Perdidos por aí
Capítulo 2
A primeira coisa que Elliot viu ao despertar foi o brilho das luzes da ambulância girando em
silêncio, sem a sirene. Ele virou a cabeça e viu que estava em Burnsville, reconheceu as árvores
grossas que cercavam tudo em sua cidade. Observando as luzes vermelhas dançarem mudas nas
árvores, pensou por um segundo que talvez tivesse ficado surdo. Depois ouviu o som de passos e
o rosto de Leila apareceu na janela. Ela tinha estacionado o carro e se preparava para ajudá-lo a
descer.
— Vem — disse ela, abrindo a porta. — Vamos dar um jeito nisso.
— Onde estamos?
— No hospital — disse Leila. — Você desmaiou antes de me dar seu endereço e sua mão
continua sangrando muito.
— Desculpa pelo carro.
— Tudo bem. — Ela se debruçou para ajudá-lo a soltar o cinto de segurança. — Não foi de
propósito.
O cheiro dela era bom, e Elliot sentiu vergonha do próprio hálito.
Leila o ajudou a sair do carro. Depois pôs a mão sem ferimentos dele sobre o ombro, passou
um braço em torno da cintura de Elliot e disse para ele levantar a mão machucada. Enquanto
atravessavam o estacionamento, Elliot se esforçava para não parecer tão bêbado.
O pronto-socorro estava vazio, exceto por uma mulher tentando acalmar uma criança que
gritava e pela enfermeira atrás do balcão da recepção. Leila acomodou Elliot em uma cadeira e foi
falar com a recepcionista, voltando logo em seguida com alguns papéis. Enquanto ela pedia seus
dados para preencher os formulários, Elliot olhava para a criança chorando, torcendo para que a
ausência de ferimentos aparentes fosse um indício de que o menino estava bem, só mal-
humorado, e de que a mãe era meio superprotetora.
— Motivo da consulta?
Elliot olhou para Leila.
— Sério? — Ele mostrou a mão, tentando escondê-la da criança para evitar mais um ataque
de pânico.
— Vou escrever apenas “bêbado”.
— Serve. — Elliot escorregou na cadeira de plástico para apoiar o pescoço no encosto.
Quanto menos a cabeça girava, mais a mão doía.
Leila levou os formulários de volta para a recepcionista, que informou que seriam atendidos
em breve. Depois de mais ou menos um minuto, mãe e criança desapareceram para além de uma
porta. Os gritos do menino foram, convenientemente, desaparecendo, como a sirene de uma
ambulância se afastando.
— E aí? — Leila falou. — Qual é sua história?
Elliot podia sentir o olhar dela sobre ele; no smoking sujo de bebida, sangue e vômito, na mão
ensanguentada, na ausência de uma flor na lapela.
— Não é uma história que alguém queira ouvir — respondeu, evitando encará-la.
— Bom, se você sangrar até morrer, quero poder contar às pessoas um pouco sobre você.
Elliot riu, então pressionou um pouco mais o corte e gritou de dor.
— Vamos lá. Eu trouxe você ao hospital, apesar de odiar hospitais. Você vomitou no meu
carro todo. Você me deve uma história.
— Você disse que tudo bem.
— E é verdade. Mas faço questão absoluta de saber quem são as pessoas que atropelo.
— Você está no hospital com um bêbado que não conhece e ainda faz piada?
— Eu quase te matei. Sem um pouco de humor, eu teria de lidar com a culpa. — Leila deu um
tapinha de leve em seu braço machucado, e ele se encolheu na cadeira. — Não seja tímido. Não
temos nada para fazer nesta sala de espera.
Como Elliot não respondeu, ela suavizou a voz:
— Foi uma garota?
Ele olhou para ela.
— Como você sabe?
— Você estava cambaleando, bêbado, de smoking em plena época de formaturas. Chutei.
Escorregando ainda mais para baixo na dura cadeira de plástico, Elliot fechou os olhos. Algo
dentro dele doeu, e não tinha nada a ver com a mão ou com o álcool.
— Eu tinha planejado para ser tudo perfeito. Perfeição do tipo Lloyd Dobler com um
aparelho de som na cabeça. Devia ter sido perfeito, no mínimo.
— Quem é Lloyd Dobler?
— Você nunca viu Digam o que quiserem?
— Nunca ouvi falar.
