A Vida Intelectual: Seu espírito, suas condições, seus métodos
III. Como utilizar suas anotações
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
Estando aceito esse ponto de partida, eis como se deve proceder.
Quando tomarem nota de algo durante uma leitura, refletindo acerca de um trabalho, na cama etc., tomem-na numa ficha ou, se não dispuserem de uma ao alcance da mão, numa papeleta, usando apenas a frente para poder colá-la mais tarde. Estando escrita a ficha, classifiquem-na, a menos que decidam adiar essa etapa, conforme o conselho dado há pouco.
Classificar pressupõe que tenham adotado um método cuidadosamente escolhido em função das imposições de seu trabalho. Não se pode dar aqui senão indicações muito gerais. Cada um deve elaborar, se for o caso, seu catálogo de temas, com divisões e subdivisões, acerca dos quais ele já possui ou pensa ter de conseguir anotações. Um sistema muito engenhoso, chamado de sistema decimal, é aplicável a todos os tipos de pesquisas; fica
exposto com clareza numa brochura interessante que recomendo.[35]
Querendo-se evitar complicações, que são efetivamente um inconveniente muito sério, que se recorra a seu lado prático pessoal. É imprescindível ser realista nessa questão e não bancar o esperto estabelecendo divisões a priori, que de nada serviriam.
De acordo com o catálogo, se houver catálogo, cada divisão ou subdivisão estando provida de uma letra ou de uma numeração, os senhores podem arquivar suas fichas. Por estarem arrumadas, será muito fácil encontrá-las na hora do trabalho.
III. COMO UTILIZAR SUAS ANOTAÇÕES
Ei-los prestes a fazer uso da documentação. Estão de posse da coleta recente, das notas tomadas precisamente para a obra atual; possuem também em reserva, ainda não extraídas dos arquivos, as anotações antigas que estão mais ou menos diretamente relacionadas à obra. Reúnam tudo consultando, se for o caso, o catálogo e as indicações que ele lhes fornece. Em seguida, segundo o que foi exposto acima, dois caminhos se abrem diante dos senhores.
Se possuírem um plano pormenorizado e se foi pautando-se nele que estabeleceram ou procuraram seus apontamentos, numerem os itens sucessivos desse plano; numerem paralelamente (a lápis e de leve se as notas devem ser reutilizadas no futuro) as fichas a eles relacionadas; reagrupem o que tiver o mesmo número, formando montinhos e inserindo-os num prendedor; classifiquem esses apanhados, e só lhes resta começar a redigir espalhando a sua frente, sucessivamente, o conteúdo de cada apanhado.
Se, pelo contrário, prepararam sua obra sem plano pré-definido, partindo de algumas linhas gerais, é chegada a hora de estabelecer o plano; devem extraí-lo da própria documentação. Para tanto, eis como podem proceder. Os senhores têm em mãos todas as suas fichas misturadas; tomem-nas uma depois da outra e inscrevam numa folha, em sequência, o conteúdo de cada uma, fazendo uso de sentenças tão breves quanto possível. Uma vez esgotado o estoque, terão diante de si as ideias de que dispõem. Percorram-nas dando-se conta de suas relações e dependências; isolem mentalmente as ideias mestras; inscrevam sob cada uma tudo o que lhe disser respeito; apoiem-se para fazer isso numa numeração assinalada na margem, que se pode corrigir tantas vezes quanto necessário. Pouco a pouco a clareza aparecerá e uma ordem se estabelecerá em meio a essa massa confusa de elementos.
Feito isso, recopiem suas sentenças seguindo a ordenação obtida, os números agora seguindo-se corretamente. Há vazios em seu plano, preencham-nos: farão, caso se torne necessário, pesquisas adicionais a respeito deles; numerem com o número que corresponde a cada tema as fichas a ele relacionadas; classifiquem e retenham com um clipe os apanhados como há pouco, e sua redação está preparada.
Capítulo VIII
O Trabalho Criador- O Trabalho Criador
I. ESCREVER
Assim, senhores, é chegada a hora de realizarem. Não se pode ficar sempre só aprendendo e sempre só preparando. Além do quê, aprender e preparar não se dão sem uma certa dose de realização que os favorece. Só se encontra seu caminho ao tomá-lo. Toda vida anda em círculo. Um órgão que se ativa cresce e se fortalece; um órgão fortalecido se ativa de modo mais potente. É preciso escrever ao longo de toda a vida intelectual.
Escreve-se primeiramente para si, para enxergar claramente sua situação, determinar melhor seus pensamentos, manter e reavivar a atenção que logo esmorece se a ação não se impuser a ela, para desencadear as pesquisas cuja necessidade é suscitada durante a produção, para animar o esforço que se cansaria se não constatasse nunca algum resultado visível, finalmente para modelar seu estilo e adquirir esse valor que complementa todos os demais: a arte do escritor.
Por se escrever, deve-se publicar, tão logo juízes fidedignos os acharem capacitados para isso e os senhores mesmos sentirem-se aptos ao voo. O pássaro bem sabe quando ele pode enfrentar o espaço; sua mãe o sabe com maior segurança: apoiados em si próprios e numa sábia maternidade espiritual, voem, assim que puderem. O contato com o público os obrigará a aprimorarem seu trabalho; os elogios merecidos os encorajarão; as críticas exercerão o devido controle; o progresso lhes será por assim dizer imposto, em lugar da estagnação que poderia resultar de um silêncio perpétuo. A paternidade intelectual é uma semeadura de bens. Toda obra é um manancial.
O padre Gratry insiste muito na eficácia da escrita. Ele gostaria que se meditasse sempre segurando a pena na mão e que a hora pura da manhã fosse dedicada a esse contato do espírito consigo mesmo. Deve-se levar em conta as disposições pessoais; mas é certo que na maioria das pessoas, a pena que corre desempenha o papel do treinador nos jogos esportivos.
Falar é ouvir sua alma e nela a verdade; falar solitária e silenciosamente por meio da escrita é ouvir-se e sentir o verdadeiro com o frescor de sensação de um homem matinal que ausculta a natureza ao alvorecer.
É preciso, em tudo, começar. “O começo é mais que a metade do todo”, disse Aristóteles. Nunca se produzindo nada, adquire-se o hábito da passividade; o medo causado pelo orgulho ou a timidez aumentam cada vez mais; recua-se, esgota-se de tanto esperar, cai-se na improdutividade como um broto que está amarrado.
