A Vida Intelectual: Seu espírito, suas condições, seus métodos

Capítulo V – O campo do trabalho

Capítulo V

O Campo do Trabalho- O Campo do Trabalho

I. A CIÊNCIA COMPARADA

Não se pode dar conselhos muito específicos sobre o que convém aprender, e menos ainda sobre a dosagem dos elementos incluídos num plano de trabalho. Santo Tomás não faz qualquer menção nesse sentido em seus Dezesseis Preceitos. Na verdade, é uma questão de vocação pessoal, que depende em linha direta do objetivo a ser alcançado. Entretanto, algumas indicações são viáveis, e fornecê-las pode ser um ponto de partida para reflexões proveitosas.

Não abordaremos o assunto desde sua origem; estamos falando entre pessoas que ultrapassaram a escolaridade básica e que têm o propósito de organizar ou completar estudos avançados. Nesse estágio, o assunto pede as observações tão interessantes do padre Gratry relativas à ciência comparada. Pode-se pensar que o tratamento desse tema nas Fontes já está superado, mas o fundo não se alterou e mereceria por parte dos jovens intelectuais sérias meditações.

Ciência comparada, dissemos, e com isso entendemos o alargamento das especialidades pela aproximação de todas as disciplinas conexas, e em seguida a ligação dessas especialidades e de seu conjunto à filosofia geral e à teologia.

Não é sensato, não é profícuo, mesmo que se tenha de seguir uma especialidade muito bem delimitada, fechar-se nela logo de saída. Seria o mesmo que colocar antolhos. Nenhuma ciência basta a si mesma; nenhuma disciplina por si só constitui-se em luz suficiente para seu próprio percurso. No isolamento, ela se encolhe, se seca, se debilita e, na primeira oportunidade, se extravia.

Uma cultura parcial é sempre indigente e precária. Sem pausas, o espírito se ressente; não sei que liberdade de movimentos, que determinação no olhar lhe fazem falta e paralisam seus gestos. Um “fruto seco” é aquele que nada sabe, mas é também aquele que se diminuiu e ressecou por ter prematuramente tornado sua terra exclusiva a uma só cultura.

Pode-se garantir sem paradoxo que cada ciência explorada ao máximo daria as demais ciências, as ciências dariam a poesia, a poesia e as ciências dariam a moral, depois a política e a própria religião, no que há nela de humano. Tudo está em tudo, e uma compartimentação só é possível por abstração. Abstrair não é mentir, diz o provérbio: Abstrahere non est mentiri; mas com a condição de que a abstração que distingue, que isola metodicamente, que concentra sua luz num dado ponto, não vá separar do que ela estuda o que lhe está mais ou menos diretamente relacionado. Cortar as comunicações de seu objeto é falseá-lo, pois suas conexões fazem parte dele.

É possível estudar uma peça de relojoaria sem levar em consideração a peça vizinha? É possível estudar um órgão sem se importar com o corpo? Não é tampouco possível progredir em física ou química sem a matemática, em astronomia sem a mecânica e sem a geologia, em moral sem a psicologia, em psicologia sem as ciências naturais, em nada sem a história. Tudo está interligado. As luzes se cruzam, e um tratado inteligente em cada uma das ciências faz referência em maior ou menor grau a todas as demais.

Assim, se quiserem garantir para si um espírito aberto, preciso, realmente forte, previnam-se, antes de tudo, contra a especialidade. Estabeleçam suas bases de acordo com a altura até onde querem subir; ampliem o orifício da escavação segundo a profundidade que ela deve alcançar. Entendam, inclusive, que o saber não é nem uma torre, nem um poço, mas uma morada de homem. Um especialista, se não for um homem, não passará de um burocrata; sua esplêndida ignorância fará dele um transviado entre os humanos; ele será desajustado, anormal e doido. O intelectual católico não se pautará nesse modelo. Pertencendo ao gênero humano por sua vocação, seu primeiro querer é nele tomar parte; ele calcará o chão com o pé seguro, por ter uma base de sustentação, e não saltitando nas pontas dos pés.

Nosso saber tentou sondar a noite em todas as direções; nossos cientistas nela mergulham a mão para pegar estrelas; esse nobre esforço não deixa na indiferença nenhum autêntico pensador. Acompanhar até um certo ponto as explorações de cada pesquisador é para os senhores uma obrigação que no final resulta numa capacidade dez vezes mais proveitosa para suas próprias pesquisas. Quando chegarem ao especial, por terem assim vivenciado muita cultura, ampliado sua visão, adquirido o senso das ligações por meio das profundezas, serão um homem diferente do que o que se confina numa estreita disciplina.

