Perdidos por aí

Adi Alsaid · Capítulo 25 de 36

Páginas do PDF

Perdidos por aí

Capítulo 4

 

Quando elas pararam na casa de Sonia, em Tacoma, o sol brilhava por entre nuvens cinzentas. O

monte Rainier se erguia imponente sobre a cidade, o pico ainda branco de neve, como uma

enorme sentinela guardando o lugar. Sonia sentiu pânico ao se dar conta de que o casamento

aconteceria em apenas algumas horas.

Os carros dos pais estavam na garagem. Não eram lavados havia semanas, poeira em forma de

pingos de chuva cobrindo as janelas. Ainda que estivessem em casa, era provável que tivessem de

ir trabalhar, e “Irás trabalhar” era o primeiro mandamento na casa de Sonia. Ela não tinha muita

esperança de que pudessem ajudá-la, mesmo que quisessem. Era em momentos como esse que ela

sonhava em ter pais como os de Sam, que largavam tudo pelo bem dos filhos.

Como a chave de casa também estava na bolsa, Sonia tocou a campainha. Vozes alteradas

vinham lá de dentro, e ela pôde ouvir os passos pesados do pai, resmungando consigo mesmo. Ele

abriu a porta com uma expressão furiosa, como se já tivesse começado uma discussão mental com

quem se atrevia a tocar a campainha de sua casa tão cedo. Ele vestia seu uniforme de carregador de

bagagem e segurava uma xícara de café. Quando viu que era Sonia, disse:

— Ah. Oi. Está tudo bem? — E se virou para voltar para dentro, deixando a porta aberta.

— Sim. Vocês vão trabalhar? — Sonia perguntou, levando Leila para dentro da casa.

— É claro — respondeu o pai a caminho da sala de estar.

Sonia suspirou. Nesse caso, Mitch era sua única chance.

Todas as cortinas da casa estavam fechadas, o que não a surpreendia. A luminosidade dentro

de casa era quase sempre pálida, como a própria Tacoma. Os pais estavam sentados na sala de

estar, bebendo café e comendo burritos de ovos aquecidos no micro-ondas. Seu pai desabou na

poltrona e voltou a se dedicar às palavras cruzadas. A mãe estava no sofá e assistia a seu programa

matinal favorito.

A mãe de Sonia mordeu mais um pedaço do burrito e mastigou fazendo aquele ruído abafado

que tanto irritava a filha. A casa toda cheirava a feijão e queijo cheddar falso. Depois da mordida,

ela finalmente notou Sonia e Leila ao lado do sofá.

— Bom dia. Achei que você tinha algum lugar para ir hoje. Vai trabalhar?

— Tirei o fim de semana de folga — ela respondeu, se perguntando se a mãe ao menos se

lembrava do casamento.

— Então vou precisar que troque o óleo do meu carro, já que me pediu carona na quarta

passada.

Sonia ignorou o comentário. Olhou para Leila, constrangida porque os pais nem ao menos

notaram a presença dela ali.

— O Mitch está em casa?

A mãe bufou.

— Onde mais ele estaria?

Sonia fez um gesto para Leila segui-la. Elas atravessaram a sala em direção à escada,

provocando um protesto abafado quando passaram na frente da televisão. Uma fina camada de

poeira cobria o corrimão, e Sonia sentiu que corou de vergonha. Ela nunca falou muito sobre a

família com ninguém, nem mesmo com Sam ou Jeremiah, preferindo lidar com o assunto quando

escrevia. Não entendia os pais, como eles tinham entrado num círculo vicioso de trabalho e

irritabilidade que parecia definir a vida de ambos. Ou por que decidiram ter filhos, considerando

que nunca demonstraram afeto por Sonia ou pelo irmão dela. Quando escrevia, ela podia ao

menos fingir certa familiaridade com a história de vida dos pais, com as motivações que tinham

para viver como se a vida fosse uma maldição herdada.

Esquivando-se do cesto de roupa suja no topo da escada, Sonia e Leila seguiram pelo

corredor. O telefone de Sonia vibrou de novo.

 

estou começando a ficar meio preocupado. onde você está?

 

Ela guardou o aparelho e bateu à porta de Mitch.

— Não entro neste quarto há um bom tempo, mas, se nada mudou, prepare-se para um odor

nada agradável — preveniu. Depois bateu novamente e empurrou a porta.

O cheiro era praticamente tangível. A tradicional bomba de odores de um adolescente

misturada a outras coisas: bebida infiltrada na fibra do tapete, restos de lanche apodrecendo sobre

a mesa do computador, o equivalente a semanas de hálito matinal marinando no ar estagnado.