A arte de escrever, como eu disse, exige essa longa e prematura dedicação que paulatinamente se torna um hábito mental e constitui o que se chama de estilo. Meu “estilo”, minha “pena”, é o instrumento espiritual que eu emprego para me dizer e dizer a outrem o que eu entendo da verdade eterna. Esse instrumento é uma qualidade de meu ser, uma dobra interior, uma disposição do cérebro animado, quer dizer que sou eu evoluído de determinada maneira. “O estilo é o homem.”
O estilo se forma, pois, em cada um junto com o escritor; a mudez é um apequenamento da pessoa. Se quiserem ser plenamente, do ponto de vista intelectual, é preciso saber pensar em voz alta, pensar explicitamente, isto é, formular seu verbo para o interior e para o exterior.
Talvez seja esta a ocasião apropriada de dizer em algumas palavras o que deve ser um estilo que responda aos fins sugeridos aqui ao intelectual.
Que pena! Seria melhor não escrever nada, para ter a ousadia de dizer como se escreve. A humildade não é difícil quando, diante de Pascal, La Fontaine, Bossuet, Montaigne, já se esteve dominado por um grande estilo ou já se experimentou sua vastidão cheia de paz. Pelo menos pode-se confessar o ideal que se almeja e que não se alcança; declará-lo é ao mesmo tempo acusar-se e honrar-se nele, que nos julga.
As qualidades do estilo podem ser explicadas em tantos artigos quantos se quiser. Tudo pode se traduzir, acredito eu, nestas três palavras: verdade, individualidade, simplicidade, a menos que se prefira resumir-se nessa única expressão: escrever com verdade.
Um estilo é verdadeiro quando responde a uma necessidade do pensamento e quando permanece em contato íntimo com as coisas.
O discurso é um ato de vida: ele não deve representar uma ruptura na vida, e é o que ocorre quando caímos no artificial, no convencional – o sr. Bergson diria o que “já está dado”. Escrever de um lado, viver por outro lado sua vida espontânea e sincera, é ofender o verbo e a harmoniosa unidade humana.
O “discurso de circunstância” é o tipo da coisa que se diz porque é-se obrigado a dizê-la, que é pensada apenas literariamente e onde se despende esta eloquência de que zomba a verdadeira eloquência. Tanto que o discurso de circunstância não passa muitas vezes de um discurso de ocasião. Ele pode vir a ser genial, e Demóstenes ou Bossuet o comprovam; mas só o será se a circunstância tirar do nosso âmago o que brotaria por si, o que está ligado a nosso modo de ver costumeiro, a nossas meditações de sempre.
A virtude da palavra, falada ou escrita, é uma abnegação e uma retidão: abnegação que tira a pessoa do caminho quando se tratar de uma troca entre a verdade que fala para o interior e a alma que escuta; retidão que expõe ingenuamente o que se revelou na inspiração e não acrescenta qualquer verborragia.
“Olha no teu coração e escreve”, diz Sidney. Quem escrever assim, sem orgulho nem artifícios, como que para si, fala na realidade para a humanidade, se ele possuir o talento que faz com que uma palavra verídica vá longe. A humanidade se reconhecerá, pois foi ela quem inspirou o discurso. A vida reconhece a vida. Se entrego ao próximo tão somente papel branco manchado de preto, ele o olhará talvez com certa curiosidade mas em seguida o deixará cair no chão; se sou uma árvore ofertando sua folhagem e seus frutos cheios de seiva, se me entrego com plenitude, eu convencerei e, como Péricles, deixarei o dardo alojado nas almas.
Obedecendo às leis do pensamento, só me resta mostrar que permaneço perto das coisas, ou melhor, no íntimo das coisas. Pensar é conceber o que é; escrever com verdade, isto é, em conformidade com o pensamento, é revelar o que é, não enfiar frases. Por isso, o segredo para escrever é colocar-se ante as coisas com fervor, até que elas lhes falem e determinem elas próprias o que deve expressá-las.
O discurso tem de corresponder à verdade da vida. Aquele que ouve é um homem; aquele que discorre não deve ser uma sombra. O ouvinte lhe traz uma alma a ser curada ou aclarada: não lhe sirvam palavras. Enquanto desfiarem seus períodos, deve-se poder olhar para fora, olhar para dentro, e sentir que há uma correspondência.
A verdade do estilo afasta o chavão. É o nome que se dá a uma verdade antiga, uma fórmula que caiu no uso corrente, um lote de expressões outrora novas que já não o são mais justamente por terem perdido o contato com a realidade de onde haviam nascido, por estarem flutuando nos ares, como ricos brocados agora em frangalhos em vez de um jato de vida, uma transcrição direta e imediata da ideia.
Como observa Paul Valéry, é o automatismo que desgasta as línguas. Está-se vivo, diz ele, quando se usa a sintaxe sempre “com plena consciência”, quando se cuida para articular com vigilância todos os elementos, quando se evitam certos efeitos que surgem por si e que se acham no direito de ganhar posição de destaque. Tal pretensão é exatamente a razão que deve levar à eliminação desses parasitas, desses intrusos, desses encrenqueiros.
O grande estilo consiste na descoberta das ligações essenciais entre os elementos do pensamento, e numa arte de expressá-las à exclusão de todo e qualquer balbuciar acessório. “Escrever como se deposita o orvalho sobre a folha e as estalactites sobre as paredes da gruta, como a carne decorre do
sangue e como a fibra lenhosa da árvore se forma a partir da seiva”:[36] seria o ideal!
A parte orgulhosa e perturbadora da pessoa ficará ausente de tal discurso, afirmamos nós, mas a expressão com personalidade ficará com isso ainda mais acentuada e marcante. O que sai de mim sem mim se parece comigo em virtude de uma necessidade. Meu estilo é minha cara. Um rosto recebe da espécie seus caracteres gerais, mas ele sempre possui uma individualidade impressionante e incomunicável; ele é único sobre a terra e através de todos os séculos; daí provém, em parte, o interesse tão fascinante que desperta um retrato.
Ora, nosso espírito é certamente muito mais original ainda; mas nós o escondemos por trás das generalidades banais, das frases padronizadas, das combinações de palavras que representam apenas velhos hábitos, em vez de amor. Mostrá-lo tal como ele é, apoiando-se, mas sem nelas perder-se, nas aquisições que pertencem a todos, seria despertar um interesse infindável, e seria arte.
