A Vida Intelectual: Seu espírito, suas condições, seus métodos

Capítulo II – As virtudes de um intelectual cristão

Capítulo II

As Virtudes de um Intelectual Cristão- As Virtudes de um Intelectual Cristão

I. AS VIRTUDES COMUNS

Eu poderia dizer: a virtude contém a intelectualidade em potencial, pois, conduzindo-nos a nosso fim, que é intelectual, a virtude equivale ao supremo saber.

Daí se tirariam muitas coisas; daí se poderia até mesmo tirar tudo, pois a essa primazia da ordem moral está ligada a dependência relativa do verdadeiro, do belo, da harmonia, da unidade e do próprio ser no tocante à moralidade que fica assim aparentada com o primeiro princípio.

Mas eu prefiro seguir por uma estrada mais modesta.

As qualidades do caráter assumem em relação a todas as coisas um papel preponderante. O intelecto não é mais que uma ferramenta e a manipulação determinará seus efeitos. Para reger adequadamente a inteligência, não fica evidente que qualidades bem diferentes da própria inteligência são exigidas? Instintivamente todo espírito reto declara que a superioridade em qualquer setor inclui uma dose de superioridade espiritual. Para julgar de modo verdadeiro, é preciso ser grande.

Não haveria qualquer coisa de chocante em ver-se uma grande descoberta ser o feito de um patife? A candura de um homem simples ficaria com isso bastante magoada. Fica-se escandalizado com uma desunião que ofende a harmonia humana. Não se acreditam nesses joalheiros que vendem pérolas, mas não as usam. Viver bem junto da fonte sublime sem nada tomar emprestado de sua natureza moral, isso dá a impressão de ser um paradoxo. Usufruir do poder da inteligência e transformá-lo numa força isolada, numa “protuberância”, é fácil desconfiar que se trata aí de um jogo perigoso, porque toda força isolada, em meio a um todo equilibrado, torna-se sua vítima.

Se o caráter chegar a perecer, é de se esperar, como decorrência, que o sentido das grandes verdades venha a sofrer consequências. O espírito, não estando mais sob controle, não encontrando mais seu nível, enveredará por declives escorregadios, e sabe-se que um pequeno erro inicial chega grande ao final. A força lógica poderá jogar mais para baixo aquele cuja alma deixou o discernimento sem proteções. Daí tantas quedas estrondosas, e tantos equívocos às vezes geniais, por parte de mestres desorientados.

A vida é uma unidade: seria muito surpreendente que se pudesse trabalhar numa de suas funções, em pleno desenvolvimento, em detrimento de outra, e que viver as ideias não nos ajudasse a percebê-las.

A que se deve essa unidade da vida? Ao amor. “Dize-me o que tu amas, eu te direi o que tu és.” O amor é em nós o começo de tudo, e esse ponto de partida comum do conhecimento e da prática não pode deixar de tornar solidários, em certa medida, os retos caminhos de um e da outra.

A verdade vem aos que a amam, aos que se submetem a ela, e esse amor não ocorre sem virtude. Assim sendo, a despeito de suas possíveis taras, o gênio que está trabalhando já é virtuoso. Para completar sua santidade bastaria que ele fosse mais plenamente ele próprio.

O verdadeiro cresce na mesma terra que o bem; suas raízes se tocam. Se arrancados dessa raiz comum e por isso menos ligados à sua terra, um ou o outro padecem, a alma fica anêmica ou o espírito debilitado. Pelo contrário, ao alimentar o verdadeiro ilumina-se a consciência; ao fomentar o bem, guia-se o saber.

Praticando-se a verdade que já se sabe, passa-se a merecer aquela que se ignora. Passa-se a merecê-la na visão de Deus e também por meio de um mérito que já é um autocoroamento; uma vez que todas as verdades estão interligadas, e a homenagem prestada ao fato sendo a mais decisiva de todas, quando nós a prestamos à verdade da vida, nós nos aproximamos das luzes soberanas e do que delas depende. Basta eu embarcar no afluente e chegarei ao rio, e daí ao mar.

Examinemos mais de perto essa doutrina tão importante, de tamanha importância, aliás, que só para relembrá-la teria sido oportuno produzir este livrinho.

A virtude não é a saúde da alma? E quem ousará dizer que a saúde não interfere em nada na visão? Perguntem ao oculista. Um clínico inteligente não se limita a medir a curvatura do cristalino e a escolher armações de óculos, a receitar colírios ou lavagens oculares; ele se preocupa com seu estado geral, com sua dentição, com seu ritmo de vida, com suas vísceras. Não se surpreendam se esse médico especializado num único órgão já se ponha a interrogá-los sobre sua virtude.

A visão espiritual não é menos exigente.

Será que acreditam que pensamos apenas com a inteligência? Não passamos de um feixe de capacidades onde se toma para isso aqui ou para aquilo lá o instrumento apropriado? Nós pensamos “com toda a nossa alma”, declarava Platão. Iremos dentro em pouco bem mais longe e diremos: com todo o nosso ser. O conhecimento diz respeito a tudo em nós, desde a ideia vital até a composição química da mínima célula. As desordens mentais de toda e qualquer natureza, os estados delirantes, as alucinações, as astenias e as hiperstenias, as desadaptações à realidade, sejam de que espécie forem, são provas concretas de que não é o espírito sozinho que pensa, e sim o homem.

