A Vida Intelectual: Seu espírito, suas condições, seus métodos
B – A organização da memória
I. O QUE É PRECISO MEMORIZAR
Instruir-se pela leitura não serviria de nada e refletir seria impossível se a memória não retivesse e não nos apresentasse no momento oportuno o que deve prestar serviço a nossa obra e ao trabalho do espírito.
Vários gênios gozaram de uma memória prodigiosa; a outros, faltou-lhes memória; a maioria a tinha medíocre e se via obrigada a suprir essa deficiência de diversas maneiras. Não se pode classificar os mestres segundo essa aptidão; é plenamente certo, entretanto, que, sendo as demais circunstâncias equivalentes, uma memória ampla e tenaz é um recurso valioso.
Não concluamos a partir disso que se deva exercer a memória sem discernimento e atulhar-se da maior quantidade possível de noções, de fatos, de imagens, de textos. Poderia parecer que é o que Santo Tomás diz quando escreve nos Dezesseis Preceitos: “Tudo o que puderes, deposita-o no tesouro de teu espírito, como aquele que tenciona encher um vaso”. Mas deve-se conceder a essa breve máxima o benefício de um subentendido. Deve-se reter na memória tudo quanto se puder contanto que seja útil, assim como, sob a mesma condição, lê-se tudo quanto se pode.
Já prevenimos o intelectual contra o abuso nas leituras. O que tínhamos a objetar a esse respeito é em grande parte válido também aqui, tendo em vista que lembrar-se é conservar aquisições das quais não se pode separar seja suas vantagens, seja seus desserviços.
Todos os mestres nos dizem que sobrecarregar a memória é prejudicial para o pensamento pessoal e para a atenção. O espírito fica afogado nesse volume todo de materiais; o que lá permanece sem uso deixa-o abarrotado e acaba paralisando-o; o peso morto oprime o vivo, o alimento em quantidade excessiva envenena; a prova disso nos é dada por todos esses pretensos eruditos com seu espírito falso e inerte, todas essas “bibliotecas vivas”, essas “enciclopédias ambulantes”.
Não se vive da própria memória, usa-se sua memória para viver. Gravem nos senhores o que pode ajudá-los a conceber ou a executar, assimilar-se a sua alma, preencher seus objetivos, revigorar sua inspiração e respaldar sua obra. Quanto ao restante, releguem-no ao esquecimento. E pode ocorrer que, eventualmente, muitas coisas que não pareciam dever chegar a ser aproveitáveis um dia, e que de fato habitualmente não o são, se revelem de grande utilidade; isso não é um motivo válido para dizer: não vamos jogar isso fora, nunca se sabe. Caso necessário, bastará tornarem a procurá-las; o papel nem sentirá seu peso. Só porque eventualmente se pode ter de tomar um trem qualquer, não se aprende de cor o horário de todos eles.
Pascal dizia que acreditava jamais ter esquecido algo que tivesse querido reter: eis a memória útil, com a condição de não querer reter senão o que tiver serventia. Quando Santo Agostinho define a felicidade como “não desejar nada que não seja o bem e ter tudo quanto se deseja”, ele define ao mesmo tempo a memória feliz. Confiem à sua o que é bom, e roguem a Deus que ele lhes conceda se lhe aprouver a graça de Pascal, aquela de Santo Tomás “em quem nada se perdia” ou a de Mozart, que reconstituía na íntegra, após a primeira audição, uma missa solene. Mas repito que uma tal graça não é indispensável; pode-se suprir essa deficiência sem danos irreparáveis e de que vale especular acerca de seu preço se temos de administrar o que nos foi dado, não o que nos falta?
Uma regra capital consiste em fazer com que a memória entre na corrente geral da vida intelectual e participe da vocação. A memória tem de se especializar como o espírito, na mesma medida, com a mesma concentração quanto ao principal e os mesmos alargamentos.
Há coisas que todo mundo é obrigado a saber, que todo cristão em particular deve manter presentes na mente; há as que um intelectual não pode ignorar; há outras que dependem da especialidade por meio de ligações mais ou menos diretas e que cada um sentirá necessidade de possuir segundo o espírito de amplidão ou de estreiteza que ele aí investir; há, por fim, as que constituem a especialidade em si e sem as quais fica-se abaixo da sua tarefa, o que é com toda a razão taxado de ignorância e de inércia culpada.
O que cada qual deve esforçar-se por manter bem vívido na mente e prestes a intervir à primeira solicitação é o que constitui sua base de trabalho, o que sabem, exatamente por esse motivo, todos os espíritos proeminentes da mesma profissão. Nesse particular, nenhuma negligência é admissível, e apenas a menor demora cabível. Quanto ao restante, se buscará progressivamente o que for exigido por um trabalho específico, sem preocupar-se demais em registrá-lo definitivamente.
Nos dois casos, vê-se que o ato de gravar parte de uma ideia preconcebida, como se dá na leitura; com a diferença de que um trabalho específico é uma vocação momentânea, a vocação, um trabalho duradouro, e de que a memória se adapta a ambas as situações.
Nicole sugere ao cristão “aprender de cor diversos salmos e diversas sentenças da Sagrada Escritura no intuito de santificar a memória mediante
essas divinas palavras”.[32] É uma maneira de consagrar a vocação celeste comum a todos nós e de facilitar o esforço rumo ao bem. Muito poucos são os que entendem nos dias de hoje semelhantes conselhos. Alguém, por exemplo, pode declamar longas passagens de Virgílio, de Racine, de Musset, mas estaria em apuros se tivesse de recitar um salmo e sequer consegue rezar o básico, o Angelus, o Salve Regina, o Te Deum, o Magnificat. Isto é sinal evidente de desordem. O que está unido a nosso espírito por laços de memória tem sobre ele maior poder de ação. Um católico deve desejar que essa ação atinja seu ponto máximo para com tudo que aviva sua fé. Ser-lhe-ia tão bom poder de vez em quando, ao longo do dia ou numa ocasião apropriada, repetir consigo mesmo fórmulas repletas de seiva cristã!