O estilo que convém a um pensamento é como o corpo que pertence a uma alma, como a planta que provém de determinada semente: ele tem sua arquitetura própria. Imitar equivale a alienar o pensamento; ter uma escritura sem caráter é declará-la indefinida ou infantil.
Nunca se deve escrever “à maneira de...”, mesmo que seja à maneira de si mesmo. Não se deve ter maneira alguma: a verdade não tem nenhuma; ela se coloca; ela é sempre nova. Mas o som emitido pela verdade não pode deixar de ser particular a cada um de seus instrumentos.
“Todos os homens verdadeiramente grandes foram originais”, escreve Jules Lachelier, “porém eles nem quiseram nem acreditaram sê-lo; pelo contrário, foi tentando transformar suas palavras e seus atos numa expressão adequada da razão que eles encontraram a forma específica pela qual eles estavam destinados a expressá-la”.
Todo instrumento tem um timbre. Se a maneira é uma afetação, a originalidade autêntica é uma verdade; ela reforça, em vez de enfraquecê-la, a impressão a produzir no leitor, que por sua vez absorverá segundo seu próprio padrão. O que se proscreve não é o sentimento pessoal por meio do qual tudo é renovado e glorificado, é a vontade própria em oposição ao reinado do verdadeiro.
Disso decorre a simplicidade. O floreio é uma ofensa ao pensamento, a menos que se constitua num truque para esconder seu vazio. Não há floreios no real; há apenas necessidades orgânicas. Não que não exista nada de brilhante na natureza; mas nela também o brilhantismo é orgânico, ele está fundamentado num direito de existência cujos alicerces jamais apresentam falhas.
Para a natureza, a flor é tão grave quanto o fruto, e a folhagem quanto o galho; tudo depende das raízes e não passa da manifestação do germe onde está escondida a ideia da espécie. Ora, o estilo, quando provém de uma mão operária, imita as criações naturais. Uma frase ou um trecho escrito devem estar constituídos como um ramo vivo, como filamentos de raiz, como uma árvore. Nada mais do que isso, nada fora disso, tudo dentro da curva pura que leva do germe ao germe, do germe desabrochado no escritor àquele que deve desabrochar no leitor e propagar a verdade ou a bondade humana.
O estilo não foi feito para si mesmo. Querer garantir seu futuro é descaminhá-lo e aviltá-lo. É sinal de que não se dá a menor importância à verdade quando se fica agarrado à “forma”, quando se aceita tornar-se, em vez de poeta, rimador, em vez de escritor, estilista! Quem é um gênio em matéria de estilo deve levá-lo à perfeição, que é um direito de tudo quanto existe; cada qual tem o desejo legítimo de tornar-se especialista nisso, tanto quanto o velho ferreiro forjando sua peça; mas o ferreiro não perde seu tempo torneando por prazer ornatos em espiral, ele produz barras, ferragens, grades.
O estilo exclui a inutilidade; ele pratica uma rigorosa economia em meio à riqueza; ele gasta tudo que for necessário, poupa neste ponto usando de alternativas muito hábeis e esbanja naquele outro pela glória da verdade. Seu papel não é o de brilhar, mas o de promover: ele próprio deve sair de cena, e é então que sua própria glória resplandece. “O belo é a purgação de todo supérfluo”, dizia Michelangelo, e Delacroix destaca neste último “os grandes entrelaçamentos, as maçãs do rosto simples, os narizes sem detalhes”. Ele assinala que isso não pode combinar senão com contornos bem marcados, como em Michelangelo, Leonardo e sobretudo Velázquez, mas não em Van Dyck, e eis mais uma lição para nós.
Deem preferência a escrever na forma que for inevitável, partindo do pensamento preciso ou do sentimento exato que devem expressar. Tenham por fim o de serem compreendidos por todos, como convém a um homem que fala aos homens, e procurem atingir neles tudo o que for direta ou indiretamente uma ferramenta da verdade. “Um estilo completo é aquele
que toca todas as almas e todas as faculdades das almas.”[37]
Não cortejem a moda; sua época os influenciará por si só e se arranjará para se conformar com as exigências da eternidade. Ofereçam água da fonte, não drogas ácidas. Muitos escritores, hoje em dia, têm um sistema: todo sistema é um exibicionismo, e todo exibicionismo uma afronta à beleza.
Cultivem a arte da omissão, da eliminação e da simplificação: é o segredo da força. É só o que os mestres, afinal de contas, vivem repetindo, como São João repetia: “Amai-vos uns aos outros”. A lei e os profetas, em matéria de estilo, são a nudez inocente que revela o esplendor das formas vivas: pensamento, realidade, criações e manifestações do Verbo.
Infelizmente, a inocência do espírito é rara. Quando existe, está às vezes conjugada à nulidade. Por conseguinte, apenas duas espécies de espírito parecem predispostos à simplicidade: os espíritos de pouca envergadura e os gênios; os demais ficam obrigados a adquiri-la trabalhosamente, entravados por sua riqueza e incapazes de impor-se limites como gostariam.
II. DESPRENDER-SE DE SI MESMO E DO MUNDO
O estilo e, de modo mais geral, o trabalho criador pedem o desprendimento. A personalidade invasiva deve ser afastada, o mundo, esquecido. Será possível, ao pensar na verdade, deixar-se distrair consigo mesmo? O que esperar de um homem que se detém em si próprio? Volto minha esperança para aquele que toma impulso, distanciando-se da personalidade efêmera, rumo ao imenso e ao universal, que vai seguindo seu curso, enquanto astrônomo, na companhia dos astros, enquanto poeta, filósofo, teólogo, na da matéria animada ou inanimada, na da humanidade individual e social, das almas, dos anjos e de Deus. Creio nesse porque o espírito da verdade nele habita, e não alguma mísera preocupação.
Trabalhar unicamente segundo a intelecção, já vimos que isso não basta: o homem tem de estar envolvido. Mas o homem que se introduz no trabalho não deve ser o homem de paixão, o homem de vaidade, o homem de ambição ou de vã complacência.
