Perdidos por aí
Capítulo 7
Elliot ficou quieto no trajeto até sua casa. Não queria falar sobre Maribel, não queria que Leila
sentisse pena dele, não queria ceder à pressão crescente das lágrimas. O céu no horizonte
começava a clarear em tons mais suaves de roxo, as nuvens que haviam estado ali a noite toda
começavam a se revelar.
Leila parou o carro. Não havia nada que Elliot desejasse mais do que arrancar o smoking sujo,
se enfiar na cama e rezar para dormir. No entanto, todas as luzes da casa estavam acesas, o que
significava que a mãe ficara acordada esperando por ele, sua imaginação fértil sem dúvida a
deixando mais preocupada que o necessário, especialmente por ele ter ignorado os telefonemas
dela a noite toda. Então, ele e Leila dobraram a esquina rumo a um pequeno playground no
parque. Eles sentaram em balanços vizinhos, olhando para as nuvens que se tingiam lentamente
de rosa e laranja. As correntes rangiam com o peso de Elliot.
Ele podia sentir o olhar de Leila.
— Por favor, não pergunte se estou bem.
— Eu não ia perguntar. Sei que não está.
Elliot apoiou a cabeça na corrente do balanço. Uma lágrima rolou do canto do olho, e ele a
secou depressa.
Foda-se Molly Ringwald e seus finais felizes. Foda-se Lloyd Dobler, que, se existisse na vida
real, provavelmente teria deitado no meio da rua e não teria esperado um dia de chuva para isso.
Eles eram as razões pelas quais o peito de Elliot parecia ter implodido. Por causa deles ele se
permitira amar Maribel por tanto tempo; por culpa deles se enganara, acreditara que um gesto
romântico podia convencer alguém a amá-lo quando esse alguém não o amava.
— A vida não é como naqueles filmes. Foi idiotice da minha parte pensar que podia ser. —
Ele chutou o chão e o barro grudou no bico de seu sapato. — Eu devia parar de ver esses filmes;
eles estão mexendo com minha cabeça.
Elliot enxugou os olhos outra vez, tentando secar as lágrimas. As correntes do balanço
rangeram com o movimento. Sempre se sentava com Maribel no parque, naqueles mesmos
balanços, matando o tempo de tardes vazias. Aquilo o fazia sentir como se eles vivessem em um
mundo feito só para eles dois.
Os primeiros raios de sol apareceram, claramente delineados através das nuvens como o
cenário de uma pintura. As nuvens eram douradas, o céu azul tingido de toques de laranja
brilhantes.
— Mas que droga, céu — Elliot falou. — Não é uma boa hora para parecer tão pitoresco.
Estou tentando argumentar que a vida é uma porcaria.
Leila riu ao lado dele. Ela estava se balançando suavemente, os pés dando impulso no chão
sem nunca se afastar dele. O vestido dançava discretamente com o movimento. Eles olharam para
o céu inapropriadamente majestoso.
— Você sabe o que acontece no filme depois disso, né?
Elliot suspirou, esperando que ela não tentasse manter viva sua esperança. Ele virou para olhar
para Leila, surpreso com a ideia de que só a conhecia havia algumas horas. Parecia muito mais do
que isso. Ela plantou os pés com firmeza no solo para fazer o balanço parar e o encarou. Elliot foi
pego de surpresa por aqueles olhos impressionantes, como se fosse a primeira vez que realmente
os via. Então ela se inclinou e o beijou.
Elliot levou um momento para registrar o que estava acontecendo. A boca de Leila estava
sobre a dele, suave, morna, revigorante. Os olhos dele permaneciam abertos, e ele seria capaz de
jurar que viu o mundo começar a se transformar. A luz em torno deles ficou dourada, suave,
como se filtrada por lentes. Elliot fechou os olhos, ouvindo em sua cabeça uma música que
poderia tranquilamente vir de todos os lugares ao mesmo tempo.
Ele estava errado; a vida podia ser como nos filmes. Ele a beijou de volta, o coração crescendo.
Então Leila se afastou, pousando uma mão espalmada sobre seu peito. O sol começava a
surgir no horizonte, laranja e ofuscante, fazendo os olhos dela brilhar.
— Não me leve a mal — ela falou. — Isso foi só para mostrar que pode acontecer com você
também. Que você pode ter um final feliz se encontrar a pessoa certa. — Ela tirou a mão do peito
dele, mas os olhos continuavam nos de Elliot. — Sei que você tinha a esperança de que essa
pessoa fosse a Maribel. Mas só porque as coisas aconteceram de outro jeito com ela, não significa
que você nunca vai conhecer um amor de cinema.
Inconscientemente, Elliot passou a língua sobre os lábios, o sabor e a sensação da boca de
Leila ainda presentes na dele.
— Vai acontecer com você — ela disse e virou para olhar o sol nascer. — Você é um cara
legal e está disposto a lutar por quem ama. Um dia alguém vai ver isso. E a garota vai te amar por
isso. Um dia, Elliot, você vai conquistar a garota. — Leila olhou para o chão e voltou a se balançar
até as correntes rangerem. — Só não foi hoje.
Elliot ficou totalmente sem saber o que dizer. Ele se juntou a Leila na contemplação do nascer
do sol e lentamente começou a se balançar. Aves cantavam as boas-vindas ao novo dia. Um
cardeal empoleirado em uma árvore próxima olhava na direção deles, assobiando uma canção em
código Morse, uma nota longa seguida de três curtas. De repente ele alçou voo, um rastro
vermelho desaparecendo em meio às árvores.
