A Vida Intelectual: Seu espírito, suas condições, seus métodos
IV. O contato com os gênios
Quero falar em especial, por atribuir a esse ponto uma extrema importância no que diz respeito à maneira de conduzir o espírito e a vida, do proveito a tirar dos grandes homens. O contato com os gênios é uma das graças de escolha que Deus concede aos pensadores modestos; nós deveríamos preparar-nos para isso como devemos fazê-lo para a oração segundo a Escritura, como nos recolhemos e nos colocamos numa postura de respeito ao abordar um personagem importante ou um santo.
Pensamos pouco demais no privilégio dessa solidariedade que multiplica a alegria e a utilidade de viver, que amplia o mundo e torna nossa estada nele mais nobre e mais cara, que renova para cada um a glória de ser homem, de ter o espírito aberto aos mesmos horizontes que os grandes seres, de viver alto e de fundar com seus iguais, com seus inspiradores, uma sociedade em Deus. “Depois dos gênios, seguem-se imediatamente aqueles que sabem reconhecer o valor dos gênios”, dizia Thérèse Brunswick referindo-se a Beethoven.
Lembrar de quando em quando a nós mesmos o nome dos que brilham com especial esplendor no firmamento da inteligência é percorrer nossos títulos de nobreza, e esse orgulho tem a beleza e a eficácia de um orgulho de filho para com um pai ilustre ou uma grande linhagem.
Se forem literatos, os senhores, será que não apreciam o benefício de terem atrás de si Homero, Sófocles, Virgílio, Dante, Shakespeare, Corneille, Racine, La Fontaine, Pascal? Se forem filósofos, será que abririam mão de Sócrates, Platão, Aristóteles, Santo Tomás de Aquino, Descartes, Leibniz, Kant, Maine de Biran, Bergson? Sendo cientistas, então não saberiam o que devem a Arquimedes, Euclides, Aristóteles novamente, Galileu, Kepler, Lavoisier, Darwin, Claude Bernard, Pasteur? Enquanto homens religiosos, pensem no empobrecimento de todas as almas se elas não tivessem tido, depois de São Paulo, Santo Agostinho, São Bernardo, São Boaventura, o autor de A Imitação, Santa Catarina de Sena, Santa Teresa, Bossuet, São Francisco de Sales, Newman.
A Comunhão dos Santos é a base que sustenta a vida mística; o Banquete dos Sábios, eternizado por nosso culto e nossa assiduidade, é o reconforto da vida intelectual. Cultivar a faculdade da admiração, que resulta numa convivência constante com os pensadores ilustres, é um meio não de se equiparar ao que se está honrando, mas de se equiparar a si mesmo e eis aí, insisto nesse ponto, o objetivo a considerar e a procurar atingir.
O contato com os gênios nos proporciona o benefício imediato da elevação. Por si só, sua superioridade nos gratifica antes mesmo que consigam nos ensinar alguma coisa. Eles nos dão o tom; eles nos habituam ao ar das alturas. Nós nos movíamos numa região baixa: eles nos levam de volta, de uma tacada, à atmosfera deles. Nesse mundo de altos pensamentos, a face da verdade parece desvelar-se; a beleza brilha; o fato de que estejamos seguindo e compreendendo esses videntes leva a crer que somos afinal de contas da mesma raça, que a Alma universal está em nós, a Alma das almas, o Espírito ao qual bastaria que nos adaptássemos para romper em discursos divinos já que, na origem de toda inspiração, sempre profética, há
Deus, o primeiro autor de tudo o que se escreve.
(V. Hugo).
Quando o gênio fala, temos a impressão espontânea de que ele é simples; ele expressa o homem, e seu eco se dá a ouvir dentro de nós. Quando ele se cala, não seremos capazes de continuar no mesmo estilo e levar a termo a frase que ele encurtou? Ai de nós: não! Assim que ele nos deixa, voltamos a cair na impotência de origem, balbuciamos; porém sabemos agora que a verdadeira palavra existe e nosso gaguejar já adquiriu um novo sotaque.
Escutem certos prelúdios de Bach. Eles lhes dizem pouca coisa: um motivo curto que volta, variações insistentes, com um relevo tão pouco acentuado quanto o de uma medalha de Roty. Mas que nível de inspiração! Até que mundo desconhecido não somos transportados! Lá permanecer e lá movimentar-se livremente por si seria um sonho e tanto! Na pior das hipóteses, sempre poderemos voltar lá pela lembrança, e que proveito trará essa possibilidade de ascensão que nos afasta das futilidades, nos afina e nos ajuda a julgar adequadamente os fogos de artifício pueris em que consistem quase sempre as festas do espírito!
