A Vida Intelectual: Seu espírito, suas condições, seus métodos

III. Quatro espécies de leitura

Lembrem-se, aliás, que em parte um livro vale o que valem os senhores e o que os senhores o fazem valer. Leibniz usava tudo; Santo Tomás subtraiu aos heréticos e aos paganizantes de sua época um sem-número de pensamentos, e nenhum deles lhe causou sofrimento. Um homem inteligente encontra inteligência por toda parte, um tolo projeta em todos os muros a sombra de sua fronte estreita e inerte. Escolham o melhor que puderem, mas empenhem-se em que tudo seja bom, amplo, atento ao verdadeiro, prudente e progressivo, porque os senhores mesmos o terão sido.

 

III. QUATRO ESPÉCIES DE LEITURA

Para ser um pouco mais preciso, eu distingo quatro espécies de leitura. Lê-se para ter uma formação e ser alguém; lê-se em vista de uma tarefa; lê-se como treinamento para o trabalho e para o bem; lê-se por ser uma distração. Há leituras fundamentais, leituras ocasionais, leituras de treinamento ou edificantes, leituras relaxantes.

Todas essas formas de leitura têm algum proveito a tirar de nossas observações; cada qual apresenta também exigências particulares. As leituras de fundo requerem docilidade, as leituras que aproveitam as oportunidades exigem bom domínio mental, as leituras de formação ou treino pedem empenho, as leituras para distrair-se dependem da liberdade.

Quando estamos nos formando e devemos adquirir quase que tudo, não é hora para termos iniciativa. Quer se trate de uma primeira formação, quer de uma cultura geral ou ainda que se esteja abordando uma nova disciplina, um problema até então deixado de lado, deve-se acreditar nos autores consultados para esse fim muito mais do que criticá-los, e acompanhá-los em sua própria caminhada mais do que utilizá-los segundo os interesses do leitor. Passar para a ação cedo demais prejudica a aquisição; é sensato submeter-se num primeiro momento. “É preciso acreditar em seu mestre”, diz Santo Tomás, retomando Aristóteles. Ele próprio acreditou e se saiu bem.

Não se trata de modo algum de se entregar às cegas; um espírito nobre não se acorrenta; mas como a arte de comandar só se aprende na obediência, também assim o domínio do pensamento só se obtém pela disciplina. Uma atitude de respeito, de confiança, de fé provisória, enquanto não se tiver em mãos todas as normas para proceder ao julgamento, é uma necessidade tão evidente que só os pedantes e os presunçosos se furtam a ela.

Ninguém é infalível, mas o aluno o é ainda bem menos que o mestre e, se ele recusar a submissão, para cada vez que ele estiver com a razão, outras vinte a verdade lhe escapará, pois ele terá sido vítima das aparências. Pelo contrário, a confiança e uma passividade relativa, por conferir ao mestre algo daquilo que é devido à verdade, são proveitosas para esta última e no final permitem que se usem até mesmo as falhas e até mesmo as ilusões do doutor. Só se sabe o que falta num homem suputando sua riqueza.

Anteriormente, é de se esperar a sensatez elementar de escolher com extremo cuidado os mentores em quem teremos de confiar. A escolha de um pai intelectual é sempre coisa séria. Aconselhamos Santo Tomás para as doutrinas superiores; não se pode trancar-se nelas; porém três ou quatro autores que se conhecerá a fundo para a cultura geral, mais três ou quatro para a especialidade e por volta da mesma quantidade para cada problema que se apresentar, é o que basta. Recorrer-se-á a outras fontes para informar-se, não para formar-se, e a atitude de espírito não será mais a mesma.

Ela chegará até a ser o inverso sob certos aspectos, pois aquele que se informa, que quer utilizar, não se encontra mais num estado de pura receptividade; ele já tem uma opinião própria, um plano; a obra consultada se torna sua serviçal. Uma dose de submissão continua sendo exigida, mas ela então diz respeito ao verdadeiro mais do que ao escritor, e se por ventura estiver dirigida a este último, ela põe nele uma fé que pode poupar as conclusões a que ele chegar, mesmo não seguindo ao encalço dele durante a caminhada.