Todo mundo fica cheio de paixão em certos momentos, mas em momento algum a paixão deve ser dominante. Todo mundo está sujeito à vaidade, mas que o trabalho seja no fundo uma vaidade, eis em que consiste o vício. Não se trata do que conseguiremos tirar da ciência, e sim do que poderemos lhe dar. O essencial não é a acolhida que se dará a nossas palavras, mas a acolhida que nós próprios daremos à verdade e aquela que preparamos para ela nos outros. Que peso têm, face a esse fim sagrado, nossos cálculos mesquinhos e egoístas? Muitos seres que parecem dedicados de coração a uma obra dão-lhe menos importância do que a sucessos minúsculos. A formação dos mundos, a ascensão das espécies, a história das sociedades, a economia do trabalho podem valer-lhes a faixa vermelha da Legião de Honra ou a condecoração roxa das Palmas Acadêmicas; sua poesia aspira fazê-los ser tratados com um “caro Mestre”, sua pintura sonha com a honra das cimalhas na sala de exposições; Corneille interpretado por Talma fica reduzido à exibição de quem quer “se mostrar”. É óbvio que um espírito virado pelo avesso dessa maneira se deteriora. Tais metas só podem degradar o trabalho, e caso nos alcemos um pouco na escala das ambições, caso deixemos de lado o sucesso do aqui e agora, contando chegar lá em decorrência de nossa própria posição desinteressada, o resultado será o mesmo.
A inspiração não é compatível com o desejo. Qualquer um que queira algo para si afasta de si a verdade: o Deus enciumado não o hospedará. Deve-se trabalhar num estado de espírito de eternidade, como dizíamos, e o que há de menos eterno que um intento ambicioso? Voltados inteiramente para a verdade, os senhores devem servi-la e não dela servir-se.
Só se age com plenitude em prol das causas pelas quais se aceitaria morrer. Estão preparados a morrer pela verdade? Tudo o que escreve um genuíno amigo do verdadeiro, tudo o que ele pensa deveria ser como os sinais que com o sangue de seu ferimento São Pedro mártir traçava à beira da morte: credo.
A personalidade egoísta age sempre no sentido de apequenar; ela contamina tudo, diminui tudo; ela desorienta a energia. Aquele que caminha em frente, inspirando-se no verdadeiro e deixando com Deus a responsabilidade das consequências, esse, sim, é um digno pensador. “Para mim o viver é o Cristo”, diz São Paulo: aí está uma vocação e uma certeza de ação vitoriosa. Só se é realmente um intelectual se se pode dizer: para mim o viver é a verdade.
Uma forma de personalidade particularmente hostil ao trabalho é essa hipocrisia quase universal que consiste em exibir uma aparência de saber, no ponto em que a sinceridade confessaria sua ignorância. Dissimular sua indigência intelectual à sombra das palavras é o que se critica no escrevinhador improvisado, no jornalista sem assunto ou no deputado desinformado; mas todo escritor que usar de honestidade ao se autoavaliar deverá confessar que ele se dobra a todo momento, nesse particular, às sugestões do orgulho. Tenta-se guardar para si seu segredo; disfarça-se sua incompetência; assumem-se ares de superioridade ao sentir-se inferior; passa-se a “afirmar”, a “declarar”, a “estar certo de que...”; no fundo, não se sabe nada; tentando impor-se a seus semelhantes e ficando-se vagamente convencido da verdade do papel que se está representando, deixa-se ser seduzido por si mesmo.
Outra tara, no pensamento, é a busca dessa falsa originalidade que condenávamos há pouco no estilo. Querer submeter o verdadeiro a sua pessoa é de um orgulho insuportável e vira estupidez. A verdade é essencialmente impessoal. Que ela tome de empréstimo nossa voz e nosso espírito, e ela ficará marcada por ambos independentemente de nossa vontade. Aliás, quanto menos pensarmos nisso, mais marcada ela estará; mas pressionar a verdade para que ela se pareça conosco é falseá-la, é substituir essa imortal por um profanador e um efêmero.
“Não olheis de onde vem a verdade”, dizia Santo Tomás: não olhem tampouco a quem ela confere glória; desejem que seu leitor, diante de sua obra, não olhe tampouco de onde vem a verdade. Esse desinteresse sublime é a marca do grande ser; aspirar a ele, fazer dele sua lei aceita para sempre, se não para sempre cumprida, é corrigir o que não se pode subtrair a sua miséria. Cresce-se assim por meio da única verdadeira grandeza. O humilde suporte tem sua cota de glória quando a verdade resplandece, chama autêntica, no candelabro do espírito.
É preciso também, como eu dizia, esquecer o público. “Quanto mais um livro for escrito longe do leitor, mais forte ele será”, disse o padre Gratry em Les Sources [As Fontes], e os Pensamentos de Pascal, os escritos de Bossuet para o Delfim, a de Santo Tomás de Aquino, sobretudo, são citados como exemplo; a comparação entre o Petit Carême [Pequena Quaresma] e os Discours Synodaux [Discursos Sinodais] de Massillon vem confirmá-lo. Isso é verdade, e Vauvenargues concorda quando diz: “Tudo o que se pensou só para os outros é habitualmente pouco natural”.
O que não significa que se possa negligenciar o próximo e se desinteressar de ser útil. O intelectual pertence a todos e deve estar ciente disso. Mas preocupar-nos em ser de alguma utilidade não é pedir que nos deem ordens. Não devemos nos deixar influenciar pelo diz que diz que; não devemos usar de evasivas cedendo às pressões de um conformismo covarde, que se afirma amigo de todo mundo para que todo mundo retribua com a mesma complacência.
Querer obter a aprovação pública é tirar do público uma força com a qual ele contava. Os senhores não lhe são devotados? Não terá ele o direito de lhes perguntar: onde está sua obra? Ora, o pensamento não será obra sua se a preocupação em agradar e adaptar-se torna sua pena servil. O público pensará então pelos senhores, que são quem deveria pensar por ele.
Procurem a aprovação de Deus; meditem exclusivamente a verdade, por si e pelos outros; não sejam escravos e tornem-se dignos de dizer com Paulo: “A palavra de Deus não está presa”.
Essa independência virtuosa é ainda mais necessária pelo fato de o público, por constituir uma massa, ter em mãos tudo quanto baste para se impor. O público é primário. Na maioria das situações em que ele predomina, inclusive por deter a superioridade numérica, ele proclama posições convencionais, nunca verdades; ele quer ser bajulado; ele teme principalmente ser perturbado. Para que as verdades essenciais consigam tê-lo como ouvinte, é preciso que lhe sejam impostas à força. Os senhores estão capacitados para fazer isso, e é essa violência benéfica que o pensador solitário deve tentar praticar.
