Perdidos por aí

Adi Alsaid · Capítulo 14 de 36

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Perdidos por aí

Capítulo 7

 

Eram quatro da manhã, e Bree perdera a conta do número de hotéis nos quais passaram à procura

de Alexis. Elas contornaram o aeroporto, parando em todos os lugares que avistavam. Teria sido

mais fácil controlar as paradas se todos os hotéis não usassem a mesma paleta de cores: o mesmo

amarelo-claro nas paredes, o mesmo carpete verde-escuro, a mesma mobília vermelha.

Leila tinha certeza de que Alexis estava em um dos hotéis perto do aeroporto, aguardando

para embarcar na manhã seguinte. Mas elas não a encontraram; tudo o que viram foi uma

sucessão de recepcionistas balançando a cabeça para o monitor e dizendo: “Sinto muito”. Os

saguões estavam sempre vazios, os estacionamentos quietos, como se o Arrebatamento tivesse

acontecido e deixado para trás apenas os funcionários de hotel.

— A gente já não passou nesse aqui? — Bree perguntou quando Leila parou o carro em uma

vaga perto da entrada de mais um hotel na região do aeroporto. — Acho que não faz mais

sentido, Leila. Não vamos encontrá-la.

— Vamos lá — respondeu Leila, soltando o cinto de segurança. — Tenho um bom

pressentimento com relação a esse hotel. — E deu uns tapinhas encorajadores na coxa de Bree

antes de sair do carro. A garota suspirou e a seguiu, sentindo uma vontade rara de dormir.

As paredes do saguão eram mel e mostarda, o carpete estampado em verde-jade e marrom.

Havia duas mulheres atrás do balcão da recepção. A mais velha fazia cara feia para alguns papéis

diante de si. Os cabelos finos e loiros estavam presos em um coque frouxo, e ela tinha rugas que

pareciam profundas demais para a idade. O crachá estava preso na camisa, brilhante, mas lascado

em um canto, de forma que o “e” de “Marjorie” havia quase desaparecido.

A mais jovem parecia cansada, mas alegre. O cabelo vermelho estava penteado como o de

Marjorie, mas cada mecha estava firme no lugar. Seu crachá exibia apenas “em treinamento”.

Quando notaram Bree e Leila se aproximando, Marjorie sussurrou alguma coisa para a mais

jovem e deu um passo para trás. “Em treinamento” adotou uma expressão cortês, embora aquilo

não pudesse ser chamado de sorriso.

— Bom dia, senhoritas — disse. — Como posso ajudá-las?

— Oi — Leila respondeu, dando início à mesma explicação que dera a todos os

recepcionistas dos hotéis. — Nós precisamos falar com uma hóspede. — E disse o nome de

Alexis.

— Qual é o número do quarto? — perguntou a jovem, olhando para o monitor e pousando as

unhas com francesinhas bem feitas sobre o teclado.

— Não temos o número do quarto, na verdade. Só o nome.

“Em treinamento” digitou alguma coisa, mas não esboçou nenhuma reação ao que viu na tela.

A mulher hesitou, depois olhou por sobre o ombro para Marjorie, que balançou brevemente a

cabeça.

— Lamento, não tenho autorização para fornecer informações sobre os hóspedes. — “Em

treinamento” cruzou as mãos sobre o balcão. — Sinto muito.

— Então ela está hospedada aqui? — perguntou Bree, sentindo o coração começar a acelerar.

— Hum, bem... — “em treinamento” começou, mas foi interrompida por Marjorie.

— Não podemos fornecer informações. — E deu um passo a frente, empurrando a jovem

para o lado. Bree não pôde deixar de notar os curativos cobrindo duas unhas na mão esquerda de

Marjorie.

— É uma emergência familiar — disse Leila. — Não precisa fornecer nenhuma informação.

Basta ligar para o quarto dela.

— Não posso incomodar os hóspedes a esta hora — Marjorie respondeu.

Bree lutava contra o impulso de partir para o ataque.

— Por favor, nos ajude. Preciso muito falar com a minha irmã. Não pode dizer pelo menos se

ela está neste hotel?

