A Vida Intelectual: Seu espírito, suas condições, seus métodos

V. Manter a dose necessária de ação

O que dizíamos sobre os relacionamentos se aplica à ação com bem poucos retoques. Trata-se sempre de dosar a vida interior e a exterior, o silêncio e o barulho.

A vocação intelectual, tomada em sentido estrito, é o contrário da ação. A vida contemplativa e a vida ativa sempre foram opostas já que originárias de pensamentos e aspirações contrárias. A contemplação recolhe, a ação despende; uma chama a luz, a outra ambiciona o dom.

Para falar de um modo geral, é evidentemente necessário resignar-se à partilha das tarefas, dando-se, cada qual, por satisfeito em elogiar aquilo que não se faz, em amar em outrem os frutos daí resultantes e em desfrutá-los graças à comunhão das almas. Mas a vida real não dá margem a uma divisão tão rigorosa.

O dever pode forçar à ação como há pouco à sociedade, e ele deverá beneficiar-se com nossas observações. A ação regulada pela consciência prepara esta mesma consciência para as regras da verdade, a predispõe ao recolhimento quando for chegada a hora, a une à Providência que é também fonte de verdade. O pensamento e a ação têm o mesmo Pai.

Em seguida, mesmo sem obrigação, sempre é indispensável ao pensador reservar uma parte de seu tempo e de seu coração à vida ativa. Essa parte às vezes é bem reduzida; no sábio ela nunca é nula. O monge se dedica a trabalhos manuais ou a obras de zelo; o grande médico tem sua clínica, seu hospital; o artista tem suas exposições, seu meio, suas turnês ou suas conferências; o escritor é solicitado de tantas formas que não se comprometer com nenhum projeto exigiria muito esforço.

Tudo isso está muito bem. Afinal, nesse mundo cada coisa tem sua medida certa, a vida interior tem de ter a sua. Ela quer que a ação fique limitada e abra espaço para a solidão, porque a ação externa agita a alma, que o silêncio apazigua; porém o silêncio levado longe demais provoca, por sua vez, agitação; o refluxo do homem todo para a cabeça causa desorientação e vertigem; uma diversão é indispensável à vida cerebral; é-nos imprescindível o calmante da ação.

Há razões fisiológicas para tanto nas quais não vou entrar; as razões psicológicas têm aí seu ponto de apoio e até sua origem, porque a alma sendo distinta do corpo não conheceria o cansaço. Contudo o composto animado se cansa do repouso tanto quanto do dispêndio; ele requer um equilíbrio cujo centro de gravidade pode, aliás, se deslocar e variar de um para outro. O corpo que se imobiliza demais se atrofia e se enerva; a alma que o imita se enfraquece e se corrói. De tanto cultivar o silêncio, se chegaria ao silêncio da morte.

Por outro lado, a vida intelectual necessita do alimento dos fatos. Encontram-se fatos nos livros; mas todo mundo sabe que uma ciência puramente livresca é frágil; ela padece do defeito do abstrato; ela perde o contato e em decorrência oferece ao raciocínio uma matéria excessivamente quintessenciada, quase que ilusória. “Tu és um balão cativo”, dizia de si para si Amiel, “não deixes que se desgaste o barbante que te liga à terra”.

Santo Tomás dedica um artigo da Suma para provar a necessidade de apoiar-se ao real para julgar porque, diz ele, o real é o fim último do julgamento; ora, o fim, ao longo de todo o caminho, deve projetar sua luz.

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As ideias estão nos fatos, elas não vivem por si próprias, como acreditou Platão: esse ponto de vista metafísico tem consequências práticas. Na qualidade de homem de pensamento, é preciso manter-se nas proximidades do que é, do contrário o espírito vacila. O sonho seria outra coisa do que um pensamento cuja comunicação com o exterior está cortada, um pensamento que não quer mais? O sonho inconsistente é um recife no oceano do pensamento puro; é preciso evitá-lo como uma causa para a impotência e a queda. O pensamento se apoia nos fatos como o pé sobre o solo, como o enfermo em suas muletas.

