A Vida Intelectual: Seu espírito, suas condições, seus métodos
Capítulo III – A organização da vida
Capítulo III
A Organização da Vida- A Organização da Vida
I. SIMPLIFICAR
Para que tudo no estudioso esteja centrado no trabalho, não lhe basta organizar-se por dentro, definir sua vocação e administrar suas forças: falta ainda arrumar sua vida, e com isto quero dizer no tocante à ambientação, às obrigações, ao convívio e ao cenário.
Uma palavra se impõe aqui sobrepujando todo o restante: Simplifiquem. Os senhores têm uma viagem difícil pela frente: não se sobrecarreguem com bagagens. Pode ocorrer que não estejam propriamente no comando e, então, pensarão consigo próprios: de que adiantaria legislar? Errado! Dada uma mesma situação externa, um espírito de simplificação pode muito, e o que não se elimina exteriormente, sempre se pode eliminá-lo de sua alma.
Não atrelarás para arar o jumento com o boi, diz a Lei: o trabalho quieto e controlado não deve ficar associado aos trancos caprichosos e barulhentos de uma vida toda voltada para fora. Um certo ascetismo torna-se, também nesse aspecto, um dever para o pensador. Religiosa ou laica, científica, artística, literária, a contemplação não coaduna com liberdades de custo alto demais e com complicações. “Os grandes homens dormem em leitos pequenos”, observa Henri Lavedan. O que se paga pelo gênio é a taxa do luxo. Os dez por cento para dispor desse privilégio não o arruinarão; não são eles que vão pagar, e sim, mais provavelmente, nossos defeitos, ou pelo menos nossas tentações, e o lucro será dobrado.
Para dar hospitalidade à ciência não são necessários móveis raros nem uma criadagem numerosa. Muita paz, um toque de beleza, algumas facilidades domésticas para poupar tempo, é tudo quanto é preciso.
Reduzam suas atividades sociais. Recepções, programas que implicam novas obrigações, cerimoniais de boa vizinhança, todo o complicado ritual de uma vida artificial, que tantos mundanos amaldiçoam no íntimo, não são compromissos que digam respeito a um trabalhador. A vida social é fatal para a ciência. A ideia e a ostentação, a ideia e a dissipação são inimigas mortais. Quando se pensa num gênio, nunca vem à mente uma imagem de ele participando de um jantar.
Não se deixem arrastar por essa engrenagem que suga pouco a pouco o tempo, as preocupações, as disponibilidades e as forças. Os preconceitos não são seus ditadores. Sejam os senhores mesmos seus próprios guias; obedeçam a suas convicções, não a rituais, e as convicções de um intelectual devem enfocar seu objetivo.
Uma vocação é uma concentração. O intelectual é um consagrado: que ele não vá se dispersar em futilidades cheias de exigências. Que ele jogue todos os seus recursos na fogueira da inspiração, como Bernard Palissy sacrificava sua mobília.
O trabalho e suas condições é tudo quanto importa. O gasto e os cuidados desperdiçados em ninharias encontrariam bem melhor uso na constituição de uma biblioteca para si, na programação de uma viagem instrutiva, de férias de descanso, de audições de música que refrescam a inspiração etc.
O que favorece sua obra é sempre oportuno; o que a entrava e os enreda tem de ser banido pois, além dos inconvenientes imediatos, os senhores ficam estimulados a procurar o lucro e desnorteiam dessa maneira seu esforço. O padre tem o direito de viver do altar e o homem de estudo de sua obra; mas não se reza a missa por dinheiro e não se deve, por dinheiro, pensar e produzir.
Se pertencerem aos que têm de ganhar a vida fora do trabalho pelo qual optaram, de que modo, ficando sua vida sobrecarregada, preservarão os senhores as parcas horas de que dispõem? É o caso de reduzir o lado material ao mínimo a fim de aliviar, de liberar o espírito.
A esse respeito, a esposa de um intelectual tem uma missão que cabe talvez assinalar: é tão frequente ela se esquecer que, em vez de ser a Beatriz, só consegue tagarelar e levar à distração!
