perfil de Leila, tentando entender o que a tornava tão
atraente, mas o único pensamento inteligível que conseguia ter depois de cada olhada era: Gosto
do rosto dela. Eu gosto mesmo do rosto dela.
— Então, como você encontrou esse tesouro?
— É uma tradição aqui. Sempre tem um grupo que se apropria dele. Depois, quando esse
grupo vai embora, vai pra faculdade, tem filhos, envelhece, qualquer coisa, outro grupo ocupa o
lugar. O irmão mais velho de um dos meus amigos costumava ir lá e, quando todos os amigos dele
foram trabalhar em Jackson ou Biloxi, meus amigos tomaram conta do espaço.
Só depois de ter dito isso, Hudson percebeu que ele e Leila podiam não estar sozinhos na
curva do rio. Noite de sexta-feira em Vicksburg, o que mais havia para fazer ali? Ele esperava que
os amigos estivessem no boliche.
— O que vocês fazem lá? Besteiras de garotos?
— Basicamente. — Ele ligou a seta e seguiu por outra estrada indistinguível. — Jogar bola,
fazer fogueira. Beber. Não sou muito de beber, então geralmente sou o motorista.
— Hum, é uma pena não termos nada pra beber. Seria divertido ficar bêbada com você.
Hudson deixou o comentário no ar e fingiu se concentrar na estrada ao trocar a pista asfaltada
por uma trilha de terra. O carro sacudia sobre a superfície irregular, deslocando pedras que
batiam na parte de baixo do veículo e faziam barulho.
— Estamos muito longe?
— Quase chegando — ele respondeu, apontando para um caminho escuro para além do
alcance dos faróis.
Quando Hudson estacionou, Leila abriu rápido a porta para descer, deixando entrar um som
vibrante. Não era o rio propriamente, a correnteza estava calma, mas tudo que o cercava: a vida
silvestre noturna, os insetos, a flora se movendo com a brisa, quase como pulmões se expandindo
e se contraindo. Impossível provar, mas Hudson sentia que toda a extensão do rio contribuía para
o som, os cassinos flutuantes alguns quilômetros abaixo, a correnteza encontrando o golfo do México em New Orleans como um címbalo de jazz. Tudo se juntava para criar aquela parede de
ruído quase tangível.
— Por aqui — ele falou, começando a seguir por entre as árvores rumo à ribanceira.
Ela o seguia, e, antes que ele pudesse perceber o que seus dedos estavam fazendo, Hudson
segurou a mão de Leila.
— Tudo bem — ela falou, segurando a mão dele sem muito alarde. — Você guia.
Grato pela escuridão que escondia seu sorriso incontrolável, ele continuou andando por entre
as árvores. Algumas vezes quase tropeçou, distraído demais com o toque de Leila para se atentar
ao terreno. Eles chegaram à margem do rio e se puseram a andar no sentido da correnteza.
Hudson esperava que o barco estivesse ali. Se estivesse, isso significava que ele e Leila teriam a
curva do rio só para eles e que seus amigos estavam em outro lugar fazendo outra coisa.
— Gosto da rota — Leila comentou. — Parece mesmo uma verdadeira caça ao tesouro.
— Você vai amar o lugar — ele garantiu, reconhecendo os galhos baixos onde costumavam
esconder o pequeno barco a remo. Estava lá. Hudson soltou a mão de Leila para se abaixar e
puxar a embarcação para fora do esconderijo. Era um pouco melhor do que uma canoa velha, a
madeira cheia de nós e rachada, a pintura branca esverdeada pelo rio.
— Ah, estou vendo — disse Leila, correndo os olhos do barco para a água, as mãos nos bolsos
traseiros, outra vez a postura que mudava o mundo. — É muito longe?
— Não muito. Uns sessenta, setenta metros, talvez. — Hudson pôs um pé no barco e
estendeu a mão para ela.
Leila olhou para ele, depois para a ilha. Um sorriso malicioso esticou seus lábios. Ela deu um
passo em direção ao barco, mas, em vez de aceitar a ajuda, se ajoelhou e enfiou a mão na água.
— Está gelada — constatou. — Mas a correnteza não está tão forte. — E ficou de pé. —
Vamos atravessar nadando.
Leila tirou um chinelo e enfiou o pé no rio.
Hudson olhou para ela.
— Você nunca fez isso antes? — ela perguntou.
— Não.
— Então com certeza vamos fazer agora.
— E nossas roupas?
— Vão ficar molhadas e depois de um tempo vão secar.
— E os celulares? A chave do carro?
— Vamos deixar tudo no carro. — Ela o segurou pela mão e o puxou para fora do barco. —
Hudson, você vai atravessar esse rio a nado comigo.
Ele se mostrou resistente nos primeiros passos, arrastando os pés. Mas então lembrou que
havia pulado a janela do quarto e saído de casa porque queria se divertir para variar.
