A Vida Intelectual: Seu espírito, suas condições, seus métodos

IV. Os instantes de plenitude

Chegamos aqui ao que não mais é preparo, prolongamento, pausa utilitária, descanso focado no trabalho, mas trabalho propriamente dito e tempo dedicado à concentração estudiosa, ao pleno esforço. Por isso chamaremos esses picos de nossa vida intelectual, considerada sob o aspecto de sua duração, os instantes de plenitude.

A maior parte desta pequena obra não tem outro fim a não ser o de discutir o emprego desse tempo. Assim, só poderá se tratar aqui de distribuí-lo nele mesmo, de centrá-lo, de preservá-lo, de resguardar a “cela interior” contra a invasão que a ameaça.

Tendo os momentos de nossa vida valores muito desiguais e obedecendo a partilha desses valores para cada um a leis diferentes, não se pode dar uma regra absoluta; mas deve-se insistir nisso. Se estudam, tenham respeito pelo que é sua vida, pelo que ela lhes permite, pelo que ela favorece ou proíbe, pelo que ela lhes propõe por si mesma para as horas de fervor produtivo.

Estas terão lugar pela manhã, no início noite, em parte de manhã e em parte ao cair da noite? Cabe unicamente aos senhores decidir, pois só os senhores conhecem suas obrigações e sua natureza, das quais depende a estrutura imposta a suas jornadas.

Quando se dispõe apenas de umas poucas horas as quais se pode distribuir livremente, parece que a manhã deva merecer a preferência. A noite restituiu-lhes as forças; a oração deu-lhes asas; a paz reina a seu redor e o enxame das distrações ainda não começou a zumbir. Mas, para alguns, contraindicações podem surgir. Se o sono for penoso, pode ocorrer que a manhã se mostre ansiosa e entorpecida. Ou está faltando a solidão; fica-se então à espera das horas de isolamento.

Seja como for, uma vez feita a escolha, será indispensável disponibilizar os instantes que se privilegiou e disponibilizar-se a si próprio para seu aproveitamento integral. Tudo deverá ser previsto para que nada venha atrapalhar, dissipar, reduzir ou enfraquecer essa preciosa duração. Querendo para ela a plenitude, excluam as preparações a longo prazo; tomem todas as medidas cabíveis; saibam o que querem fazer e como; reúnam seus materiais, suas anotações, seus livros; evitem ter de se desconcentrar por ninharias.

Além disso, para que esse tempo fique reservado e esteja realmente livre, tenham regularidade no horário e presteza no ato de levantar, além de uma alimentação leve; fujam das conversas vazias, das visitas inúteis; limitem a correspondência ao estritamente necessário; amordacem os jornais. Essas prescrições, que apresentamos como salvaguarda de toda vida de estudo, se aplicam sobretudo ao que constitui seu ponto central.

Estando assim tudo organizado, tudo previsto, logo estarão prontos para o trabalho; poderão se empenhar a fundo, absorver-se e tocar para frente seu intento; sua atenção não sofrerá distrações, seu esforço não ficará fragmentado. Fujam acima de tudo do trabalho feito pela metade. Não imitem aqueles que permanecem por longo tempo à escrivaninha com uma concentração relapsa. Mais vale restringir o tempo e intensificar seu emprego, ampliar seu valor, que é o que de fato conta.

Façam alguma coisa ou então não façam nada. O que decidirem fazer, façam-no fervorosamente, com potência máxima, e que o conjunto de sua atividade seja uma sequência de retomadas com força total. O trabalho pela metade, que é um descanso pela metade, não beneficia nem o descanso nem o estudo.

Invoquem então a inspiração. Se a deusa nem sempre atende, ela nunca deixa de ficar sensibilizada por esforços sinceros. Não se trata de ficarem excessivamente tensos, mas de se situarem, de mirarem o alvo e de limparem o campo visual, como um atirador, de tudo quanto não for o ponto de mira. Renovem o “espírito de oração”; estejam em estado de eternidade, com o coração submisso ao verdadeiro, o espírito sob as grandes leis, a imaginação estendida como uma asa, seu ser inteiro sentindo acima de si, mesmo durante o dia que elas nunca abandonam, as estrelas silenciosas. Sob seus pés, muito abaixo, estarão os rumores da vida, os senhores nem os perceberão mais, ouvirão tão somente o canto das esferas, que no sonho de Cipião simbolizam a harmonia das forças criadoras.

Abrir-se assim à verdade, abstrair-se de todo o restante, e, por assim dizer, comprar uma passagem para um outro mundo, eis o verdadeiro trabalho. É desse que falamos quando dizemos que duas horas por dia bastam para uma obra. Obviamente, é pouco, mas estando preenchidas todas as condições, em verdade, isso basta e vale mais que as pretensas quinze horas cujos ecos ficam abafados por tantos fanfarrões que vivem se vangloriando.