— Lamento, não posso fazer nada. É contra a política da empresa. — Marjorie se ajeitou,

cruzando as mãos às costas como um soldado em posição de descanso. “Em treinamento” olhou

para Bree com ar de piedade e moveu os lábios pedindo desculpas.

— O que é contra a política da empresa? — Bree ergueu a voz. — Permitir o contato entre

dois membros de uma família em situação de emergência?

Leila pousou a mão sobre o ombro de Bree e a tirou do caminho, se colocando diretamente na

frente de Marjorie. Bree deu dois passos na direção da lareira falsa para se acalmar antes de voltar.

— Marjorie — Leila disse com um sorriso. — Não queremos que faça nada que vá contra as

normas da empresa. Só precisamos entrar em contato com a irmã da minha amiga imediatamente.

O que pode fazer para nos ajudar?

A mulher ergueu o queixo com despeito. Bree percebeu que sua expressão normal era

carrancuda, os cantos da boca voltados para baixo como se esperasse constantemente a decepção.

— Não posso dar nenhuma informação sobre os hóspedes e não posso incomodá-los.

— Tem um gerente com quem a gente possa falar? — Bree perguntou da forma mais calma

possível.

Marjorie exibiu os cartões sobre o balcão. “Supervisora da recepção.”

— Ótimo — disse Bree. — Uma pessoa infeliz agarrada ao poder. Era exatamente o que

precisávamos encontrar. — Ela pegou um cartão e começou a rasgá-lo em pedacinhos,

balançando a cabeça.

Leila olhou para Bree de um jeito que ela entendeu imediatamente. “Deixa que eu cuido disso.” Bree abaixou a cabeça, mas continuou rasgando o cartão até o nome e o título de Marjorie

ficarem ilegíveis.

— Peço que desculpe a minha amiga. Ela teve uma noite difícil — Leila começou. E se

inclinou para frente para olhar bem nos olhos azuis de Marjorie. — Uma das minhas canções

preferidas é de uma banda chamada Modest Mouse: “O mundo todo fede, então ninguém mais

toma banho”. Talvez você tenha tido uma noite pior que a da minha amiga. Seu chefe tenha

gritado com você, ou um hóspede tenha sido grosso. Mas, na minha opinião, só existem duas

maneiras de resolver as coisas depois de uma noite ruim: ou você fede com todo mundo, ou toma

um banho. Tenho certeza que a minha história aqui vai fazer você se sentir grata por seus

problemas serem tão pequenos. E tenho certeza que há uma história sua que vai fazer meus

problemas parecerem pequenos. Mas que utilidade teria isso? Todo mundo mostrando como

tudo é horrível, em vez de tentar melhorar um pouco as coisas? Você só precisa nos dar o número

do quarto. Só essa coisinha e o mundo vai se tornar um pouco melhor.

Leila uniu as mãos, um gesto mais de esperança que de súplica.

Bree ergueu os olhos da pilha de pedaços de cartão que havia feito enquanto Leila falava. O

saguão estava quieto depois do discurso, o que era bom sinal, apesar de todos os outros também

terem sido silenciosos. No entanto, algo mudara na expressão de Marjorie. Talvez fosse bondade,

talvez só misericórdia.

Marjorie pigarreou.

— Não posso ajudar vocês. — Ela se virou para a “em treinamento”. — Sempre siga as regras

da empresa. — E empurrou um cartão por cima do balcão em direção a Leila. — Se descobrir

qual é o número do quarto da hóspede, por favor, sinta-se à vontade para voltar.

Bree balançou a cabeça, sem poder acreditar. Pensou em jogar os pedaços de cartão na cara de

Marjorie, ou disparar pelos corredores acordando todo mundo no hotel, mas não tinha energia

para isso. Ela agarrou o braço de Leila e a puxou para longe do balcão da recepção.

— Vamos sair daqui — disse.

Quando abriram a porta para o estacionamento, Bree ficou chocada com o fato de o ar ter

esfriado tanto.

— Que vaca — disse Leila. Ela estava olhando para o cartão que Marjorie lhe dera. — Que

mulher sem coração.

