A Vida Intelectual: Seu espírito, suas condições, seus métodos

II. Como classificar suas anotações

As notas uma vez tomadas, e supondo-se que sejam consideradas aptas a ter alguma utilidade mais tarde, é preciso classificá-las. No setor da indústria, organização é dinheiro, e quanto dinheiro! Na ciência, é pensamento. É inútil anotar se não puderem encontrar em tempo hábil o que não passaria, nesse caso, de um tesouro enterrado. Conservar o rastro de suas leituras e reflexões, levantar documentos, está muito bem; mas com a condição de se ficar com isso capacitado a folhear quando se quiser o autor predileto e também a folhear-se a si mesmo.

É aconselhável precaver-se contra a obsessão típica do colecionador que muitas vezes contamina os que se dedicam a fazer anotações. Eles querem lotar seu caderno ou seu fichário; eles ficam ansiosos por preencher os vazios e empilham textos como quem atulha seu álbum de selos ou de cartões-postais. Tal prática é deplorável; cai-se simplesmente na infantilidade; não se está longe de virar um maníaco. A ordem é uma necessidade; mas é ela que deve por-se a nosso serviço, e não nós ao dela. Obstinar-se em acumular, em completar, é distrair-se da produção e até da aprendizagem; a preocupação excessiva com a classificação é tomada à que deveria estar voltada para a utilização. Ora, tudo aqui deve se subordinar ao bem do trabalho.

Como classificar suas notas? Os homens famosos adotaram diferentes sistemas. O melhor, no fim das contas, é o que se experimentou, se confrontou com suas necessidades e seus hábitos intelectuais, e se consagrou por uma longa prática.

O sistema do registro onde se escreve ou se cola em sequência as anotações coletadas é muito falho, por não permitir nenhuma classificação, mesmo com a ajuda de espaços que se pula deixando-os em branco, já que não se pode pré-determinar seu tamanho. Registros diferentes para cada assunto corrigem um pouco esse inconveniente, mas também não permitem uma classificação precisa, além de se prestarem mal a um uso rápido durante o ato de escrever.

Pode-se ter pastas de cartolina com o título da categoria a que pertencem os apontamentos nelas contidos. Um conjunto de pastas semelhantes, correspondendo a um título mais geral, poderá ser guardado num vão da estante, e em cada uma dessas divisões constará, do lado de fora, se não o próprio título, que eventualmente se preferirá não expor tão abertamente, pelo menos um número de ordem referente a um índice que o trabalhador manterá sempre à mão.

Mas, de longe, o método mais prático, ao que parece, para a maioria dos trabalhos, é o método das fichas. Tenham fichas de papel grosso o bastante, de tamanho padronizado que os senhores escolherão de acordo com o comprimento médio de suas anotações. Nada impede que continuem numa segunda ficha o levantamento iniciado na primeira. Suas fichas serão cortadas com precisão à máquina, trabalho que qualquer encadernador ou impressor realizará em cinco minutos e que estabelecimentos especializados lhes poupam, colocando a seu dispor fichas de tamanhos variados, de várias cores, juntamente com os fichários e demais acessórios necessários.

De fato, se sua coleção de anotações tem de ser volumosa, serão necessárias caixas, um móvel para arquivar com gaveteiros de dimensões apropriadas. São também necessárias fichas com entalhes, marcações ou perfuradas para numerar ou assinalar visivelmente as categorias, no canto ou no meio de cada ficha.