Toda mulher deve desposar a carreira do marido; o centro de gravidade da família é sempre a ocupação do pai. Aí está situada a vida produtiva, por conseguinte também o dever fundamental. Mas isso é tanto mais verdadeiro quanto mais nobre e laboriosa for a carreira que ele abraçou. A vida em comum tem aqui por centro um cume; a mulher deve nele se instalar, em lugar de tentar afastar dele o pensamento viril. Arrastá-lo para bobagens sem relação com suas aspirações é fazer o marido perder o apetite por ambas as vidas que se contradizem entre si. Que a filha de Eva pense nisso e não dê razão mais do que é estritamente necessário ao “divisus est” de São Paulo. Se o homem casado é, de certa forma, “dividido”, que ele se torne também “dobrado”. Deus lhe deu uma ajuda semelhante a si: que ela não se torne outra. Os conflitos ocasionados pela incompreensão da alma gêmea são fatais à produção; eles levam o espírito a viver numa inquietação que o corrói; não lhe sobra nenhum entusiasmo e nenhuma alegria, e como poderia um pássaro voar sem suas asas, o pássaro e a alma sem seu canto?
Que a guardiã do lar não seja, assim, o gênio maldoso, que ela seja a musa. Tendo desposado uma vocação, que também ela tenha vocação. Realizar por si ou pelo marido, tanto faz! Ela tem de realizar, contudo, já que ela constitui com aquele que realiza uma só carne. Sem precisar ser uma intelectual, menos ainda uma mulher de letras ou uma metida a literata, ela pode produzir bastante ajudando seu marido a produzir, obrigando-o a controlar-se, a dar o máximo de si, ajudando-o a reerguer-se na hora das inevitáveis quedas, endireitando-o quando ele vacilar, consolando-o das decepções sem muita insistência para não ressaltá-las, acalmando-o na aflição, tornando-se sua grata recompensa depois da labuta.
Ao fim do trabalho, o homem está como que ferido; ele precisa ser abraçado e apaziguado: nada de pôr-se a pressioná-lo; deve-se relaxá-lo e encorajá-lo; que se demonstre interesse pelo que ele faz; que se dê apoio no momento em que ele estiver esmagado por um desgaste talvez excessivo, em suma, que se assuma o papel de mãe para ele, e esse indivíduo cheio de força, que se tornou um verdadeiro frouxo, sentirá seu vigor ressurgir para enfrentar novos tormentos.
Quanto aos filhos, eis uma doce complicação que deve ter a função de fazê-lo recobrar a coragem de preferência a despojá-lo parcialmente de seu ânimo. Eles tomam-lhe muito para si mesmos, esses pequeninos, e de que serviriam eles se não conseguissem de vez de quando “deixá-lo maluco”? Mas eles lhe dão energia na mesma medida, ou quem sabe até mais, do que aquela que gastam; eles podem alçar sua inspiração ao misturá-la com alegria; eles lhe espelham amorosamente a natureza e o homem, e o defendem assim da abstração; eles o trazem de volta ao real sobre o qual seus olhos inquisitivos lhe pedem um comentário acurado. Sua fronte pura lhe apregoa a integridade, essa irmã do saber, e sua facilidade em acreditar, em ter esperança, em sonhar alto e em tudo esperar da paternidade que os guia não é também para o senhor, pensador, uma elevação e uma razão para ter esperança? É-lhe dado ver uma imagem de Deus e um sinal de nossos destinos imortais nesse retrato do porvir.
Os que renunciaram à família no intuito de se entregar por inteiro à sua obra e Àquele que a inspira estão no direito de se felicitar, atribuindo o devido apreço às liberdades que são conferidas por esse sacrifício. Esses pensarão em seus irmãos cheios de incumbências repetindo-se a observação bem-humorada de Lacordaire acerca de Ozanam: “Há uma armadilha que ele não soube evitar, o casamento”. Mas o trabalhador comprometido num relacionamento pode e deve fazer desse relacionamento uma força, uma motivação para sua obra e uma das formas de seu ideal.