Perdidos por aí

Adi Alsaid · Capítulo 27 de 36

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Perdidos por aí

Capítulo 6

 

O cheiro de donuts era forte, doce a ponto de ser quase enjoativo. As pilhas de caixas eram altas,

parecendo uma fortaleza, e balançavam a cada movimento do caminhão.

— Sonia — Leila cochichou, usando o celular para iluminar a área e encontrar um lugar para

sentar.

— Oi.

— Verdade ou desafio.

— Você está falando sério?

— Tenho cara de quem faz piada sobre verdade ou desafio?

— Tudo bem, desafio.

— Desafio você a comer uma dúzia de donuts antes de atravessar a fronteira.

— Deixa de ser tonta. Vou acabar com diabetes.

— Tudo bem, um donut. Creme bávaro, se possível — disse Leila, sufocando uma risadinha.

Sonia gemeu baixinho e olhou para as caixas mais próximas.

— Não dá pra saber o sabor — disse, procurando uma caixa que conseguisse abrir sem

derrubar nada. Depois pegou o primeiro donut em que tocou e mordeu. — Eca, coco.

— Você não gosta de coco?

— Você gosta?

— Nossa amizade acaba aqui — anunciou Leila.

Apesar de todas as circunstâncias estranhas envolvidas na viagem de caminhão, Sonia sentia

como se ela e Leila fossem duas garotas em uma festa do pijama, acordadas até tarde e tentando

não rir alto demais e acabar acordando os adultos.

— É estranho achar isso meio divertido? — Leila cochichou.

Sonia balançou a cabeça.

— Eu estava pensando exatamente nisso. — Ela pegou o celular, a tela iluminando o interior

do caminhão com uma luz pálida, apenas o suficiente para enxergar o rosto da outra. — Talvez a

gente chegue a tempo. — E estendeu as pernas para frente. — Sua vez. Verdade ou desafio?

— Verdade — Leila respondeu depressa.

— Fala mais sobre aquele cara.

— Na verdade — Leila começou —, acho que esqueci tudo sobre ele. O Stoner Timmy é o

novo garoto dos meus sonhos.

Sonia bufou, tentando sufocar uma gargalhada.

— Tenho que admitir, não pensei que ele fosse capaz de fazer alguma coisa útil por mim.

— Mulher de pouca fé. Nunca subestime a utilidade de um desconhecido. Mesmo que ele

esteja no limite da loucura.

— Só no limite?

— Eu não disse de que lado do limite da loucura ele está — Leila sorriu.

Elas ficaram sentadas em silêncio por mais um tempo, sentindo o caminhão fazer barulho

pela rodovia, os pneus enormes girando sob elas. Sonia começou a relaxar. Ela apoiou a cabeça

nas caixas. Imaginou o caminhão seguindo a mesma rota todos os dias, que, mesmo que os

agentes americanos na fronteira o revistassem todas as manhãs, a viagem de volta provavelmente

era um pouco mais tranquila. Suas pálpebras estavam começando a fechar quando o telefone

tocou outra vez.

— Oi — ela cochichou. — Não posso falar agora.

— Escuta, estou ficando maluco aqui. Onde você passou a noite?

Sonia não sabia como resumir sua noite em uma conversa compreensível pelo telefone.

— Estou a caminho. Devo chegar aí em uma hora, talvez um pouco mais.

Esquecendo por um instante toda a história da raiva de Jeremiah, Sonia sentiu latejar a

antecipação de vê-lo outra vez, de beijá-lo.

— Você disse isso ontem à noite e ainda não chegou — ele respondeu.

— Eu prometo, estou a caminho.

Aquela pausa de novo, o silêncio no qual podia perfeitamente imaginar Jeremiah e o que ele

estava fazendo. Seminu, imaginava, de cueca e meias (talvez até uma só), pronto para entrar no

banho. Mesmo que estivesse errada, era prazeroso pensar que o conhecia bem o bastante para

adivinhar suas atitudes.

— Está tudo bem? — ele perguntou, por fim.

