A Vida Intelectual: Seu espírito, suas condições, seus métodos
Capítulo VI – O espírito do trabalho
Capítulo VI
O Espírito do Trabalho- O Espírito do Trabalho
I. O FERVOR DA PESQUISA
O campo do trabalho uma vez determinado, é aconselhável definir o espírito que deverá animar o trabalhador, e trata-se em primeiro lugar, antes de qualquer meio específico de pô-lo em aplicação, de um espírito de zelo. “Instrui-te com tuas dúvidas”, diz Santo Tomás a seu discípulo.
Um espírito ativo está constantemente em busca de alguma verdade que é para ele, naquele instante, a figuração dessa verdade integral à qual ele votou seu culto. A inteligência é igual à criança, em cujos lábios os “por quê?” não têm fim. Um bom educador deixaria sem resposta essa inquietação tão fecunda? Não vai ele tirar proveito de uma curiosidade que desponta, como um apetite juvenil, para dar ao organismo espiritual nascente uma alimentação substancial? Nossa alma não envelhece; ela está sempre em crescimento; com relação à verdade, ela será sempre uma criança. Estando nós próprios encarregados de sua educação permanente, não devemos, tanto quanto possível for, deixar sem solução nenhum dos problemas que se apresentarem no decorrer de nosso trabalho nem sem conclusão apropriada nenhuma de nossas investigações.
Que o estudioso esteja, portanto, sempre à escuta da verdade. Enquanto estiver debruçado sobre sua tarefa, o Espírito sopra em seu interior, revela-se talvez no meio externo, envia seus profetas, homens, coisas, livros, eventos: a alma atenta não deve desconsiderar nada; pois esse espírito do verdadeiro, tal como a graça, frequentemente passa para não mais voltar. Ele próprio, aliás, já não é em si uma graça?
O grande inimigo do saber é nossa indolência. É essa preguiça original que repugna o esforço, que acaba aceitando, por capricho, aqui ou ali, dar o máximo de si, mas cai novamente bem depressa num automatismo indiferente, achando que um ritmo de trabalho intenso e constante é um verdadeiro martírio. Um martírio, talvez, levando-se em conta nossa constituição; mas esse martírio, deve-se estar preparado para ele ou renunciar ao estudo, pois o que se há de fazer sem energia varonil? “Tu, ó Deus, Tu vendes todos os bens aos homens pelo preço do esforço”, escrevia Leonardo da Vinci em suas anotações. Ele mesmo tinha-o claro na memória.
O espírito é como o aeroplano que não pode se manter em altitude se não avançar com a hélice em rotação máxima. Parar é desabar. Em contrapartida, um fervor pertinaz pode nos levar para além de todos os limites previstos por nossos sonhos. As pessoas geralmente não sabem a que ponto a inteligência é plástica e receptiva a estímulos. Disse Bossuet: “O espírito do homem pode descobrir até o infinito, apenas sua preguiça impõe limites à sua sabedoria e suas descobertas”. O que tomamos por barreira não passa na maioria das vezes do emaranhado de nossos defeitos e de nossas negligências sensuais. Entre conceber e projetar, projetar e executar, executar e perfazer, quantas protelações, quantos tropeços! O hábito do esforço condensa essas etapas e faz com que se passe da concepção à finalização por um declive rápido. O homem de força arma à sua frente a escada de Jacó, para as subidas e descidas dos anjos que nos visitam.
Certos espíritos chegam prontamente a um ponto em que o que adquiriram já os satisfaz. Como trabalharam de início, perderam a sensação de seu vazio. Não se dão conta de que estamos sempre vazios daquilo que efetivamente não temos e que, num campo de descoberta ilimitado, não é admissível que se possa jamais dizer a si mesmo: vamos parar por aqui. Se o objetivo é meramente contar ou obter vantagens, um pequeno estoque de pensamentos pode ser o bastante. Muitos agem assim, lançando mão de um biombo delicado para esconder de outrem e de si próprio uma vasta ignorância. Mas uma vocação autêntica não fica satisfeita com tão pouco; ela considera que cada ganho é um ponto de partida. Saber, procurar, saber de novo e partir novamente para procurar outra vez, é esta a vida de um homem votado ao verdadeiro, tal como acumular, independentemente do valor de sua fortuna, é o objetivo do avarento. O intelectual sincero diz a cada dia ao Deus da verdade: “o zelo por tua morada me devora”.
É numa fase mais tardia que, mais do que nunca, convém precaver-se contra esse tipo de tentação. É conhecido o caso daqueles que são chamados de “bonzos”, velhos sábios que sufocam sob o peso das honrarias, que são esmagados de exigências e perdem em encenações o tempo que dedicavam no passado às descobertas. Embora mais bem equipados, eles não produzem mais; gozam da admiração geral, e não são mais senão a sombra de si mesmos. Dizia-se do pintor Henner, no fim de sua vida: “Ele só pinta falsos Henner”. Não subscrevo a essa opinião, mas a formulação é cruel e, para todos aqueles a quem ela pudesse se aplicar, temível. Tem de reconhecer-se que também nos jovens se nota essa senilidade prematura que, cheia de felicidade diante de um achado real ou aparente, o explora até a exaustão e desperdiça para esticar um fio quase até seu ponto de ruptura um empenho que encontraria melhor uso na fundição de um lingote ou na cunhagem de uma medalha.
Um pensador autêntico aborda seu trabalho num espírito totalmente diverso; ele é movido por um instinto de conquistador, um arroubo, um ímpeto e uma inspiração heroicos. Um herói não se imobiliza, não se limita. Um Guynemer encara uma vitória como um treino para uma outra vitória; pautando-se num modelo todo-poderoso, ele voa, faz nova investida, atinge o adversário, volta-se para outro e considera que só a morte é o fim de sua carreira.
Deve-se sempre procurar, sempre se esforçar. A natureza estimula a árvore silvestre a reflorescer, o astro a brilhar, a água a fluir, correndo declive abaixo, contornando os obstáculos, preenchendo os vazios, sonhando com o mar que a espera lá longe, aonde ela talvez chegue. A criação em todos os seus estágios é uma aspiração contínua: o espírito, que é potencialmente todas as coisas, não pode limitar por si mesmo suas formas ideais, não mais do que as formas naturais das quais elas são o reflexo. A morte o limitará, e também sua impotência: que pelo menos sua coragem fuja das fronteiras da preguiça. O infinito que está a nossa frente quer o infinito de nosso desejo para corrigir tanto quanto possível o desfalecimento de nossa força.