Sonia imediatamente começou a respirar pela boca, enquanto, atrás dela, Leila sentia ânsia de

vômito. Mitch roncava de leve, um pé pendurado para fora da cama. À luz cinzenta que entrava

pelas persianas, Sonia avistou um fio branco pendurado na barba em seu pescoço.

— Mitch — ela cochichou. Nada. — Mitch — repetiu um pouco mais alto. Ele gemeu e

puxou o travesseiro, jogando na direção dela e errando. — Mitch, preciso de um favor.

Ele virou para o outro lado.

— Sai daqui.

Sonia deu um passo adiante, desviando de algo no chão que ela não conseguiu identificar.

— Você sabe que eu não estaria aqui se não fosse uma emergência. Preciso da sua ajuda, de

verdade.

Ele gemeu e se encolheu no canto oposto da cama, colando o rosto à parede.

— Dormir — disse, resmungando mais algumas palavras que Sonia não conseguiu decifrar.

Leila puxou a camiseta sobre o nariz.

— Mitch — chamou em um quase grito. — Sua irmã precisa de ajuda. Acorda.

Intrigado com a voz desconhecida, Mitch virou e abriu os olhos. E os estreitou como se a luz

fosse insuportável.

— Quem é você?

— Leila. Agora escuta sua irmã.

Mitch coçou a barba, o fio branco preso ali caiu sobre o travesseiro e, provavelmente, grudaria

outra vez nos pelos faciais mais tarde.

— Tudo bem, estou ouvindo.

Dava para ouvir ele se coçando sob o lençol.

Sonia lutou contra o impulso de dizer como ele era nojento.

— Preciso de um favor. Vai soar meio estranho, mas você sabe que eu não pediria se não

estivesse desesperada.

— Fala logo.

— Preciso que você vá de carro até o Canadá.

— Sai fora daqui — ele respondeu, virando outra vez para a parede.

— Mitch, estou falando sério. É uma longa história, mas estou com as alianças de casamento

da Liz, e a cerimônia é hoje. Não tenho como chegar lá.

Mitch gemeu de novo.

— Enche o tanque, me dá cinquenta paus e pode usar meu carro.

— Você não entendeu. Não posso entrar no Canadá. Perdi meu passaporte. Preciso que você

vá até lá levar as alianças. Eu pago a gasolina.

— Quer que eu dirija até o Canadá?

— São só três horas. Mais três para voltar.

Mitch riu.

— Você andou roubando meu estoque? Não vou dirigir seis horas pra você. De jeito nenhum.

Sonia sentiu as lágrimas se formando.

— Por favor, Mitch. Só posso pedir pra você. Se não for, o casamento vai ser um fracasso.

— Ah, bom, isso não é problema meu, é?

— Vou bater nele — Leila falou, ainda com o rosto coberto pela camiseta.

No entanto, ela não fez menção de se aproximar da cama, e Sonia estava perturbada demais

para pensar em qualquer outra atitude a tomar. Estava acostumada com a apatia da família, mas

no fundo acreditava que, se realmente precisasse deles, todos deixariam o egoísmo de lado. Não

era nada agradável descobrir que estava errada.

Sem saber o que fazer, Sonia ficou parada onde estava. Queria que Leila batesse em Mitch de

verdade.

— Vai falar com o Stoner Timmy — Mitch resmungou.

— Quem?

— Stoner Timmy. Ele fica no Tim Hortons em Bellingham. Tem negócios no Canadá. Ele

não é o cara que mais segue a lei, por isso eu não ficaria surpreso se esse tal negócio tiver a ver

com contrabando ou alguma coisa assim. Talvez ele saiba como levar você para o outro lado.

Tudo bem, não era o maior favor, mas Sonia queria abraçar Mitch por pelo menos tentar ser

um pouco útil. Mas o cheiro a fez hesitar, e então ele gritou para ela e Leila saírem do quarto.

Sonia sabia que não tinha muita coisa, mas estava disposta a aceitar a menor centelha de

esperança. Qualquer possibilidade, por mais improvável que fosse, era uma chance de não

estragar o casamento. Elas passaram no quarto de Sonia para que ela pudesse vestir roupas

normais, depois desceram correndo a escada e atravessaram a sala de estar, arrancando algumas

reclamações dos pais por tamanha comoção matinal. No carro de Leila, elas seguiram para

Bellingham para encontrar Stoner Timmy.