Sua força para consegui-lo é apoiar-se em si mesmo e na natureza das coisas; é “bater como um surdo”, para empregar as palavras de madame de Sévigné acerca de Bourdaloue, e gritar o “salve-se quem puder” que acaba seduzindo e conquistando as almas.
Nada é tão verdadeiramente poderoso e tão verdadeiramente contagiante quanto uma plena convicção, conjugada a um caráter que saiba dar aos fracos humanos as garantias de que precisam. Aqueles mesmos que exigem ser adulados desprezam seu adulador e se rendem a seu senhor. Se os senhores forem desse mundo, esse mundo os amará por serem dele, mas seu desdém silencioso dará a medida da queda que os espera.
Esse mundo perverso no fundo ama apenas os santos; esse covarde sonha com os heróis; Roger Bontemps é tomado de seriedade e pensa em converter-se diante de um asceta. Sendo essa a índole da humanidade, não se deve ceder à pressão da opinião pública e escrever como se ela estivesse lendo por cima de seu ombro. É indispensável despojar-se de outrem tanto quanto de si mesmo. No âmbito intelectual como em todos os demais, superar o homem é preparar-se para os prodígios, pois é abrir caminho para o Espírito.
Diante de sua escrivaninha e no interior da solidão onde Deus fala ao coração, seria preciso ouvir como a criança escuta e escrever como a criança fala. A criança é simples e desimpedida porque não tem ainda vontade própria, opinião formada, desejos factícios, paixões. À sua singela confiança e a seu modo de falar direto se agrega um interesse profundo. Um homem maduro e repleto de experiência, que teria todavia sido capaz de preservar essa candura, seria um belo receptáculo para a verdade, e sua voz retiniria no âmago das almas.
III. SER CONSTANTE, PACIENTE E PERSEVERANTE
O trabalho criador requer ainda outras virtudes; suas exigências correspondem a seu preço. Exponho aqui três desses requisitos que se ratificam entre si e impedirão que a obra seja demasiado curta ou indigente. É preciso abordar o trabalho munido da constância que se mantém pronta para produzir, da paciência que suporta as dificuldades, da perseverança que evita o desgaste do querer.
Diz Nicole:
Não se deve imaginar que a vida de estudo seja uma vida fácil (...) A razão disso
é que nada é mais contrário à natureza do que a uniformidade e o descanso, porque nada mais nos dá ainda a oportunidade de estarmos com nós mesmos. As mudanças e as ocupações exteriores nos carregam para fora de nós e nos distraem a ponto de fazer-nos esquecer de nós próprios. Além disso, essa linguagem das palavras é sempre um tanto morta e nada tem que consiga ferir profundamente nosso amor-próprio e despertar vigorosamente nossas paixões. Ela está destituída de ação e de movimento (...) Ela nos fala muito pouco de nós mesmos e nos dá pouca chance de nos vermos com prazer. Ela dá parco apoio a nossas esperanças, e tudo isso contribui para mortificar estranhamente o amor-próprio que, em função
de sua insatisfação, espalha desânimo e desgosto em todas as atividades.[38]
Essa análise, que lembra a teoria do divertimento de Pascal, poderia nos levar bem longe. Prefiro ater-me apenas ao “desânimo e desgosto” que, sendo aqui inimigos temíveis, devemos tratar de vencer.
Todos conhecemos exemplos desses intelectuais que trabalham aos trancos, com frases entrecortadas pela preguiça e a negligência. Há buracos no tecido de seu destino; eles o transformam num trapo remendado de qualquer jeito, em vez de fazer dele um nobre brocado. Queremos, quanto a nós, ser intelectuais o tempo todo, e que isso seja de conhecimento geral. Saber-se-á quem somos por nosso domínio da arte de descansar, de nos entreter, pelo modo como atamos os cordões dos sapatos: mais claramente ainda, isso se verá quando se tratar de fidelidade para com o trabalho, isto é, de cumprimento pontual e contínuo de nossa tarefa.
Tendo alguém pedido a Edison, um dia, que desse a uma criança uma recomendação de que ela pudesse lembrar-se, o grande inventor disse com um sorriso: “Meu garotinho, nunca fiques de olho no relógio”. O próprio Edison prestava tão pouca atenção ao relógio que no dia de seu casamento – um casamento por amor – foram obrigados a ir buscá-lo; ele estava absorto numa de suas pesquisas, esquecido de si e do mundo.
É admirável estar-se entregue por completo ao que se está fazendo, tal e qual Deus, que não se separa de sua obra. Caso a atividade não valha a pessoa, melhor seria não se investir pessoalmente nela.
Cai-se frequentemente na tentação de perder tempo porque “não vale a pena começar já”, porque “ainda não está na hora”. Isso equivale a não se dar conta de que esses pedacinhos de duração que de fato não se prestam a desenvolver um empreendimento são os mais indicados para preparar o trabalho ou lhe dar algum retoque, para averiguar certas referências, proceder a anotações, classificar documentos etc. Vem a ser tempo ganho para as verdadeiras sessões de produção efetiva, e os momentos que se empregariam assim seriam tão úteis quanto os outros, já que essas tarefas miúdas referem-se a eles e lhes são imprescindíveis.
Durante as sessões propriamente ditas, a tentação consiste em interromper o esforço ao menor incidente que trouxer o “desânimo” ou provocar o “desgosto” mencionados por Nicole. As astúcias da preguiça são infinitas, como as das crianças. Ao procurar uma palavra que não vem, começa-se a rabiscar na margem da folha, e o desenho começado tem de ser terminado. Ao abrir o dicionário, nos sentiremos atraídos por uma curiosidade verbal, depois por outra, e lá vamos nos deixando ficar, enredados num matagal. Seu olhar bate num objeto; os senhores vão guardá-lo no seu devido lugar e ei-los por uns bons quinze minutos entretidos com uma ocupação das mais fúteis. Está passando alguém; um amigo apareceu no cômodo ao lado; o telefone atrai seus lábios,... ou então é o jornal que está sendo entregue, os senhores dão uma olhadinha nele e logo se embrenham sem poder voltar atrás. Como uma ideia leva a outra, é possível que o próprio trabalho os afaste do trabalho, e que um devaneio, sob a alegação de ter partido de um pensamento, os arraste para dentro de suas perspectivas sonhadoras.