— É — Bree concordou. Não estava a fim de encarar frustração. Só queria parar por um

tempo.

Um momento de silêncio passou. O aeroporto estava bem diante delas, e Bree podia ver táxis

seguindo para o terminal, deixando ali os primeiros passageiros. Ela se perguntou que consolo

teria se simplesmente voltasse para a vida na estrada, tentasse amar a ideia de viver desse jeito,

mesmo não amando a coisa em si?

— Dois um oito! — Leila gritou, rompendo o silêncio.

— O quê?

— Dois um oito — repetiu, passando o cartão a Bree e voltando ao hotel.

Bree olhou para o cartão e o virou, vendo os números anotados no verso, em uma caligrafia

redonda, limpa.

Seu coração acelerou. Alexis estava ali. Ela não sabia o que diria à irmã, mas tudo podia ficar

bem. Elas se apressaram até a porta e seguiram direto para o elevador. Os pensamentos de Bree

corriam loucamente durante a lenta subida.

As portas abriram no segundo andar, e elas saíram para o corredor. Havia ali duas poltronas e

uma mesinha com um vaso de flores de plástico de cores vibrantes. Uma placa na parede orientava

os hóspedes para um ou outro lado, dependendo do número do quarto. Bree olhou para um lado,

depois para Leila. Leila parecia ter sobrevivido perfeitamente aos eventos do dia, como se a vida

nunca pudesse desaparecer de seus olhos, por maior que fosse a carga de dificuldades.

— Obrigada, Leila — disse Bree. — Por me convencer a procurar minha irmã. Por ver a

bobagem que eu estava fazendo quando eu não conseguia enxergar nada.

Leila sorriu calorosamente.

— Esquece — disse e se jogou em uma das poltronas. — Vai lá. Espero aqui.

Bree hesitou por um segundo, depois assentiu e seguiu pelo corredor. No quarto 218, Bree

pulou o drama de respirar fundo e bateu à porta com firmeza. Se a irmã não iria perdoá-la, ela

queria ao menos acabar logo com isso.

Alexis abriu a porta com a mesma calça de pijama e moletom de capuz de quando foi buscar a

irmã na delegacia. Com a luz forte do corredor, seu rosto parecia muito mais velho do que duas

horas atrás. As sobrancelhas estavam levemente erguidas, como se ela esperasse se divertir. “Vai

logo com isso”, seus olhos vermelhos diziam.

— Eu nunca devia ter desaparecido — disse Bree. — Fui egoísta e imprudente... você tem

razão. Tornei a sua vida e a minha mais difíceis do que já estavam.

Bree tomou consciência do silêncio no corredor. Alexis estava apoiada no batente, as mãos no

bolso frontal do moletom. Parecia totalmente indiferente às palavras de Bree. Mas Bree não podia

parar.

— Desculpa por nunca ter perguntado como você estava. Eu achei que soubesse o que se

passava na sua cabeça, e não devia ter feito isso. Desculpa por ter beijado o Matt. Aquilo foi

horrível. Desculpa por ter feito você passar por tudo que eu fiz. Eu fiz tudo aquilo com a gente. A

vida já estava bem difícil sem eu me comportar como uma idiota. — Ela passou o dorso da mão

pelo nariz. — Não sei se adianta, mas eu amo você. Sei que a gente nunca se deu muito bem, mas,

nesses nove meses longe, eu senti sua falta. E quero você de volta na minha vida. Eu entendo se

você nunca mais quiser me ver, mas tinha que pedir desculpas.

A expressão de Alexis continuava a mesma. Bree se virou para ir embora. Pelo menos ela havia

tentado.

Antes que pudesse dar um passo, no entanto, Alexis a segurou pelo braço e a puxou para um

abraço. Era um abraço apertado, tão caloroso e familiar. Ela podia sentir o cheiro de xampu de

morango no cabelo de Alexis, a mesma marca que usavam havia anos. Bree pressionou a bochecha contra a da irmã, sentiu as lágrimas misturadas de ambas descendo pelo pescoço. Elas se

abraçaram como tinham feito tantas vezes durante o período da doença dos pais.