Quando, em seguida, o gênio nos oferece temas, nos fornece verdades, explora para nós as regiões misteriosas e às vezes, como um Santo Tomás de Aquino ou um Goethe, nos mostra, concentrados numa só pessoa, séculos de cultura, quanto não lhe devemos nós? “O espírito humano não pode ir muito longe”, escreveu Rodin, “a não ser com esta condição: que o pensamento do indivíduo se acrescente paciente e silenciosamente ao pensamento das gerações”. Logo, o grande pensador que, sozinho, nos resume gerações inteiras nos permite ir longe com sua ajuda; ele nos dá direitos sobre territórios que ele conquistou e desbastou, que ele semeou e cultivou. Quando é a hora da colheita, ele nos avisa.
A sociedade das inteligências é sempre de pequeno porte: a leitura a expande; deitamos sobre a página genial um olhar implorante que não fica decepcionado; correm a nosso socorro; abrem-nos caminhos; tranquilizam-nos; iniciam-nos; o trabalho de Deus nos espíritos raros é contabilizado em nosso benefício tanto quanto no deles; crescemos através deles; somos enriquecidos deles; o gigante carrega o anão e o parente idoso oferece uma herança. Então não aproveitaríamos esse acréscimo? Podemos aproveitá-lo: atenção e fidelidade são as únicas exigências.
O gênio renova tudo para nós. É o dom por excelência desse vidente apresentar ao pensamento sob um enfoque desconhecido, no cerne de um sistema de relações que por assim dizer a recria, a realidade que aí estava, óbvia, e que não víamos.
Todo o infinito do pensamento está por trás de cada fato; mas ficamos esperando que a perspectiva se evidencie; só o gênio se adianta, afasta os véus e nos diz: vem! A ciência consiste em ver por dentro: o gênio vê por dentro; ele frequenta o íntimo dos seres e, graças a ele, o próprio ser nos fala, em vez de nossos fracos e duvidosos ecos.
O gênio simplifica. A maioria das grandes descobertas são súbitas e fulgurantes concentrações. As grandes máximas são múltiplas experiências condensadas. O traço sublime, na pintura, na música, na arquitetura, na poesia, é um jorro que contém e une valores até então disseminados e indecisos.
Um grande homem, por refletir a humanidade comum, reduz ao essencial as aquisições desta, como Leonardo da Vinci sintetizava num único momento as expressões cambiantes do modelo. A linha egípcia aplicada a tudo é a genialidade, e sua rica simplicidade constitui nosso fausto.
O gênio nos estimula e nos deixa confiantes. A emoção que ele desencadeia é o assinalador das iniciativas fervorosas, o revelador das vocações e o remédio para as inquietações da timidez. Uma impressão de sublimidade fica em nossa alma como um nascer do sol. A sabedoria experimentada em seus heróis nos faz, também a nós, gestos secretos de incitação, e que felicidade poder dizer consigo mesmo: ela está em mim também!
Talvez não seja verdade que os grandes homens espelhem somente seu século; mas é verdade que eles espelham a humanidade, e qualquer membro desta humanidade tem assim sua cota de glória. Por mais que os pensadores maledicentes se empenhem, eles estarão errados diante do gênero humano em função da existência dos gênios, tanto quanto os judeus diante de Jesus quando diziam: “De Nazaré pode vir algo bom?” Sim, algo de bom pode sair desse pobre mundo, já que um Platão provém dele. Um grande homem não seria nada se ele não fosse, por seus recursos e pelo emprego que deles faz, um filho do Homem. Ora, o tronco que o sustenta não está enfraquecido; aqueles que recebem a mesma seiva podem sempre ter a esperança de crescer e dar, por sua vez, flores imortais.
Nem mesmo os erros, nos grandes, deixam de poder contribuir com o benefício que esperamos de nosso relacionamento com eles. Temos de saber nos defender contra eles; sua força pode eventualmente perder o rumo; quase todos têm suas sombras, como uma máscara em alto relevo; quer exagerando um ponto de vista, quer deixando-se arrastar por algum outro ímpeto, ei-los longe da retidão. Entretanto não há um só que, apesar de suas aberrações, não conduza um espírito judicioso a tocar os fundamentos eternos da ciência e os segredos da vida.
Seus erros não são erros vulgares, são excessos; a profundidade e a acuidade de visão não estão ausentes. Seguindo-os com cautela, pode-se estar certo de ir longe e de proteger-se de seus passos em falso. “Tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus”, diz o Apóstolo; para os que optaram pela verdade, tudo pode ser útil. Tendo formado nosso espírito em boa escola, conservando bem ajustados e bem firmes os quadros de referência de nossos pensamentos, podemos esperar crescer junto dos erros geniais. Nesse perigo, desde que não fiquemos imprudentemente expostos, há novamente uma graça; uma nova esfera nos é revelada; uma face do mundo nos é mostrada, talvez com exclusividade excessiva, mas de maneira poderosa; o ânimo conferido a nosso espírito lhe pertencerá definitivamente; os aprofundamentos exigidos pela própria atitude de resistir nos fortalecem; estaremos mais bem formados, mais bem resguardados por ter corrido esses sublimes riscos sem a eles sucumbir.