Nos momentos de inspiração, essas armadilhas não precisam causar tanto receio, a alegria da descoberta ou da produção vai sustentá-los; mas as horas ingratas sempre aparecem e, enquanto durarem, poderosa será a tentação. Uma genuína força de alma se faz às vezes necessária para escapar a essas insignificâncias. Todos os trabalhadores se lamuriam dos instantes de depressão que cortam as horas de ardor e ameaçam arruinar seu rendimento. Quando a náusea se prolonga, chega-se a preferir uma tentativa de retorno à vida no campo a prosseguir um estudo tão desgastante; tem-se inveja do trabalhador braçal que, por seu lado, trata-o de vadio vendo-o em sua sossegada poltrona. Em meio a tamanho tédio, o risco de largar tudo não é nada pequeno!
É sobretudo nas guinadas que o caminho dá que se deve ficar atento à natureza repentina ou pérfida dos ataques. Todos os trabalhos passam por transições penosas; os encadeamentos constituem a grande dificuldade dos estudos e das criações. A sequência é tudo. Um percurso em linha reta é seguido por um cotovelo, cujo ângulo é difícil de se medir; perde-se a direção; há um momento de hesitação, e é então que surge o demônio da preguiça.
É aconselhável, algumas vezes, protelar, quando não se consegue ver a continuidade dos pensamentos e quando se fica exposto ao grave perigo das transições artificiais. Um pouco mais à frente, é bem possível que tudo se clareie por si. Como eu já disse, a noite, a límpida manhã, os momentos de descontração e devaneio são benéficos nessas situações. Mas diferir não é de modo algum entregar-se ao ócio. Tomem o trabalho por uma outra ponta e invistam aí sua dedicação e empolgação.
Recusem energicamente qualquer interrupção injustificada. Se sua lassidão for demasiada, façam uma pausa voluntária para recobrar as forças. A irritação não levaria a nada. Uma leitura rápida na obra do autor predileto, uma recitação em voz alta, uma prece de joelhos para mudar a condição orgânica e, consequentemente, destravar, em maior ou menor grau, a mente, um intervalo para respirar ao ar fresco, alguns movimentos ritmados: essas são as soluções possíveis. Depois do quê, retomem sua labuta.
Certas pessoas recorrem aos excitantes: é um método nefasto. Seu efeito é meramente momentâneo; é um meio que se esgota; a cada dia tem-se de aumentar a dose; taras físicas e mentais estarão aguardando no final dessa progressão.
Um estimulante mais inocente é a caminhada, seja ao ar livre, seja em seu escritório. Um bom número de trabalhadores engrenam o cérebro aquecendo os membros. “Meu pé também é escritor”, dizia Nietzsche.
Contudo seu estimulante mais normal é a coragem. A coragem se mantém pela oração, obviamente, mas além disso pela visão sempre renovada da meta a atingir. O prisioneiro que tenta fugir sabe como conservar disponíveis todas as suas energias; ele não se enfastia com os longos preparativos, com as retomadas depois dos malogros: a liberdade aí está a chamá-lo. E os senhores, não têm de fugir do erro e conquistar a liberdade do espírito numa obra que executaram? Vejam seu trabalho pronto: essa aparição os fará recobrar o ânimo.
Outro efeito da constância é o de vencer as impressões de falso cansaço que tomam tanto o espírito quanto o corpo. Quando começamos uma excursão, é comum que a primeira subidinha já nos veja ofegantes e pesados; somos tomados de fadiga; de bom grado retornaríamos ao abrigo. Persistam: as articulações se desenferrujam, os músculos se exercitam, o fôlego se expande e os senhores experimentam a alegria de estar em atividade. O mesmo se dá com o estudo. À primeira sensação de cansaço não se deve dar ouvidos; é preciso forçar; é preciso forçar a energia interior a sair. Pouco a pouco o maquinismo se põe em funcionamento, nós nos adaptamos, e um período de entusiasmo pode seguir-se à penosa inércia.
Qualquer que seja sua causa, é preciso saber atravessar as dificuldades sem esmorecer, mantendo o controle sobre seu ser. Uma sessão de trabalho é como um terreno de corrida com obstáculos. Pula-se uma sebe; um pouco adiante é um fosso, depois um talude, e assim por diante. Diante da primeira barreira, não se para, pula-se, e os obstáculos estão separados por zonas tranquilas onde se avança em ritmo acelerado. Um impedimento que vencemos nos ensina a vencer outros que se apresentarem; um esforço nos poupa quatro outros; o alento de um minuto vale por um dia, e o trabalho duro por um trabalho fecundo e alegre.
Considerando-se a vida em geral, essa tenacidade contribuirá a tornar a atividade cada vez mais fácil para os senhores. Adquire-se o hábito de pensar, como se adquire o hábito de tocar piano, de montar a cavalo ou de pintar: Santo Tomás ditava durante o sono. O espírito se molda ao que lhe é pedido com frequência. Se os senhores não dispuserem de memória, adquiram uma para o que constitui seu tema constante; se tiverem inclinação para dispersar-se, cabe-lhes uma atenção de profissional; pouco hábeis em confrontar e avaliar as ideias, passem a frequentar assiduamente os gênios até chegar a um julgamento mais aguçado e mais seguro. Seja qual for o assunto, tendo dado a partida já algumas vezes, esquentado o motor, a estrada corre à solta.
Amiel perguntava a si mesmo um dia, em seu diário: “Por que és fraco? Porque cedeste dez mil vezes. Assim, te tornaste o joguete das circunstâncias. Foste tu quem fizeste sua força, não elas que fizeram tua fraqueza”.
Aprendam a constância por uma aplicação e retomadas obstinadas: chegará o dia em que as indolências persistentes se dissiparão, os desânimos momentâneos praticamente não interferirão; os senhores se terão tornado homens; o trabalhador desprovido de constância não passa de uma criança.
À medida que se ganha experiência, vai-se percebendo que muitas das dificuldades são superadas antecipadamente por quem se atira energicamente ao trabalho, como um corredor que toma impulso. Entretanto, delas sempre sobrará uma quantidade considerável que ficará a cargo de uma virtude vizinha: a paciência.