— Não se preocupe comigo, Jer — Sonia falou. Na penumbra, viu Leila virar a cabeça em

direção à boleia do caminhão. Sonia fechou a mão em torno do aparelho. — Estamos parando?

— Com certeza — Leila confirmou. — Acha que já estamos na fronteira?

— Pode ser. — Ela se despediu de Jeremiah, se sentindo otimista pela primeira vez em horas.

Alguns segundos depois, a transmissão chiou quando o motorista empurrou o câmbio para o

ponto neutro. Sonia levou um dedo aos lábios, em um pedido de silêncio. Através das paredes

metálicas, ela podia ouvir o ruído dos carros passando na rodovia, embora fosse difícil determinar

de que lado vinham os sons. Ela pensou ter ouvido uma porta bater, mas podia ter sido qualquer

coisa.

Então veio o ruído imediatamente familiar de chaves balançando. Sonia sentiu o sangue gelar.

De novo não, pensou. Se pegarem a gente de novo, acabou. Vou para a cadeia, estrago o casamento e

ninguém mais vai querer saber de mim.

A luz do dia entrou pela porta aberta de repente e Sonia ficou de pé em um pulo, embora não

houvesse para onde ir. Ela se espremeu no espaço entre as pilhas de caixas como se esperasse

sumir camuflada ao ambiente. Quem abriu a porta também fazia ruídos aflitos de esforço físico.

Por uma brecha entre as caixas, Sonia avistou o motorista subindo na carroceria.

— Saiam ou vou chamar a polícia.

Sonia olhou para Leila, que continuava sentada, os joelhos junto ao peito.

— O que vamos fazer? — Sonia balbuciou.

Leila deu de ombros, ou porque não entendeu a pergunta, ou porque não havia mais nada a

fazer.

— Estou pegando o celular — o motorista avisou.

— Tudo bem, tudo bem — Sonia respondeu, saindo com a mão erguida de trás das caixas,

em uma rendição instintiva. Ela se perguntou o que fizera para o universo se voltar contra ela

desse jeito. É claro que, assim que isso lhe ocorreu, se lembrou de Sam e sentiu que estava

recebendo o que merecia.

— O que vocês estão fazendo aqui? — perguntou o motorista, uma das mãos na cintura, a

outra com o dedo em riste para elas, em uma caricatura de adulto reprovador. — Roubando?

— Não estamos roubando — Sonia rebateu. — Só precisamos atravessar a fronteira.

— E acharam que isso ia dar certo?

Sonia deu de ombros, os olhos fixos na estrada atrás do motorista. Leila abriu a boca para

dizer alguma coisa, mas o motorista a interrompeu.

— Não tenho tempo para isso. Saiam do meu caminhão.

Ele deu um passo para o lado e esperou as duas saírem, depois, sem pressa, saiu também, se

encolhendo quando o pé encontrou o pavimento, sentindo as dores que provavelmente eram

consequência de uma vida inteira subindo e descendo de carrocerias.

— Talvez vocês tivessem conseguido se não falassem tanto. — Ele apontou para o celular na

mão de Sonia. Sem olhar de novo para as duas, o motorista fechou a porta, entrou na cabine e

partiu, deixando as garotas envoltas em uma nuvem de fumaça.

 

Sonia e Leila levaram meia hora para voltar ao Tim Hortons. Sonia não conseguia parar de

checar as horas no celular. Leila oferecia palavras de incentivo enquanto caminhavam pelo

acostamento, mas Sonia não achava mais que havia uma chance de entregar as alianças a tempo.

Que tipo de último recurso desesperado poderia haver, além de Stoner Timmy?

O sol parecia avançar pelo céu a uma velocidade muito maior que o normal, passando por

entre nuvens cinzentas que provavelmente trariam um temporal à tarde. Carros passavam em alta

velocidade, como se debochassem de Sonia.

De volta a Bellingham, Sonia entrou no Tim Hortons e parou diante da mesa de Stoner

Timmy.

— A resposta não estava nos donuts.

Ele continuava sentado à mesma mesa, fumando outro cigarro, desenhando no dorso da mão

com uma caneta, embora houvesse um caderno em seu colo. Ele olhou para Sonia como se ela

nunca tivesse saído dali.