— É muito difícil dizer não pra você.
— Por que você ia querer dizer não pra mim?
Leila riu e apertou a mão dele, e então voltaram para o carro. Hudson deu uma olhada nas
horas outra vez antes de guardar o celular no porta-luvas. Se estivesse cansado no dia seguinte,
poderia dizer ao pai que tivera insônia por causa do nervosismo. Eles deixaram os sapatos,
carteiras e chaves dentro do automóvel, depois caminharam cuidadosamente até a margem do rio,
tentando não pisar descalços em pedras e galhos.
Os dois se detiveram na margem de frente para a ilha, a correnteza lambendo seus pés como
se tentasse atraí-los para a água.
— Dá só uma olhada naquelas estrelas — disse Hudson.
— Lindas — respondeu Leila, olhando para o céu noturno. Depois olhou para ele e sorriu. —
Você nada bem?
— Eu me viro. E você?
— Vamos ver, né? — E, com isso, mergulhou.
Houve uma pausa muito breve. Um instante entre a ação de Leila e a reação dele, uma fração
de segundo na qual ele se perguntou quem era aquela garota e o que ela estava fazendo em sua
vida. Quando o pensamento se esvaiu, Hudson já mergulhava atrás dela.
A água fria foi um choque. Ela estava um pouco à frente, as braçadas dela eram rápidas,
vigorosas, alegres, o som de sua risada ecoando cada vez que ela virava o rosto para respirar.
Quando quase bebeu um gole do Mississippi, Hudson se deu conta de que também ria entre as
braçadas, que seus batimentos cardíacos estavam acelerados pela adrenalina, que se sentia
completamente intoxicado pelo rio, pela noite, por Leila. Nadou mais depressa até quase alcançá-
la, até os pés de Leila se moverem a poucos centímetros de seu rosto. E continuou nadando até
estar ao lado dela, até sentir os músculos queimando com o esforço. É engraçado como é preciso
sentir certa dor para lembrar que algumas partes do nosso corpo estão vivas.
Os dois chegaram à margem da ilha quase ao mesmo tempo e escalaram a encosta de lama e
grama, então caíram deitados de costas. O braço de Leila descansava sobre o peito dele. Sem
pensar muito no movimento, Hudson ergueu a mão direita e a apoiou de leve no antebraço da
garota. Esperava sentir o calor de sua pele, mas estava fria por causa água. Ele começou a
massagear o braço dela para aquecê-lo.
— Estamos muito molhados — ela comentou, descolando a camiseta da barriga com a mão
que não estava no peito de Hudson.
— Sim, estamos — ele riu.
Ela puxou o braço para torcer a camiseta.
— Não adiantou nada.
E se levantou, batendo as mãos nas pernas para tirar as folhas de grama grudadas ali.
Enquanto se levantava também, Hudson, por um segundo, ficou abismado. Embora na
verdade não tenha sido só por um segundo, mas o dia inteiro. Desde que Leila saíra do carro, ele
se sentia abismado com a sua presença, com a sua beleza. Não conseguia desviar os olhos dela.
— Vou interpretar o olhar fixo como elogio — Leila riu.
— Desculpa — Hudson murmurou e olhou para o chão. Nem mesmo envergonhado
conseguia desviar os olhos por completo. Ele via a água lhe escorrendo pelas pernas e se
perguntava como tinha ido parar ali.
E agora ela estava se aproximando e passando os braços em torno do pescoço dele, puxando o
corpo dele contra o dela.
— Você está tremendo — ela disse.
— Acho que posso parar de tremer logo se você continuar o que está fazendo.
Ela riu e se aproximou um pouco mais, então Hudson pôde realmente sentir o calor de seu
corpo. Ele ergueu a mão para levar uma mecha de cabelos para trás da orelha de Leila, mas, não
sendo muito bom nessa parte do processo, se deu conta tarde demais de que havia levado as duas
mãos ao rosto dela e de repente não sabia o que fazer.
Leila percebeu e riu, mas não de maneira indelicada.
— Vamos fazer assim — Hudson falou, colocando as mãos sobre os ombros dela e tentando
menosprezar o momento.
Ela balançou a cabeça e então segurou a mão direita dele e a levou ao pescoço.
— Bem aqui.
Hudson olhou para ela, para aquele rosto fantástico voltado para ele, para os lábios
entreabertos em um sorriso, a princípio, depois se preparando para o que estava prestes a
acontecer. Os olhos dela presos nos dele, então em sua boca. Hudson mal podia acreditar que
estava ali com ela. Eles começaram a se inclinar um para o outro, e foi nesse instante que um ruído
rompeu a barreira de isolamento criada pela agitação do rio.
— Pu-ta merda! Aquele é o Hudson com uma garota?