— Essa não vai ser a última vez que você vai se apaixonar — Leila continuou —, e provavelmente também não vai ser a última vez que acaba com o coração partido. Você não pode
sair andando no meio do trânsito cada vez que isso acontecer.
Surpreso, ele olhou para Leila.
— Eu só estava um pouco... — começou, mas ela o encarou de um jeito que o impediu de
improvisar uma desculpa.
— Você é um cara especial demais para fazer uma besteira como a que quase fez essa noite.
— Tudo bem — Elliot assentiu e olhou para os próprios pés.
— Quero que você me prometa que isso não vai acontecer nunca mais.
— Eu prometo — ele se apressou em dizer. Apertando os olhos contra o sol, ele estendeu a
mão para ela, o mindinho esticado.
Leila olhou para a mão dele, um pouco confusa.
— Nunca fez uma promessa de dedinho? — ele perguntou.
Ela balançou a cabeça.
— Estica o mindinho assim. — Quando Leila obedeceu, ele enroscou o dedo no dela. Cada
vez que fazia uma promessa de dedinho com Maribel, pensava no gesto como estar um quinto de
mãos dadas. — Promessas de dedinho são ainda mais sérias do que as comuns. Então estou
prometendo de dedinho que isso nunca mais vai acontecer.
Com os olhos estreitos por causa das mãos iluminadas pelo sol cada vez mais forte, Leila
falou:
— Ótimo. Eu sei que a gente acabou de se conhecer, mas, se eu descobrir que quebrou essa
promessa, venho atrás de você.
— Eu acredito. — Eles sacudiram o braço duas vezes como se trocassem um aperto de mão,
depois Elliot soltou o dedo de Leila. — De onde você saiu para não conhecer uma promessa de
dedinho?
Leila deu de ombros e balançou as pernas para frente para impulsionar o balanço.
— Wisconsin — disse.
Elliot se inclinou sobre a corrente, a observando. O vento agitou seu vestido e seus cabelos,
um sorriso esticou seus lábios. Ciente da própria exaustão, Elliot se deu conta de como a noite
podia ter acabado de maneira diferente se o carro de Leila não tivesse aparecido na sua frente.
Depois de alguns minutos, Leila parou de balançar.
— Acho que é hora de deixar você ir para a cama, certo? Você teve uma noite longa.
— Aff. Ainda tenho que enfrentar a minha mãe. — Elliot levantou do balanço. — Mas é
melhor resolver isso agora, enquanto ainda posso contar com um pouco de piedade por causa da
mão.
Leila sorriu para ele.
— Ela vai superar.
— Em três ou quatro anos, talvez. — Elliot ofereceu a mão boa para ajudá-la a levantar do
balanço e os dois começaram a andar em direção à casa dele. — Obrigado por ter me ajudado. Ou
tentado, pelo menos.
— Foi um prazer. Não se sinta mal por muito tempo. Você fez o melhor que podia.
— Obrigado.
Ela sorriu de novo. Era um sorriso tão cheio de afeto que Elliot sentiu inveja dos amigos dela,
quem quer que eles fossem.
— Não precisa agradecer. Só não esquece da promessa de dedinho.
— Não vou esquecer. — Bocejando, ele levantou os braços para se espreguiçar e sentiu as
costas estalarem. Eles tinham chegado e estavam atrás da árvore do jardim, para o caso de a mãe
estar espiando. — Você vai pegar a estrada agora?
Leila cruzou os braços, então escondeu a boca com a mão para bocejar.
— Sim. A aurora boreal me chama.
Elliot assentiu, como se entendesse por que ela estava indo, como se entendesse tudo sobre
ela.
— Tudo bem se a gente se abraçar? Parece que menos que isso não é suficiente para me
despedir.
Leila riu e deu um passo em sua direção, envolvendo-o com os braços sem nenhuma inibição.
Ela era uma grande abraçadora, firme e afetuosa. No fim, ela o afagou mais uma vez, o que lhe
pareceu um último gesto de incentivo de sua parte. “Você vai ficar bem”, o abraço dela parecia
dizer.
Quando se afastaram, Leila sorriu para ele outra vez, então ergueu a mão e acenou.
— Tchau, Elliot.
— Tchau — ele respondeu.
Leila virou para voltar para o carro, então ele atravessou o jardim a caminho da porta da
frente. Elliot forçou um suspiro, esperando que isso de alguma forma o ajudasse a se preparar
para enfrentar a mãe.
Foi quando ele viu o bilhete preso à porta. Uma folha de caderno dobrada ao meio. Seu nome
escrito na frente, a caligrafia imediatamente familiar. Elliot tirou o bilhete da porta e o leu.
Vou estar na loja de discos até as nove. Por favor, apareça. Preciso te ver de
novo. Com amor, Maribel
O coração de Elliot começou a bater, um sorriso já se formando em seus lábios antes mesmo
de ele ler a última linha no fim da folha.
Eu devia ter te beijado.
Elliot virou e viu Leila no carro, se preparando para partir. Ele correu até lá, o bilhete
apertado na mão. Sem dizer nada, passou o papel pela janela aberta.
Leila leu a mensagem e a devolveu para ele, sorrindo tanto quanto Elliot.
— Parece que seu filme ainda não acabou.
Ele releu a nota, deslizando o dedo pela dobra, pela tinta deixada pela caneta de Maribel.
Depois guardou o papel no bolso e olhou para Leila.
— Você pode me dar uma carona?