— Que pena, cara.

Quando abriu a boca para responder, Sonia sentiu a mão de Leila em seu ombro.

— Precisamos de outro jeito para atravessar — Leila disse calmamente. — O caminhão de

entregas não deu certo.

Stoner Timmy franziu o cenho e espetou a caneta no ninho de dreadlocks na parte de trás da

cabeça.

— Sua jornada não precisava de um caminhão de entregas.

Se Leila não tivesse continuado lhe oferecendo um afago consolador no ombro, Sonia teria

explodido. Em vez disso, ela sentou novamente na cadeira de plástico e deixou Leila comandar a

conversa.

— Evidentemente, nossa jornada precisava de um caminhão de entregas — Leila protestou.

— Caso contrário, não teríamos entrado nele. Não poderíamos ter contrariado nosso destino,

não é?

Stoner Timmy deu uma longa tragada no cigarro.

— Continue.

— E se nosso destino era fracassar primeiro, para depois encontrar você novamente e deixá-lo

mostrar o caminho? Se não era exatamente isso que tinha que acontecer, por que está

acontecendo agora? — Ela pareceu séria dessa vez.

Batendo a cinza do cigarro em um dos copos, Stoner Timmy sorriu.

— Cheia de Coragem, tem certeza de que não é um Senhor do Tempo?

Sem nenhuma hesitação, Leila respondeu:

— Talvez um dia eu seja.

Stoner Timmy bateu a mão aberta sobre a mesa, fazendo os copos pularem e atraindo os

olhares de outros clientes do restaurante pela primeira vez.

— Muito bem! Eu mesmo vou levar vocês. Isso vai exigir uma dúzia de donuts de creme

bávaro e um carro!

— Muito bem! — Leila exclamou, batendo na mesa como ele fizera e se levantando em

seguida para ir comprar os donuts. Quando voltou com a caixa, os três saíram juntos do Tim

Hortons. Stoner Timmy deixou todos os copos de café sobre a mesa, e Sonia teve a nítida

impressão de que, quando ele voltasse, os copos ainda estariam lá.

— Eu dirijo? — Leila perguntou quando se aproximaram do carro dela.

— Não — Stoner Timmy respondeu, tirando as chaves da mão dela com um floreio

desnecessário. — Na verdade, preciso que as duas entrem no porta-malas.

— Você está de brincadeira. — Sonia tentou calcular o espaço do porta-malas.

— Tenho cara de quem brinca?

— Melhor não responder — Sonia resmungou mais para si mesma.

Stoner Timmy abriu o porta-malas e as convidou a entrar com um gesto entusiasmado

demais para o gosto de Sonia. Mas, àquela altura, estava disposta a abrir mão do comportamento

racional, se isso servisse para levá-la para onde precisava ir.

Felizmente, Leila não havia desistido por completo, e fez Stoner Timmy prometer que a

travessia da fronteira seria segura.

— Você precisa saber — ela acrescentou, um pé dentro do porta-malas. — Tentei atravessar

ontem à noite, e eles podem ter marcado este carro como suspeito.

Stoner Timmy pôs a mão no porta-malas aberto.

— Cheia de Coragem, a resposta está nos donuts.

Com isso, as duas entraram, se encolheram bem próximas uma da outra, os pés de uma junto

da cabeça da outra, os joelhos dobrados para evitar chutes dolorosos.

— Leila! — Sonia chamou na escuridão sinistra. — Você disse que viveu muitas aventuras

nessa sua viagem. Alguma coisa parecida com isto?

Leila riu, uma risada doce que, estranhamente, fez Sonia desejar que fossem amigas, não só

conhecidas unidas por circunstâncias bizarras.

— Em todas as minhas viagens, essa é a primeira vez que pego carona em um porta-malas. Já

vi e fiz muita coisa. Amassos quentes em uma ilha, cadeia, vômito... mas nunca tinha sido

contrabandeada em uma fronteira internacional por um homem que se considera um cruzamento

de O Cara com o Gandalf. Portanto, obrigada por isso.

— Não tem de quê.