Toda ciência, cultivada em separado, não só não se basta a si mesma, mas apresenta perigos que todos os homens sensatos reconheceram. A matemática tomada isoladamente deturpa o raciocínio, habituando-o a um rigor que nenhuma outra ciência, e menos ainda a vida real, comporta. A física e a química obcecam por sua complexidade e não conferem ao espírito nada de amplo. A fisiologia leva ao materialismo, a astronomia à divagação, a geologia os transforma num cão de caça farejador, a literatura os esvazia, a filosofia os estufa, a teologia os abandona ao falso sublime e ao orgulho doutoral. É preciso passar de um espírito ao outro a fim de corrigi-los um pelo outro; é preciso alternar as culturas para não arruinar o solo.

E não pensem que levar até um certo ponto esse estudo comparado seja sobrecarregá-los e atrasá-los no estudo de uma especialidade. Não estarão sobrecarregados, pois as luzes descobertas na comparação os aliviarão, pelo contrário, em tudo; assumindo maior amplitude, seu espírito estará mais capacitado a receber sem arcar com qualquer sobrepeso.

Quando se acessa o centro das ideias, tudo fica mais fácil, e qual o melhor meio de ter acesso ao centro senão testando diferentes vias que dão, todas, como os raios de um círculo, a sensação de um encontro num cruzamento comum?

Conheço um linguista que em quinze dias consegue deslindar uma língua nova. Por quê? – porque ele domina muitas outras. Num relance ele capta o espírito de seu novo idioma, seus caracteres fundamentais, sua constituição completa. As ciências são as diversas línguas nas quais a natureza inefável é penosamente balbuciada pelos homens; decifrar várias delas é favorecer cada uma, pois no fundo elas são apenas um.

Além do mais, o instinto potente e o entusiasmo despertados, em todo homem efetivamente capaz, por essa maneira de viajar através das ciências, de explorar esses magníficos domínios como se visita sucessivamente os fiordes da Noruega, o Corno de Ouro, os hipogeus do Egito, os pampas da América e os palácios chineses, esse ardor de certa forma épico de que é tomada uma inteligência enérgica, ao entrar em contato com as grandezas do espírito, transmite ao estudo uma vitalidade e facilidades extraordinárias.

Um rabino que era acusado de sobrecarregar a lei respondia: Quando um recipiente está preenchido com nozes, pode-se ainda deitar nele muitas medidas de azeite; aí está uma pessoa cheia de zelo que, pela aptidão espiritual, corresponde ao calor que dilata os corpos. Um cálice sob o sol tem uma capacidade maior do que à sombra. Um espírito enlevado ante o espetáculo do verdadeiro, e graças a ele vicejante como um arco-íris, torna-se capaz de absorver sem fadiga, com alegria, conhecimentos que deixariam triste o sectário de uma só ciência.

Os maiores dentre os grandes homens sempre deram mostras de uma maior ou menor tendência para a universalidade. Atingindo a excelência em determinada área, eles se constituíram nas demais pelo menos em curiosos, com frequência em cientistas, quando não em especialistas também. Ninguém conseguiria confinar numa só cultura homens tais como Aristóteles, Bacon, Leonardo da Vinci, Leibnitz ou Goethe. Henri Poincaré, na Academia das Ciências, surpreendia os colegas de todas as seções por suas percepções geniais; consultá-lo era colocar-se de pronto no centro do saber, onde não há mais ciências diversificadas.

Os senhores não têm tamanha pretensão? Que seja! Mas para cada qual, proporcionalmente, que o que os grandes praticaram permaneça um parâmetro frutífero. Tracem para si um plano extenso, que pouco a pouco se reduzirá em função do tempo dedicado a cada estudo secundário, jamais em função da amplidão do enfoque e do espírito do trabalho.

Escolham bem seus conselheiros. Um só por quem se optou entre mil para o conjunto, e outros, cada qual para uma parte, caso necessário. Distribuam o tempo; organizem a sucessão dos estudos: isso não pode se dar ao acaso.

Em cada coisa, vão direto ao essencial; não se demorem em minúcias: não é às minúcias que as ciências devem sua consistência; é com frequência pelo detalhe, sim, mas o detalhe característico, isto é, novamente, o fundo.

Aliás, os senhores não poderão orientar-se nisso tudo antes de passar pelo que ainda resta a dizer.