Essas questões de atitude têm muita importância, porque consultar com o comportamento que se tem para estudar é perda de tempo, e estudar num estado de espírito de consulta é tomar a si mesmo por mestre exclusivo e perder o benefício de uma formação que lhes era oferecida por um iniciador.

Aquele que lê com vistas a um trabalho está com o espírito dominado pelo que ele tenciona fazer; ele não mergulha na correnteza, ele enche seu cantil; ele fica na margem, conserva sua liberdade de movimentos, reforça a cada empréstimo tomado a outros sua própria ideia em vez de afogá-la nas ideias alheias, e sai de sua leitura enriquecido, não espoliado, o que ocorreria se a fascinação da leitura prejudicasse a determinação de fazê-la em razão de sua serventia.

Quanto às leituras para treinamento, a escolha, além de nossas regras gerais, deve se basear na experiência de cada um. O que deu certo para os senhores uma vez provavelmente dará certo novamente. Uma influência pode se desgastar com o passar do tempo, porém de início ela fica reforçada; o hábito a acentua; uma penetração mais atenta a aclimata em nós; a associação das ideias e dos sentimentos liga a determinada página estados de ânimo que ressurgem com ela.

Ter assim nos momentos de depressão intelectual ou espiritual seus autores prediletos, suas páginas estimulantes, tê-los à mão, sempre prontos para inocular-lhes uma nova seiva, é um recurso de imenso valor. Conheço pessoas a quem a peroração da Oração fúnebre ao Grande Condé deu novo impulso por anos a fio, toda vez que sua inspiração esmorecia. Outros, na parte espiritual, não resistem ao Mistério de Jesus de Pascal, a uma Oração de Santo Tomás, a tal ou tal capítulo da Imitação ou a esta ou aquela parábola. Que cada um se observe, registre os bons resultados, conserve perto de si seus remédios para as doenças da alma e não receie ter de recorrer sempre e sempre, até a exaustão, ao mesmo cordial ou ao mesmo antídoto.

No caso de ser a distração o objetivo, a importância da escolha parece bem menor. O que ela de fato é, relativamente. Mas não pensem que se distrair com isto ou aquilo é indiferente, quando a meta é retornar nas melhores condições possíveis ao que constitui sua razão de ser. Determinadas leituras não os relaxam suficientemente; outras os relaxam demais, em detrimento do recolhimento que deve seguir-se a elas; outras ainda podem desviá-los, no sentido etimológico do termo, isto é, empurrá-los para fora de seus caminhos.

Conheço alguém que descansava de um trabalho árduo com a História da Filosofia Grega, de Zeller: era uma distração, mas insuficiente. Outros leem histórias apimentadas ou fantásticas que os dispersam; outros mais se entregam a tentações que os desestimulam do trabalho e prejudicam-lhes a alma. Tudo isso é ruim. Se os livros são serviçais, como os objetos de uso corrente em nossas vidas, os que mais devem subordinar-se são os que desempenham funções meramente acessórias. Evitem sacrificar-se por seu leque.

Muitos pensadores encontraram regularmente alívio e prazer em narrativas de viagem e de explorações, na poesia, na crítica de arte, na leitura de comédias em casa, nas memórias. Cada um tem seus gostos e o gosto é neste caso o principal. Uma única coisa, segundo Santo Tomás, traz um repouso efetivo: a alegria; tentar distrair-se no tédio seria um logro.

Leiam o que lhes agrada, o que não os entusiasma demais, o que não lhes é prejudicial de nenhum modo, e, já que, mesmo distraindo-se, continuam sendo consagrados, tenham a inteligência de ler, em igualdade de utilidade para o descanso, o que virá a ser-lhes útil de alguma outra maneira, ajudando-os a se tornarem completos, a enriquecerem o espírito, a serem homens.