A dose de ação recomendada ao pensador terá, pois, essa vantagem de estabilizar-lhe o espírito. Ela terá igualmente a de enriquecê-lo. Quantas experiências a vida nos propõe a cada dia! Nós as deixamos passar, mas um pensador profundo as recolhe e com elas compõe seu tesouro; seus quadros espirituais serão pouco a pouco preenchidos com elas, e suas ideias gerais, por um lado controladas, serão além disso ilustradas por uma documentação viva.

A ideia, em nós, quando privada de seus elementos tirados da experiência, de seus fantasmas, não é senão um conceito vazio, que nem se percebe mais. Na medida em que os fantasmas são ricos, o pensamento é amplo e forte. Ora, a ação encontra por toda parte em seu percurso elementos assimiláveis e “episódios de vida” que serão a representação de suas ideias abstratas. Ela encontra inclusive mais do que consegue contar, pois o real é uma espécie de infinito que nenhuma análise, nenhum cômputo racional chega a esgotar.

Coloquem um artista diante de uma árvore, ele fará dela esboços indefinidamente, sem que jamais tenha sequer pensado em reproduzir inteiramente o que a natureza exprime; coloquem-no diante de um esboço de árvore, ou até mesmo diante da árvore de um Claude Lorrain ou de um Corot, quando ele o tiver conscienciosamente reproduzido, ele terá esgotado o modelo.

O individual é inefável, diziam os antigos filósofos. O individual é o real, por oposição aos temas do espírito. Ao mergulhar no real pela ação, encontram-se nessa matéria novas formas, como o artista, ao executar, alimenta sua concepção, a retifica e a perfaz.

Finalmente, esse instrutor que é a ação é ao mesmo tempo um professor de energia cujas aulas não serão inúteis a um solitário. Por suas propostas e por suas resistências, por suas dificuldades, seus reveses, seus sucessos, pelo tédio e a lassidão que ela obriga a vencer, pelas contradições que ela não deixa de suscitar e pelas novas necessidades que ela desperta, ela nos estimula e revigora nossas forças; ela sacode essa preguiça fundamental e essa orgulhosa quietude que não são menos hostis ao pensamento do que às realizações.

As virtudes de fora virão assim em socorro das de dentro; a investigação ativa será proveitosa para o recolhimento; a colheita do néctar terá preparado o mel. O pensamento, alternadamente mergulhado nos dois abismos – o do real e o do ideal –, fortalecido por uma vontade experimentada, instruído e prevenido pelas razões do coração que a ação coloca incessantemente em questão, será uma ferramenta de pesquisa outra e um árbitro da verdade outro que uma razão empoleirada na árvore de porfírio.

Eu gostaria de ver nosso homem de estudo engajado a todo instante em alguma atividade pouco dispendiosa, à qual ele dedicaria um tempo bem delimitado, sem concessões a qualquer arrebatamento, conquanto interessando-se, e de todo o coração, por resultados que para ele não devem ser como a lenha que certos indivíduos vão cortar para esvaziar a cabeça. Agir sem se entregar por inteiro à ação não é agir como homem, e nem o descanso do homem, nem sua instrução, nem sua formação podem disso resultar. Portanto, se os senhores já não contam com algumas, dessas que simplesmente se impõem, procurem causas que os apaixonem porque elas são de grande valia, obras de luz, de construção, de preservação, de progresso, ligas pelo bem público, associações de defesa e de ação social, empreendimentos todos que querem seu homem, se não quanto à vida dele em seu todo, pelo menos quanto a seu ser completo. A isso entreguem-se nas horas em que a inspiração lhes concede ou até lhes impõe uma pausa bem-vinda também para ela mesma. Depois do quê estarão prontos para retornar a ela, e o céu onde ela os introduz lhes será tanto mais aprazível que terão experimentado, junto com seus tesouros, os perigos, os lodaçais e as asperidades da terra.