Assim como nenhuma ciência particular basta a si mesma, assim também o conjunto das ciências não basta a si mesmo sem a rainha das ciências: a

filosofia,[18] nem o conjunto dos conhecimentos humanos sem a sabedoria proveniente da própria ciência divina: a teologia.

O padre Gratry expressou a esse respeito verdades capitais, e Santo Tomás, muito mais profundamente ainda, demarcou o lugar, a ordem dessas

duas rainhas de um duplo reino.[19] As ciências, sem a filosofia, se descoroam e se desorientam. As ciências e a filosofia, sem a teologia, se descoroam bem mais ainda, já que a coroa que elas repudiam é uma coroa celeste, e elas se desorientam mais irremediavelmente, pois a terra sem o céu não encontra mais nem a trajetória de sua giração, nem as influências que a tornam fecunda.

Hoje que a filosofia está esmorecendo, as ciências se rebaixam e se dispersam; hoje que a teologia está sendo ignorada, a filosofia é estéril, ela não tem voz ativa em nada, ela faz críticas sem usar a bússola e, igualmente sem bússola, história; ela é sectária e destrutiva com frequência, ela se mostra compreensiva e acolhedora por vezes, nunca ela é tranquilizadora, verdadeiramente esclarecedora; ela não ensina. E para seus mestres que têm a dupla infelicidade de ignorar e de ignorar que eles ignoram, a teologia é uma coisa do outro mundo.

Sim, certamente, do outro mundo, é o que a teologia efetivamente é quanto a seu objeto; mas o outro mundo sustenta este aqui, continua-o em todas as direções, para trás, para a frente, para lá em cima, e não é de se espantar que ele ilumine.

Se o intelectual católico pertence a seu tempo, ele não pode fazer nada que seja melhor do que trabalhar e cumprir sua parte para nos restituir a ordem que está fazendo-nos falta. A maior necessidade desta nossa época no tocante à doutrina não é uma dose de saber, é a harmonia do saber, harmonia que não se obtém senão com um apelo aos princípios primeiros.

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A ordem do espírito deve corresponder à ordem das coisas e, já que o espírito não se instrui verdadeiramente a não ser pela busca das causalidades, a ordem do espírito deve corresponder à ordem das causas. Logo, se há um Ser primeiro e uma Causa primeira, é aí que se finda e se ilumina em sua derradeira etapa o saber. Enquanto filósofo primeiramente, por meio da razão; enquanto teólogo em seguida, fazendo uso da luz vinda das alturas, o homem da verdade deve centrar sua pesquisa no que é ponto de partida, regra e fim a título absoluto, no que é tudo para tudo, como para todos.

A ordem vem apenas, independentemente do tipo de objetos ou de disciplinas, no momento em que os princípios, hierarquicamente ordenados até o princípio primeiro, assumem seu papel de princípios, de cabeças, como no exército, como numa casa bem ordenada, como junto a um povo. Hoje, os princípios primeiros, nós os repudiamos, e o saber debandou. Não temos mais que lascas, trapos brilhantes de vidrilhos e nenhum traje correto, capítulos brilhantes e nenhum livro terminado, nenhuma Bíblia.

As Bíblias do saber outrora foram as Sumas: não dispomos mais de Sumas, e nenhum de nós está capacitado para escrever uma. Tudo está caótico. Mas, na pior das hipóteses, se uma Suma coletiva ainda é prematura, pelo menos cada homem que pensa e deseja verdadeiramente saber pode tentar estabelecer sua Suma pessoal, isto é, introduzir a ordem em seus conhecimentos por um chamado aos princípios dessa ordem, quer dizer, filosofando, e coroando sua filosofia com uma teologia sumária, conquanto profunda.

Os estudiosos cristãos, desde o início até o fim do século XVII, foram todos teólogos, e os estudiosos, cristãos ou não, até o século XIX, foram todos filósofos. Desde então, o saber se rebaixou; ele ganhou em superfície o que perdeu em altura, logo também em profundidade, pois a terceira dimensão tem dois sentidos que se correspondem. Que o católico consciente dessa aberração e de suas consequências possa não sucumbir-lhes; tendo-se tornado intelectual ou desejoso de sê-lo, que ele almeje a intelectualidade por completo; que ele tente abranger todas as suas dimensões.

