A Vida Intelectual: Seu espírito, suas condições, seus métodos

IV. Cultivar os relacionamentos necessários

Disse eu também que a solidão do pensador não implica a exclusão de seus deveres, nem o esquecimento de suas necessidades. Há relacionamentos necessários. Já que são necessários, fazem parte de sua vida, mesmo enquanto intelectuais, já que não apartamos o intelectual do homem. Cabe aos senhores ligá-los à intelectualidade de tal modo que não apenas eles não a entravem, mas também lhe prestem serviço.

Isso sempre é possível. O tempo dado ao dever ou à precisão real nunca é perdido; a preocupação que aí se investe é parte da vocação e só se tornaria um inimigo da vocação se considerássemos esta última abstratamente, fora do âmbito da providência.

“Não se deve acreditar”, escreve Maine de Biran em seu diário, “que o único e o melhor aproveitamento do tempo consiste num trabalho de espírito regular, constante e tranquilo. Todas as vezes que agimos bem, em conformidade com nossa situação atual determinada, estamos fazendo um bom uso da vida”.

Não se ponham a pensar que sua obra vale mais que os senhores mesmos, e até que um acréscimo de possibilidades intelectuais pode prevalecer sobre o acabamento de seu ser. O que se deve e o que é necessário, façam-no; se sua humanidade o exige, ela saberá se arranjar consigo mesma. O bem é irmão do verdadeiro: ele auxiliará seu irmão. Estar onde se deve estar, lá fazer o que se deve, é preparar a contemplação, alimentá-la, e abandonar Deus por Deus, como dizia São Bernardo.

É penoso sacrificar belas horas por relações e trâmites em si mesmos inferiores a nosso ideal; mas já que o transcurso desse mundo afinal de contas é feito para se aliar à virtude, é preciso pensar que a virtude acabará satisfeita, seja a virtude intelectual ou a virtude moral. Em certos dias, será unicamente através da moralidade que a intelectualidade considerará que a jornada foi ganha apesar de suas virtuosas concessões; em outras ocasiões, será por si própria.

Pois não se esqueçam de que nos convívios, mesmo corriqueiros, sempre encontrarão o que colher. Isolamento demais os empobreceria. Alguém escreveu recentemente: “A dificuldade dos romancistas em nossos dias me parece ser a seguinte: se eles não frequentam a sociedade, seus livros são ilegíveis, e se a frequentam, eles não têm mais tempo para escrevê-los”. Angústia da medida certa, que reaparece por toda parte! Mas sejam os senhores romancistas ou não, bem sentem que não podem fechar-se totalmente. Os próprios monges não o fazem. É preciso preservar, com vistas no trabalho, o sentimento da alma comum, da vida, e como poderiam tê-lo se, estando com a comunicação cortada com os humanos, não se ativessem mais senão a uma humanidade de sonhos?

O homem por demais isolado se torna tímido, abstraído, um tanto esquisito; ele cambaleia no real como um marinheiro recém-desembarcado; ele não tem mais o senso do destino; ele parece olhar para outrem como uma “proposição” a ser inserida num silogismo, ou como um caso a ser anotado na caderneta de apontamentos.

A riqueza infinita do real tem também muito a nos instruir; é preciso frequentá-la com espírito contemplativo, porém não desertá-la. E no real, o que há de mais importante para nós não é o homem, o homem centro de tudo, fim último de tudo, espelho de tudo e que convida o pensador de todas as especialidades a um confronto permanente?

Na medida em que se tiver opção, é preciso regrar-se de modo a estar tanto quanto possível nas imediações de pessoas superiores. A isso também a mulher do intelectual deve estar atenta. Que ela não abra a porta de sua casa às cegas; que seu tato seja tal qual um crivo; em vez da companhia das altas rodas, que ela estime a das almas elevadas; às pessoas que pretensamente têm muito espírito, que ela prefira pessoas de grande peso, instruídas e de juízo firme, sabendo-se que no mundo se passa tanto mais facilmente por espirituoso quanto mais radicalmente se deu cabo de sua inteligência. Acima de tudo, que ela não vá, por futilidade, por vaidade, por algum interesse sem maiores consequências, arrastar o marido para a casa de gente tola.

Mas o que estou dizendo? Os próprios tolos também nos são úteis e nos ajudam a completar nossa experiência. Não os procurem: deles já há o bastante! Mas aqueles que encontrarem, saibam tirar deles proveito, intelectualmente, numa espécie de contraprova, e humana e cristãmente, pelo exercício das virtudes de que eles são os clientes.

A sociedade é um livro a ser lido, apesar de ser um livro banal. A solidão é uma obra-prima; mas lembrem-se das palavras de Leibniz, que até do mais imprestável dos livros sempre conseguia tirar algum proveito. Os senhores não pensam sozinhos, tal como não pensam unicamente com a inteligência. Sua inteligência se associa a suas outras faculdades, sua alma a seu corpo, e sua pessoa a suas relações. É tudo isso seu ser pensante: componham-no o melhor que puderem; mas que as próprias taras que ele apresentar, tal como as doenças que tiver, tornem-se valores, por meio de algum louvável gesto de sua grandeza de alma.

No restante, em seus relacionamentos, comportem-se de tal maneira que sempre seu espírito e seu coração dominem sua situação: não serão assim nem invadidos nem contaminados, caso o meio seja medíocre, e, se for nobre, ele não fará senão reforçar no interior dos senhores os efeitos da solidão, sua ligação com a verdade e as lições que ela lhes prodigaliza.

Seria preciso que nossos contatos com o exterior fossem como os do anjo, que toca sem ser tocado a não ser que ele assim o queira, que dá e de quem não se toma nada, porque ele pertence a um outro mundo.

Pela moderação no que disserem, também conseguirão essa permanência do recolhimento e essa sabedoria nos intercâmbios das quais é tão urgente que estejam munidos. Falar para dizer o que deve ser dito, para expressar um sentimento oportuno ou uma ideia útil, depois disso calar-se, é o segredo para se resguardar sem deixar de se comunicar, em vez de permitir que a tocha se apague para depois acender outras.

É, de resto, igualmente o meio de dar peso à sua palavra. A palavra pesa quando se sente por baixo dela o silêncio, quando ela oculta e deixa adivinhar, por detrás das palavras, um tesouro que ela libera progressivamente como convém, sem precipitação e sem agitação gratuita. O silêncio é o conteúdo secreto das palavras que contam. O que faz o valor de uma alma é a riqueza do que ela não diz.