Sonia fechou os olhos e ficou quieta, evitando delatar sua presença outra vez.

Desde a morte de Sam, ela não conseguia lidar com a total escuridão. Era como se o ar

adquirisse textura, como a terra acumulada dentro de um caixão. Precisava do brilho pálido de

uma tela, ou do som de uma música para preencher o ar que a envolvia. Mesmo com Jeremiah

dormindo a seu lado, deixava o computador exibindo programas de TV à noite toda, uma espécie

de canção de ninar para impedi-la de pensar em onde estava Sam, no nada que ele experimentava.

Ela podia gritar um pedido de desculpas para ele, como lamentava ter encontrado alguém para

amar, alguém que não era ele. Podia gritar as palavras por um megafone, escrevê-las em um livro

para o resto do mundo ler, e nem assim Sam as ouviria.

Sonia limpou as lágrimas que lhe escorriam pelo nariz. O carro reduziu a velocidade, e logo

soaram vozes abafadas. Sonia prendeu a respiração e Leila a imitou. O momento parecia eterno,

como naquela fração de segundo em que um balanço atinge seu ponto mais alto antes de descer

de volta. Em seguida, passos soaram, e, antes que acontecesse, Sonia pôde ver a sequência de

eventos, outro obstáculo desanimador em seu esforço para não arruinar o casamento de Liz.

A fechadura do porta-malas estalou e, cercados por uma enxurrada de luz, Stoner Timmy e

um agente da alfândega canadense olharam para dentro do compartimento, os dois com a expressão inalterada, neutra. Ninguém disse nada e, por um segundo, Sonia quase riu ao imaginar

o ponto de vista do agente: duas garotas encolhidas em um porta-malas, tentando passar

despercebidas pela fronteira, um maluco dirigindo com uma dúzia de donuts. Mas o agente

fechou o porta-malas e os sons se repetiram na sequência contrária: o estalo da fechadura, passos,

vozes abafadas, a partida do motor.

Dez minutos mais tarde, o carro parou de novo e o porta-malas foi aberto. O rosto de Stoner

Timmy era o único do lado de fora. Ele estendeu a mão para ajudá-las a sair de lá.

— Bem-vindas ao Canadá, senhoritas.

Estavam parados em um posto de gasolina onde os preços eram relacionados por litro, não

por galão. Ao lado, havia outro Tim Hortons, uma loja quase idêntica àquela em Bellingham.

— Caramba! Como é que isso deu certo?

Stoner Timmy mostrou as mãos vazias.

— Como eu disse, a resposta estava nos donuts. Não se surpreendam com a eficiência de um

suborno. Especialmente quando o Tim Hortons está envolvido.

— Foi só isso? Você subornou o cara com donuts?

— Confesso que a minha presença ajudou. Meus negócios contam com alguns acionistas. O

agente McGee pode ou não ser um deles.

Enquanto prendia o cabelo embaraçado em um rabo de cavalo, Leila olhou para Timmy com

curiosidade.

— Se o suborno foi a única coisa, não podíamos ter atravessado dentro do carro?

Stoner Timmy sorriu, tirando o maço de cigarros do bolso frontal do moletom.

— Verdade seja dita, Cheia de Coragem, a parte do porta-malas podia ter sido evitada. Só

achei que seria divertido.

Leila riu e deu um soco brincalhão no ombro de Timmy. Sonia tirou o celular quase sem

bateria do bolso.

— Puta merda. Leila, se sairmos agora, conseguimos chegar um pouco antes do início da

cerimônia. — E olhou para Timmy. — Precisa de carona para algum lugar?

Timmy acendeu o cigarro, a fumaça o cercando quase como se fosse parte dele. Ele virou o

rosto para o Tim Hortons ao lado do posto de gasolina, numa postura que parecia querer

mostrar ao mundo que ele tinha pensamentos profundos.

— Não. Eu vou ficar bem aqui mesmo.

— Tem certeza? — Sonia insistiu. Leila já havia dado um abraço rápido em Timmy e estava

se apressando até o assento do motorista do carro.

— Vá — ele respondeu, mantendo a pose. — Você tem uma jornada a cumprir.