A teologia, dizia o padre Gratry, veio inserir na árvore da ciência um enxerto divino, graças ao qual essa árvore pode dar frutos que não são os seus. Nada se subtrai de sua seiva, dá-se a ela, pelo contrário, uma circulação gloriosa. Em razão desse novo impulso conferido ao saber, desse apelo aos dados humanos para uma colaboração com o celestial, todos os conhecimentos são revigorados e todas as disciplinas alargadas. A unidade da fé dá ao trabalho intelectual o caráter de uma cooperação imensa. É a obra coletiva dos humanos unidos em Deus. E é por isso que a ciência cristã, tal como é e bem mais ainda quando tiver sido escrita a Suma dos tempos modernos, não pode senão superar em amplidão e em inspiração todos os monumentos da Antiguidade e do neopaganismo. As Enciclopédias não estão mais próximas disso do que Babel de nossas catedrais.

Estando em busca da verdade, não se deveria poder ignorar tamanho tesouro. Espero que a próxima geração, posta no caminho pela atual que tão notoriamente superou a anterior, aborde de frente e sem respeito humano a ciência das ciências, o cântico dos cânticos do saber, a teologia inspiradora e única finalmente concludente. Ela encontrará ao mesmo tempo a maturidade e a aspiração, o lirismo potente e calmo que constitui a vida completa do espírito.

Não é tão difícil quanto se pensa penetrar na teologia, e não é um estudo muito longo, no grau em que se trata de obtê-lo. Adotá-lo como especialidade já seria algo bem diferente. Dediquem-lhe quatro horas semanais pelos cinco ou seis anos que se supõe ser a duração de uma formação, será mais do que suficiente; bastará, depois, fazer com que isso se conserve vivo.

Mas, acima de tudo, não confiem em falsos mestres. Abordem já de início Santo Tomás de Aquino. Estudem a Suma, não sem antes informarem-se do modo mais acurado possível sobre o conteúdo da fé. Tenham à mão o Catecismo do Concílio de Trento, que por si só já é uma

condensação primorosa da teologia.[21] Dominem plenamente o conteúdo desse manual e prossigam com Santo Tomás, um dia de cada vez, o desenvolvimento racional da ciência divina. O texto lhes parecerá primeiro seco, abscôndito; em seguida, progressivamente, luzes proeminentes brilharão; uma vez vencidas as primeiras dificuldades, haverá a recompensa de novas vitórias; os senhores aprenderão a língua do país e, ao cabo de algum tempo, lá circularão como se estivessem em casa, com a sensação de que esse em casa é uma morada sublime.

Estudem, bem entendido, em latim! As traduções da Suma cometem com frequência traições; e sempre deixam a desejar. Aquele que desistiria em função do pequeno esforço de chegar a fazer uso com desembaraço de uma língua que um espírito normal domina ao fim de dois meses não mereceria

que nos preocupássemos com sua formação.[22] Estamos falando com os fervorosos: que estes, desejosos de penetrar no “celeiro de vinhos”, se deem ao trabalho de procurar a chave.

Alguma obra introdutória que lhes desse uma visão geral preparatória e lhes servisse de degustação prévia do conteúdo de Santo Tomás seria útil. Não se demorem nela; mas aceitem essa mão estendida que os impulsionará

para o início da jornada.[23]

Por outro lado, um orientador que tivesse a mente aberta e boa informação seria no começo de uma imensa ajuda; eu ia dizer uma ajuda imprescindível. Ele os iniciaria progressivamente no vocabulário específico do tomismo, os pouparia de hesitações e mal-entendidos, esclareceria um texto por outro texto, apontar-lhes-ia trilhas e protegeria sua caminhada dos passos em falso. Entretanto, ciente como estou do quão prejudiciais podem ser os amigos inabilidosos, do esfriamento e da espécie de escandalização que podem ocasionar certos comentários impensados, digo-lhes: procurem preferivelmente a solidão a um auxílio obtuso. Tentem quebrar a noz; ela vai ferir-lhes as mãos, mas ela acabará cedendo, e o próprio Santo Tomás assumirá a instrução de seu discípulo.

Para esse fim, consultem cuidadosamente, a propósito de cada artigo, os diferentes trechos aos quais as edições os remetem; consultem o Index Tertius, esse tesouro imperfeito, mas tesouro assim mesmo; comparem; façam com que os documentos se completem uns aos outros, se comentem entre si, e passem à redação de seu próprio artigo. Ginástica excelente, que proporcionará a seu espírito flexibilidade, energia, exatidão, horror ao sofisma e às imprecisões, abrangência e, ao mesmo tempo, acumulação progressiva de noções claras, profundas, bem concatenadas, sempre em conexão com seus princípios primeiros e constituindo, por sua interação, uma síntese consistente.