Todos os gênios se queixaram das atribulações do pensamento, declarando que seus trabalhos, apesar de constituírem-se para eles numa necessidade e numa condição para sua felicidade, lhes infligiam torturas duradouras, às vezes verdadeiras angústias. Ainda ouço os gemidos de Bergson nesse sentido.
O cérebro tem leis obscuras; seu funcionamento depende pouquíssimo do querer; quando ele se recusa, o que se há de fazer? Quando o fio da ciência se emaranha e as horas vão passando em vão, quando um doloroso sentimento de impotência os invade sem que nada dê a entender que o fim da provação se aproxima, qual a saída e que socorro implorar senão o socorro divino?
Seu leitor não verá nada de especial em seus bons êxitos; criticará duramente suas falhas; nem desconfiará de seu penar. Aliás, ele não deve desconfiar disso. “As obras realizadas à custa de muito trabalho”, dizia Michelangelo, “devem parecer, a despeito da verdade, fáceis e concebidas sem esforço (...) A regra fundamental é ter muito trabalho para criar coisas que parecem não ter custado nenhum”. Boileau, por sua vez, não se gabava de ter ensinado a Racine a arte de fazer dificultosamente versos fáceis? Em matéria de ciência, dizia Biot: “Não há nada mais simples do que o que foi descoberto ontem, nem nada mais difícil do que o que será descoberto amanhã”. Mas o público não tem noção disso. Os senhores devem carregar seu fardo sozinhos, e os grandes seres os previnem de que o fardo do pensamento é a carga mais pesada que o homem consiga suster.
Tratando-se de pesquisa, sejam tão indomáveis quanto o explorador das regiões polares ou da África central. Na investida contra o erro ou na resistência, é-lhes indispensável a firmeza e o ardor de César ou de Wellington. O trabalho, como a batalha, exige heroísmo. Um gabinete se torna às vezes uma trincheira onde se tem de fincar o pé, tal e qual um verdadeiro mártir.
Quando sentirem que estão desarmados, que foram vencidos; quando a estrada se estende à sua frente, interminável, ou quando, tendo tomado uma direção errada, tiverem a impressão de estar perdidos, afogados em densas brumas, desnorteados, é hora de apelar para as energias que os senhores têm de reserva. Persistam, resistam, tenham paciência, no sentido pleno da expressão, que evoca a Paixão do Mestre. O ardor é mais fácil que a paciência, mas ambos são exigidos, e o êxito é sua recompensa comum.
O alpinista que atravessa uma nuvem acha que o universo está imerso na noite: ele segue caminhando, e encontra, mais além, o sol. Quando, num dia de tempo ruim, se está num aposento fechado, parece impensável ir para o lado de fora: sai-se e consegue-se fazer tranquilamente seu trajeto, em seguida o tempo bom retorna.
É sobretudo sua longa duração que torna a arte de pensar tão pesada e tão desproporcional em relação às forças de que precisamos normalmente. Ars longa, vita brevis. Temos aí um campo aberto para o exercício da virtude da paciência. Ao respeitar as leis de eclosão das coisas e não ofender a ciência com uma pressa inconveniente, os senhores ganharão muito mais do que se mostrando afoitamente precipitados. A verdade e a natureza andam ao compasso, e a natureza opera em espaços de tempo à vista dos quais a vida e a morte do planeta têm a duração de um nascer e um pôr do sol.
“O que ocorre nas nascentes profundas”, escreve Nietzsche, “ocorre com lentidão; elas devem esperar por longo tempo para saber o que caiu em sua
profundeza”.[39] A alma é essa fonte secreta: não procurem desvendar prematuramente seu mistério. As reservas de tempo a Deus pertencem; paulatinamente ele as vai liberando para nós; mas não nos compete exigir, impacientar-nos. O tesouro genuíno é o que chega no devido tempo.
Logo, evitem a agitação do homem com pressa. Apressem-se lentamente. No âmbito do espírito, a calma vale mais que a afobação. Aqui mais do que em qualquer outra situação se aplica o provérbio: quem espera sempre alcança. “A vida é longa quando bem preenchida”, diz Leonardo da Vinci. O homem que dá tempo ao tempo tem todo o tempo do mundo, que está sediado na eternidade. Assim sendo, trabalhem num espírito de eternidade. Não confundam um estímulo generoso com as excitações que são quase que seu oposto já que elas cortam-lhe o ritmo. Os senhores não podem, encontrando-se num estado de perturbação, desenvolver este trabalho de paz que é o da ordenação das ideias, o da delicada elaboração dos novos pensamentos. Querem então perder tempo, por conta da estúpida aflição de que este lhes faltará?
Cristãmente, os senhores têm de respeitar a Deus em sua providência. É ele quem determina as condições do saber: a impaciência é para com ele uma revolta. Quando forem tomados de febre, a escravidão espiritual já estará a espreitá-los, a liberdade interior se dissolve. Não são mais os senhores que estão agindo, muito menos o Cristo nos senhores. Já não estão fazendo a obra do Verbo.
De que serve querer adiantar-se de modo tão impróprio, quando o caminho já é em si uma meta, o meio, um fim? Quando se olha o Niágara, sente-se vontade de vê-lo acelerar? A intelectualidade tem valor por si mesma em todos os seus estados. O esforço virtuoso é uma conquista. Aquele que trabalha para Deus e segundo Deus encontra em Deus sua morada. Que importa se o tempo correr, quando se está instalado ali?
O coroamento da constância e da paciência que perduram é a perseverança que leva a termo. “Aquele que perseverar até o fim, esse será salvo”, diz o Evangelho. A salvação intelectual não está submetida a outra lei que não a da salvação total. “Quem põe a mão no arado e olha para trás” não é digno, nisso tampouco, do reino dos céus.
Quantos trabalhadores não abandonaram assim as lavouras, as sementeiras, renunciando às colheitas! A terra está toda povoada desses fujões. As primeiras tentativas assumem, na ciência, o caráter de provas eliminatórias: as personalidades fracas vão sucessivamente abandonando a competição, as valentes resistem; chegam ao final apenas os trezentos de Gedeão ou os trinta de Davi.
Perseverar é querer. Aquele que não persevera não quer, ele está só projetando. Aquele que desiste nunca insistiu; aquele que deixa de amar nunca amou. Se o destino é uno, o que não dizer de uma obra parcial. O intelectual genuíno é por definição perseverante. Ele assume a tarefa de aprender e de ensinar; ele ama a verdade de corpo e alma; ele é um consagrado: ele não renuncia prematuramente.