— Curtindo a vida adoidado? Clube dos cinco? — Leila deu de ombros. — Ah, cara, você está
perdendo muita coisa boa. Os filmes da década de 80 são os melhores. Quando meus pais se
mudaram para os Estados Unidos, quiseram se atualizar na cultura pop. Eles compravam todos
os filmes que podiam e viam muitas vezes para aprender as gírias. Minha casa ainda é cheia de
fitas VHS. Cresci vendo esses filmes. Não são como os de hoje. Você não precisa de um
orçamento de duzentos milhões de dólares para mostrar um cara conquistando uma gata.
— Mas sua gata te dispensou?
Elliot abriu os olhos de novo. A recepcionista saíra dali e eram só ele, Leila e as luzes
fluorescentes da sala de espera, que espalhavam um brilho horrível em tudo o que tocavam, das
paredes verde-claras e cadeiras de plástico cinza aos panfletos com pequenos gráficos e listas de
sintomas.
— Vai, fala — Leila insistiu. — Suas preocupações não morrem afogadas no álcool. Você
tem que colocá-las para fora — ela sorriu e o cutucou de leve com o cotovelo. — Conta mais
sobre essa garota.
Ele se ajeitou na cadeira, tomando cuidado para não mover muito a mão. A náusea cessara
quase que por completo, mas ele ainda podia sentir o álcool lhe correndo pelas veias e anuviando
seu raciocínio.
— Sou um cara meio esquecido — ele começou. — Mas tudo que ela diz eu lembro. Lembro
a cor da fita que ela usava no cabelo quando nos conhecemos, no primeiro dia do quinto ano.
Que ela adora orquídeas por parecer, mas não ser delicadas, na verdade. O único cartão-postal
que ela me mandou quando viajou com a família no verão, dois anos atrás, lembro como é meu
nome escrito com a letra dela.
— Qual é o nome dela?
— Maribel. — Ele amava pronunciar o nome dela em voz alta, sentir cada letra moldando
seus lábios. — Eu sou apaixonado por ela há muito tempo. Somos amigos, isso desde o ensino
fundamental. Mas nunca fomos nada mais do que isso.
Ele olhou para Leila. Ela estava sentada sobre as pernas na cadeira, os dedos distraídos
brincando com a bainha do vestido.
— E você nunca tinha dito nada a ela sobre o que sentia até hoje?
Elliot deu de ombros, olhando para a mão ensanguentada.
— Nunca soube como falar.
— Nunca pensou em “Oi, amiga, te amo. A gente devia se pegar”? Sempre funciona.
— Pensei nisso, na verdade. Pensei em todos os jeitos possíveis de admitir amor por alguém.
Não conseguia decidir se queria soltar tudo de uma vez quando estivéssemos juntos, se escrevia
uma carta, se fazia algo grandioso, ou se elaborava um daqueles planos passo a passo que os vilões
de filmes para adolescentes sempre inventam para fazer uma garota gostar deles. Quer saber
quanto custa escrever o nome de alguém no céu com um daqueles aviões? Porque eu pesquisei o
preço.
— Se custa mais do que uma lagosta, não vale a pena. Leve a garota a um restaurante, peça
uma lagosta e escreva o nome dela com manteiga na toalha de mesa. Isso com certeza funcionaria
comigo.
Elliot deu uma olhada de canto de olho para ela e riu.
— Aposto que você não pensou nesse jeito de declarar seu amor.
— Quase. Pensei em pernas de caranguejo.
— Teria sido um erro. — Leila puxou as pernas para mais perto do corpo. — E por que esta noite?
Elliot respirou fundo, e o gosto horrível que lhe veio à boca o fez virar o rosto, sem jeito, para
soltar o ar.
— Eu sabia que queria falar antes de terminarmos o colégio. Por isso escolhi a formatura, e na
frente de todo mundo. Não tem nada mais romântico do que alguém que não tem medo de se
expor pela pessoa que ama. Ensaiei a cena na minha cabeça e sempre achei que seria romântica,
como em um filme. Só conseguia imaginar tudo acabando bem. Sempre sentia o beijo.
Elliot foi interrompido por uma enfermeira chamando seu nome. Leila o seguiu conforme ele
era conduzido por um corredor até um pequeno consultório, onde um médico lavava as mãos.
Ele limpou o corte, removeu os cacos de vidro e deu os pontos necessários, tudo sem dizer uma
única palavra. Trabalhava quieto, como se consertasse um brinquedo quebrado. Elliot tentava
não se encolher de dor, mas não devia estar sendo bem-sucedido, porque, depois de um tempo,
Leila ofereceu a mão para ele apertar. Quando o médico terminou o curativo na mão de Elliot,
localizou rapidamente uma veia no outro braço, introduziu ali uma agulha ligada a um tubo e o
orientou a esperar vinte minutos e então chamar a enfermeira.