Como farão para pensar adequadamente com uma alma doente, com um coração triturado pelos vícios, dilacerado pelas paixões, desorientado por amores violentos ou culpados? Há um estado de lucidez e um estado de cegueira da alma, dizia Gratry, um estado são e, consequentemente, sensato, e um estado insensato. “O exercício das virtudes morais”, nos diz por sua vez Santo Tomás de Aquino, “virtudes pelas quais são refreadas as paixões,

importa sobremaneira à aquisição da ciência”.[3]

Mas isso é evidente! Reflitam comigo. De que depende antes de tudo o esforço da ciência? Da atenção, que define o campo da pesquisa, nos concentra nele e faz com que todas as nossas forças aí encontrem respaldo; em seguida, do julgamento que colhe o fruto da investigação. Ora, as paixões e os vícios relaxam a atenção, a dispersam, a desviam e prejudicam o julgamento por meio de rodeios cujos contornos foram atentamente perscrutados por Aristóteles e muitos outros depois dele.

Todos os psicólogos contemporâneos concordam a esse respeito e a evidência não deixa margem à menor dúvida. A “psicologia dos sentimentos” rege a prática, mas igualmente, em grande parte, o pensamento. A ciência depende de nossas tendências passionais e morais. Apaziguar-nos é isolar em nós o sentido do universal; retificar-nos é isolar o sentido do verdadeiro.

Vamos prosseguir nossa reflexão. Quais são os inimigos do saber? Obviamente a ininteligência: tanto que o que estamos dizendo dos vícios, das virtudes e de seu papel na ciência pressupõe sujeitos em pé de igualdade no restante. Mas, além da estupidez, que inimigos os senhores receiam? Não pensaram na preguiça, onde ficam soterrados os melhores entre os dons? Na sensualidade, que enfraquece e entorpece o corpo, embaça a imaginação, estupidifica a inteligência, dispersa a memória? No orgulho, que ora ofusca, ora entenebrece, que acata tão plenamente nossos próprios pontos de vista que podemos perder de vista o universal? Na inveja, que renega obstinadamente a luz aqui ao lado? Na irritação, que repele as críticas e se finca no erro?

Além desses obstáculos, o estudioso se elevará em maior ou menor grau em função de seus recursos e de seu meio; mas ele alcançará o nível de sua própria genialidade, de seu próprio destino.

Todas as taras mencionadas estimulam-se mais ou menos, por sinal, mutuamente; elas se entrecortam, se ramificam e todas estão para o amor do bem ou seu desprezo o que os filetes de água entrecruzados estão para a nascente. A pureza do pensamento exige a pureza da alma: eis uma verdade geral que nada poderá abalar. Que o neófito da ciência se deixe dela imbuir.

Prossigamos mais para cima e, já que falamos de nascentes, não vamos esquecer a primeira delas. A metafísica mais segura de todas nos ensina que, em seus graus culminantes, a verdade e o bem não só estão interligados como são idênticos.

Deve-se assinalar, para ser exato, que o bem de que se fala assim não é o bem moral propriamente dito. Para ir diretamente ao ponto, trata-se tão somente do que é desejável, mas uma guinada basta para ir-se de um ao outro.

O bem moral é apenas o desejável medido pela razão e proposto à vontade como um fim. Os fins são interdependentes. Todos eles dependem do último deles. É este último que alcança o verdadeiro e se identifica com ele. Associem essas proposições e verão que o bem moral, se não é idêntico à verdade de qualquer maneira, dela depende contudo através dos fins do querer. Há, pois, entre os dois, uma ligação frouxa ou então mais ou menos firme, porém indestrutível.

Não é de forma alguma pelo que há em nós de individual que acedemos à verdade: é em virtude de uma participação no universal. Esse universal, que é ao mesmo tempo vero e bom, nós não podemos honrar como verdadeiro, unir-nos a ele intimamente, descobrir seus rastros e submeter-nos poderosamente a seu domínio sem reconhecê-lo e servi-lo como sendo igualmente o bem.

Escalem a Grande Pirâmide por esses degraus gigantes que representam tão exatamente a ascensão para a verdade: se subirem pela aresta norte, conseguirão chegar ao topo sem se aproximar da aresta sul? Manter-se à distância do vértice é permanecer nos níveis baixos; distanciar-se dele é ir enviesado e tornar a descer. Assim o gênio da verdade tende por si mesmo a ir ao encontro do bem: se ele se afastar, será em detrimento de seu impulso rumo aos cumes.

Bem-aventurados os corações puros, disse o Senhor, porque eles verão a Deus. “Abraça a pureza de consciência”, diz Santo Tomás a seu estudante; “não cesses de imitar o comportamento dos santos e dos homens de bem”. A obediência da alma à fonte inefável e suas inclinações filiais e amorosas a deixam aberta à investida das luzes bem como à do fervor e da retidão. Amada e realizada enquanto vida, a verdade se revela enquanto princípio; vê-se conforme o que se é; participa-se da verdade participando do Espírito segundo o qual ela existe. As grandes intuições pessoais, as iluminações penetrantes provêm, em igualdade de valor, do aperfeiçoamento moral, do desapego de si e das banalidades habituais, da humildade, da simplicidade, da disciplina dos sentidos e da imaginação, da entrega à busca dos grandes fins.

Já não se trata aqui de demonstrar sua habilidade, de fazer brilhar suas aptidões como uma joia rara. O que se quer é entrar em comunicação com a origem da luz e da vida; aborda-se esse foco central em sua unidade, tal qual ele é; fica-se em adoração a ele, e renuncia-se ao que se mostra seu inimigo para que sua glória nos inunde. Não será isso tudo que significa em parte a famosa expressão: “Os grandes pensamentos vêm do coração”?