As grandes vidas nos mostraram, todas elas, essa sua marca suprema. Elas findam como um dia glorioso. Os vermelhos do poente são de uma beleza que não fica atrás dos leves tons dourados do amanhecer, e ainda lhe acrescentam sua grandiosidade. O homem de bem que trabalhou por longo tempo sem fraquejar pode pôr-se, ele também, em sua morte simples e suntuosa; sua obra o acompanha e ao mesmo tempo permanece entre nós.
Não sejam, os senhores que seguem os passos dos grandes, desses itinerantes acovardados que desertam, que vencem uma etapa, param, se perdem, se sentam como que esgotados e voltam mais cedo ou mais tarde para as regiões corriqueiras. É preciso obstinar-se até o fim da viagem. “Devagar se vai ao longe” e passadas largas sem persistência não passam de espalhafato vazio, pois não levam a lugar nenhum.
Fortaleçam sua vontade e confiem-na ao Senhor para que ele a consagre. Querer é sujeitar-se, é estar acorrentado. A necessidade do dever ou de uma resolução pensada, mesmo que livre de obrigações, deve ser tão imperativa para nós quanto as necessidades da natureza. Uma ligação moral não tem mais peso do que uma ligação material?
Saibam, pois, depois de terem estabelecido sua tarefa, tomá-la a peito com ágil determinação; excluam até mesmo as obrigações menores, quanto mais as infidelidades. Empenhem-se em profundidade, para conquistar a duração naquela de suas dimensões que lhes for mais diretamente acessível. Tendo enveredado por seu curso, não a abandonarão a não ser que dela parta a iniciativa de abandoná-los. Farão parte da linhagem dos pensadores fiéis. Os gigantes do trabalho, os Aristóteles, os Agostinhos, os Albertos Magnos, os Tomás de Aquino, os Leibniz, os Littrés, os Pasteurs, os reconhecerão por seus filhos e os senhores se dirigirão com dignidade ao encontro d’Aquele que os aguarda pacientemente.
IV. FAZER TUDO BEM FEITO E ATÉ O FIM
Estando preenchido o requisito dessas três virtudes, fica praticamente afastado o receio de um resultado medíocre e imperfeito. Todavia, é bom enfatizar com veemência a necessidade de aprimorar o acabamento e o dever de fazer chegar a seu termo tudo o que se julgou útil empreender.
Deve ter havido uma reflexão antes de se atacar o trabalho. Não passa de um avoado quem se lança numa aventura, seja ela grande ou pequena, sem “se sentar primeiro, como diz o Evangelho, para calcular a despesa”. Quer a sabedoria que seja diante da obrigação de concluir que se delibere acerca da oportunidade de começar. Não terminar uma obra é destruí-la. “Quem relaxa em seu trabalho é irmão daquele que o destrói”, dizem os Provérbios (18:9).
De que serve uma casa no decorrer de sua construção? Que testemunho pode prestar sobre quem assentou os alicerces e instalou as primeiras estruturas? Essa espécie de ruína faz pensar em desgraças. Nem se cogita que um ser vivo ou um homem que foi poupado pela fatalidade pudesse suportar esses muros que se assemelham às colunas destruídas dos cemitérios. E os senhores, construtores pelo espírito, querem que seu passado seja um campo de escombros?
Há pessoas com as quais se pode contar. Quando prometem, cumprem. Ora, todo começo constitui uma promessa, a menos que não passe de uma asneira. Outras há que se comprometem, juram por todos os santos, e nada acontece; tem-se a impressão de que não são indivíduos que se prestam a obrigações; não se pode forçá-los e eles próprios não podem forçar-se: são água corrente.
Pessoas desse feitio representam moralmente uma espécie inferior; o intelectual que se parecer com elas não é um intelectual, sua vocação condenou-se a si própria. Os senhores que são consagrados, tomem definitivamente a decisão de serem fiéis. Há uma lei em seu interior: que essa lei seja obedecida. Se os senhores disseram “Eu farei”, façam. Um caso de consciência é-lhes colocado: tomem uma resolução que não lhes manche a honra; um trabalho inacabado equivaleria a receberem uma repreensão.
Vejo uma causa de degradação no abandono de um esboço ou de uma iniciativa. A desistência se torna um hábito; acaba-se resignado a conviver com a desordem e a má consciência; é-se aquele que vacila entre fazer e não fazer. Daí um rebaixamento da dignidade que não pode favorecer nossos progressos.
Meçam dez vezes, cortem numa vez só; alinhavem com cuidado e quando vier o momento de coser, que nada nesse mundo possa fazê-los dizer: eu desisto.
Em decorrência disso, os senhores costurarão, dando o máximo de si mesmos para executá-lo com perfeição. Acabado significa terminado, mas significa igualmente perfeito e ambos os sentidos corroboram um ao outro. Não terminei realmente aquilo que eu me recuso a encaminhar para o aperfeiçoamento. Só está feito o que se perfez e ficou perfeito. Segundo Espinosa, o ser e a perfeição correspondem à mesma ideia; o ser e o bem são convertíveis.
Conta-se que Ticiano esboçava sua tela vigorosamente, trabalhava-a até um determinado ponto e encostava a obra à parede até que ela se tornasse uma estranha para ele. Então ele a retomava e, envolvendo-a com um “olhar inimigo”, forçava-a ser uma obra-prima.
Assim, quando um trabalho estiver encaminhado, deixem-no quieto até que o olho esteja refrescado, e o olhar, distanciado. Se então ele lhes desagradar, recomecem. Se ele estiver à altura, critiquem a fundo, atentando a todos os detalhes, e voltem à labuta até que possam dizer: estou no limite de minhas capacidades; o que permanece falho, que Deus e meu próximo mo perdoem. “Quod potui feci: veniam da mihi, posteritas”, diz Leonardo da Vinci em seu epitáfio.
Não é necessário compor em grande quantidade. Se o que fizerem corresponder a seu gênio, a suas graças e ao tempo de que dispõem, se lá estiverem por inteiro e se a vontade da Providência em seu interior estiver satisfeita por uma plena obediência, tudo está bem. Já terão feito muito, se cumprirem até o fim o que fizerem. Aquilo que fizessem mal-feito não lhe acrescentaria nada, e até o diminuiria, como uma mancha numa seda preciosa.