— Vai cortar o efeito do álcool — concluiu, soando como um juiz anunciando uma sentença.
Assim que ele saiu do consultório, Leila pulou em cima da maca ao lado de Elliot,
amarrotando o papel.
— Quero ouvir o que você falou para ela, a... Como é mesmo que ela chama?
— Maribel — disse ele, sem perder uma oportunidade de pronunciar o nome. —
Obviamente, não descolei a garota. Não tem um felizes para sempre aqui.
— Me conta mesmo assim.
Elliot sustentou seu olhar insistente e percebeu pela primeira vez, talvez por estar
recuperando a sobriedade, que ela era bonita. Não era Maribel, mas bonita. Depois olhou para os
próprios pés pendurados fora da maca.
— Acho que ainda não estou pronto para reviver aquele momento.
— É justo — ela disse. Os dois ficaram em silêncio, mas Elliot sentia o olhar cravado nele. —
Mas você está bem?
Ele ergueu a mão enfaixada.
— Todo remendado.
— Não foi isso que eu perguntei.
— É, eu sei. — Ele deu de ombros.
— Olha, eu sei que a gente acabou de se conhecer... — começou Leila, mas sua voz sumiu
antes que ela pudesse concluir seu raciocínio. Pessoas falavam alto no corredor, e, antes que ele
conseguisse entender o que diziam, Elliot soube exatamente a quem as vozes pertenciam.
— Ah, não.
— Eu sabia que você ia acabar no hospital um dia desses — a mãe dele disse antes mesmo de
entrar na sala.
A porta foi aberta, revelando um casal de meia-idade com cabelos afros quase idênticos, da
variedade judia. O pai estava de calça de pijama, chinelos e uma camiseta manchada que, Elliot
sabia, provocaria a ira da mãe assim que ela visse. Elliot moveu instintivamente a mão saudável
para cobrir os curativos, mas ou foi muito lento, ou a mãe estava preparada para gritar de
qualquer jeito, e nada a teria impedido.
— Meu bebê!
— Ai, meu Deus — Elliot resmungou.
— Não comece com essa de “Ai, meu Deus” — ela o censurou, se apressando em examinar
sua mão como se tivesse certeza de que era impossível o médico ter feito um trabalho
suficientemente bom. — O que você fez?
— O que é isso no smoking? — O pai dele deu um passo à frente, estreitando os olhos para
examinar as manchas, como se tentasse lê-las.
— Será que vocês dois podem ficar calmos? — Elliot olhou para Leila e fez uma expressão
envergonhada.
Os pais nem pareciam notar a presença dela ali.
— Calma? Meu filho está sangrando no meio da noite e eu devo ficar calma?
— Não estou sangrando, ima. Está tudo bem.
— Quando tiver filhos, espero que nunca tenha que sentir a dor de receber um telefonema de
um hospital no meio da noite. Estou surpresa por nenhum de nós ter tido um infarto, por não
estarmos ligados a uma máquina ao seu lado. — A mãe ajeitou a alça da bolsa. — Muito bem,
mamzer. Se está tudo bem, me diga: Por que veio para o hospital?
— Alguém lembra como funciona quando a roupa alugada é devolvida com manchas? — O
pai de Elliot inspecionava o smoking segurando-o entre os dedos, os óculos na ponta do nariz.
— Não é nada — Elliot insistiu. — Estou bem.
— Está bem, é claro. Cheirando a mendigo. E para que isso? — Ela apontou o tubo
intravenoso. — Me fala o que aconteceu ou vou chamar o médico e mandar tirar os pontos. E é
bom você torcer para ele me atender, ou eu mesma tiro.
— Sharon, acho que ele bebeu — o pai de Elliot comentou, cheirando o paletó do smoking.
— Não diga shtuyot — a mulher respondeu. — Ele não bebe. — E franziu o cenho para o
marido antes de olhar para Elliot novamente: — Você não bebe.
Elliot puxou o tecido da mão do pai.
— Pai, para de me cheirar, por favor. Mãe, tenta ficar calma por um segundo. — Ele olhou
para Leila, que fazia um grande esforço para conter o riso e parecer séria.
— Nu? Estou esperando.
— O negócio é que... — ele começou, sem saber qual era o negócio ou como explicá-lo aos
pais.