— Desculpa — Bree repetiu, apoiando a cabeça no ombro de Alexis.

— Eu fiquei tão preocupada com você. Minha irmãzinha andando pelo mundo,

completamente sozinha. — E a abraçou com mais força. — Tudo bem. Eu perdoo você. Só não

me faça passar por nada parecido de novo. — Ela fungou e riu. — É claro que quero te ver de

novo, pateta.

Bree também riu, sentindo o nariz entupido por causa das lágrimas. Sem nenhuma vergonha,

ela o limpou no moletom de Alexis. As irmãs se afastaram e ficaram no corredor, na porta do

quarto, aproveitando o momento de felicidade.

 

Foi difícil para Bree sair de perto de Alexis, mesmo que por alguns minutos. Ela a abraçou mais

uma vez antes de sair do quarto e se juntar a Leila na frente do elevador.

— Como foi? — Leila perguntou. Bree sorriu em resposta. — Que bom — Leila retribuiu o

sorriso. Depois levantou da poltrona e chamou o elevador. — Você me acompanha até o carro?

— Claro — Bree respondeu sem deixar de sorrir.

Elas atravessaram o saguão do hotel, assentindo para Marjorie quando passaram pela

recepção. Bree até levantou a mão para um tímido aceno em agradecimento, mas Marjorie não

pareceu ter notado.

Bree abriu a porta para o estacionamento, o ar do início da manhã a recepcionando. As

primeiras luzes do nascer do dia coloriam o horizonte. Bree aprendera a partir com facilidade,

mas despedidas eram outra história, esta em particular.

Leila também andava lentamente, prolongando o trajeto até o carro.

— A Alexis quer que eu volte para casa com ela.

— Isso é ótimo — comentou Leila, com um largo e sincero sorriso. E pressionou de leve o

antebraço de Bree. — Era o que você queria, certo?

— Para ser bem honesta, eu nem tinha pensado no que ia vir depois do pedido de desculpas.

Ela me perguntou se eu queria voltar para casa.

— Você vai?

— Eu disse que quero voltar com ela, mas do meu jeito. Uma viagem de carro daqui até Reno,

sem itinerário, sem planos, sem pressa de chegar. Só nós duas vivendo uma aventura.

— Certifique-se de encontrar um carro com ar-condicionado.

Bree riu até pararem ao lado do automóvel de Leila. Mais do que tudo, ela sentiria falta do

riso fácil de quando estava com Leila. Ela deslizou um dedo pelo capô, deixando um rastro na fina

camada de poeira.

— As pessoas podem dizer o que quiserem sobre você, Leila, mas a vida não é chata quando

você está por perto.

— E não é muito dentro da lei quando você está por perto.

— Faço o que posso — Bree deu de ombros. — Tem certeza que não quer ficar e dormir um

pouco? Podemos sair todas juntas de manhã.

Leila pareceu considerar a oferta por um segundo, brincando com a chave do carro na mão.

— Não — respondeu. — Acho que vou voltar para a estrada. A aurora boreal me chama.

Bree assentiu, surpresa por sentir que era difícil segurar as lágrimas. Ela abraçou Leila.

— Talvez a gente se encontre por aí.

— É, talvez — disse Leila, abraçando-a com força antes de se afastar. Ela destravou as portas e

entregou a bolsa de Bree, que a pendurou no ombro e olhou para dentro do automóvel.

— O que vai fazer com o display?

Leila riu como se tivesse esquecido que ele estava lá. Ela deu de ombros.

— Vai ser minha companhia na estrada, alguém para abraçar nas noites frias e solitárias.

Bree riu e a abraçou mais uma vez.

— Se cuida, Leila.

— Você também — ela respondeu, entrando no carro. Ela deu partida e abriu a janela. — Se

precisar de ajuda para fugir da prisão usando sapatos, sabe quem chamar.

Então deu ré, saiu do estacionamento, engatou a primeira e foi embora, acenando. Bree

acenou de volta, mesmo tendo certeza de que Leila já não conseguia mais vê-la. Depois pegou a

bolsa e entrou no hotel para se juntar à irmã, imaginando todos os lugares que veriam juntas.