Certos carrascos do trabalho atingiram de fato cifras fabulosas; seu caso é o que se pode chamar de feliz monstruosidade, a menos que seja uma ruinosa demência. Os trabalhadores normais avaliam que um período de duas a seis horas é o ideal para um trabalho duradouro e realmente fértil. A questão mais importante não se situa aí, ela se situa no emprego, ela se situa no espírito.

Quem conhece o valor do tempo sempre dispõe do suficiente; não podendo alongá-lo, ele o alça, e antes de tudo não o encurta. O tempo tem uma espessura, como o ouro; mais vale uma medalha forte, bem cunhada e de contorno definido do que a lâmina adelgaçada pelo malho do batedor. Malho, malhador: a associação dos termos está aqui justificada. Muitos vivem de aparências, de caprichos improdutivos, de falatórios sem fim e de nenhum trabalho.

É preciso salientar que uma sessão de trabalho profundo não consegue ser mais uniforme do que a vida intelectual em seu todo. Ela tem proporcionalmente as mesmas fases; ela vai adquirindo treino, paulatina e, não raro, penosamente; ela dá o máximo de si, depois fica estafada. É um ciclo completo, com sua manhã de frescor, seu meio-dia ardente, seu anoitecer em declínio. É preciso ser o Josué deste fim de dia para que a batalha sempre curta demais possa prosseguir.

Teremos de voltar às condições dessa claridade protegida. Assinalarei agora uma só dentre elas: defender sua solidão com uma aspereza que não respeita mais nada. Se os senhores têm deveres, deem-lhes no devido tempo o que lhes cabe; se têm amigos, combinem encontros oportunos; se pessoas inconvenientes quiserem se impor, fechem-lhes cortesmente sua porta.

É premente, durante as horas sagradas, não apenas que não sejam interrompidos mas que saibam como proceder para não ter de sê-lo; que uma segurança absoluta os defenda desse lado, para permitir-lhes uma tensão proveitosa. Um luxo de precauções rigorosas nunca será excessivo. Que Cérbero esteja postado à sua porta. Toda exigência de fora é atendida com o que está lá dentro e pode custar a seu espírito a perda de valiosos

encontros. “Quando os semideuses se vão, chegam os deuses.”[17]

Tomem nota somente de que essa solidão completa, único meio favorável ao trabalho, não deve ser encarada materialmente. Uma presença pode redobrar, em vez de dissipar, sua quietude. Tenham por perto um trabalhador igualmente fervoroso, um amigo absorto em algum pensamento ou alguma ocupação harmoniosa, uma alma de alto nível que compreende sua obra, une-se a ela, apoia seu esforço com um afeto silencioso e um ardor que o seu acendeu: não se trata mais de distração, trata-se de uma ajuda.

Em certos dias, nas bibliotecas públicas, sentimos o recolhimento penetrar em nós e envolver-nos por todos os lados como uma atmosfera. Uma impressão religiosa nos subjuga; não ousaríamos divertir-nos, isso seria decair. Quanto mais houver a nossa volta desses adoradores que prestam ao verdadeiro um culto em espírito e em verdade, quanto mais estivermos sozinhos, tão somente diante do verdadeiro, mais a contemplação nos é simples e deleitável.

Um jovem casal, em cujo lar, no escritório do esposo, vê-se a mesa ou o cesto de trabalhos manuais da esposa, onde o amor sabe planar e manter silêncio, deixando suas asas flutuar ao sabor do vento dos sonhos nobres e da inspiração, é novamente uma imagem do trabalho. Na unidade da vida tal como um casamento cristão a inaugura, há um lugar para a unidade do pensamento e de seu recolhimento necessário. Quanto mais as almas gêmeas estiverem juntas, melhor elas se defenderão contra o exterior.

Seja como for, uma vez que esteja bem compreendida e bem preparada, a solidão deve ser defendida com obstinação. Não se deve dar ouvidos a ninguém, nem aos amigos indiscretos, nem aos familiares inconscientes, nem aos transeuntes, nem mesmo à caridade. Não se pode ter caridade por tudo ao mesmo tempo. Os senhores pertencem à verdade: a ela irá seu culto. À exceção dos casos indiscutíveis, nada deve prevalecer sobre a vocação.

O tempo de um pensador, quando ele o emprega verdadeiramente, é, analisando corretamente, uma caridade universal; só podemos apreciá-lo dessa forma. O homem do verdadeiro pertence ao gênero humano como o verdadeiro em si: nenhum egoísmo deve ser temido, quando em prol desse sublime e universal benfeitor dos homens nos resguardamos de modo absoluto.

Saibam aliás fazer com que sejam absolvidos afetuosamente por aqueles que estão sendo negligenciados e que ficam com isso magoados. Comprem a solidão; paguem suas liberdades esbanjando demonstrações de delicadeza e préstimos afáveis. É preferível que seu retiro seja mais proveitoso a todos que sua presença ativa. Em todo caso, que ele seja para os outros o menos oneroso possível. Quitem a dívida e que sua independência relativa tenha como contrapeso sua dependência absoluta quando as obrigações reaparecerem.