Felizmente, uma enfermeira apareceu no exato momento. Se soubesse o que esperava por ela
dentro do consultório, talvez tivesse deixado Elliot no soro por mais uns minutos, por conta da casa. A mãe dele a atacou imediatamente com perguntas sobre o estado do filho, o prognóstico e
o tratamento que devia ser adotado em casa.
— Tem farmácia aqui no hospital? Está aberta? Que marca de gaze é a mais confiável?
Quantos analgésicos ele pode tomar sem risco? Veja como ele está com dor, não pode dar mais
remédio?
A enfermeira apontou apressadamente para onde ficava a farmácia.
— Venha — ela chamou o marido —, vamos antes que fechem.
Em momento nenhum a enfermeira sugeriu que a farmácia poderia estar fechando.
— Você — a mãe falou da porta, apontando para Elliot. — Nossa conversa ainda não
acabou. — E seguiu para o corredor, um eco de conversa em seu encalço.
A enfermeira balançou a cabeça enquanto removia a agulha do braço de Elliot e segurava uma
bola de algodão sobre a gota de sangue que surgiu ali.
— Uau — disse Leila.
— Eu sei. — Elliot levantou a mão para mostrar que entendia completamente qualquer
pensamento sobre seus pais que ela pudesse estar tendo. — Aff, vai ser uma noite longa, e pelas
razões erradas — disse, passando uma das mãos pelo rosto. O soro diminuíra o efeito do álcool,
mas era como se o mundo insistisse em mantê-lo atordoado.
Quando levantou a cabeça, a enfermeira tinha partido e Leila estava na porta, olhando para o
corredor. Ela voltou para perto de Elliot e o puxou de cima da maca.
— Vamos embora — disse ela.
— O quê? Para onde? — O papel que cobria a maca rasgou quando ele desceu. Elliot seguiu
Leila para fora do consultório, passou por um funcionário empurrando uma maca vazia e por um
homem sussurrando ao celular.
Leila não disse nada até estarem outra vez na sala de espera do pronto-socorro e se dirigindo à
saída.
— Vamos atrás da garota.
— Espera aí — disse Elliot, conforme ela abriu a porta para o estacionamento. — Como assim,
atrás da garota?
— Olha, em todas as comédias românticas, sempre tem uma cena em que o cara acha que
perdeu sua grande chance antes de descolar a garota. — Ela ainda o puxava pela mão que não
estava machucada em direção ao carro. — É isso, a hora é agora. Você acha que a perdeu. Mas
ainda não. Não se eu puder evitar. — Ela abriu a porta do passageiro como se ele ainda estivesse
bêbado ou sangrando. — Tenho a sensação de que foi por isso que, desculpa pela expressão, a
gente se trombou. Vou ajudar você a conquistar a Maribel.
— É muita gentileza sua, mas acho melhor eu voltar lá e conversar com meus pais.
— Não. Seus pais vão estar lá para conversar amanhã de manhã. Hoje é a noite da formatura.
O que você tem que fazer é ir atrás da garota.
— Para com isso — Elliot respondeu. Ele balançava a cabeça, embora pudesse sentir parte
dele se aquecer com a chama da esperança. — A vida não é como nos filmes. Se você tenta viver
como se estivesse em um filme, acaba com a mão ensanguentada e o coração partido.
— Isso parece uma fala do cinema — ela respondeu, contornando o carro para se sentar ao
volante. Depois de abrir a porta, olhou para ele por cima do automóvel. — O que Lloyd Dobler
faria?
— Eu não sou Lloyd Dobler. — Ele queria gritar, mas as palavras soaram tristes, derrotadas.
Leila ignorou o comentário e deslizou para dentro do carro, forçando Elliot a se sentar ao lado
dela para continuar a conversa. — Sou mais parecido com o Duckie, de A garota de rosa-shocking,
e talvez seja hora de aceitar. A Maribel disse não. Eu tenho que deixar pra lá.
Leila se inclinou sobre o console e puxou o cinto de segurança de Elliot, prendendo-o com
um estalo firme.
— Você não tem que ser o Duckie, seja ele quem for. Não tem que desistir. Lloyd Dobler
desistiria?
Talvez o olhar de Leila tenha lhe parecido maluco, em vez de entusiasmado. Talvez ela tenha
parecido mais transtornada que inspiradora. Mas, quando ela girou a chave na ignição e o motor
deu partida, Elliot sentiu que a vida ainda podia ser como nos filmes. Com a ajuda dessa garota,
talvez ele ainda pudesse ter uma chance daquele beijo de animar a orquestra.
— Vamos atrás dela.