A Vida Intelectual: Seu espírito, suas condições, seus métodos
II. Escolher
Um grande trabalhador deveria contentar-se, quer me parecer, com a síntese semanal ou bimensal da atualidade e, quanto ao resto, ficando atento ao que se diz no geral, só recorrer aos jornais diários se lhe assinalarem algum artigo notável ou um evento muito grave.
Posso fazer um resumo a esse respeito dizendo: nunca leiam quando puderem recolher-se; leiam exclusivamente, excetuando-se os momentos de relaxamento, o que estiver relacionado com o objetivo a ser atingido, e leiam pouco, para não devorar o silêncio.
II. ESCOLHER
Nessas primeiras observações já se inclui o princípio da escolha. “Quanto discernimento”, dizia Nicole, “deve-se empregar no que serve de alimento a nosso espírito e que deve ser a semeadura de nossos pensamentos! Pois o que lemos hoje com indiferença despertará quando for a ocasião e nos fornecerá, até sem que percebamos, pensamentos que serão fonte de nossa salvação ou de nossa perdição. Deus desperta os bons pensamentos para nos salvar; o diabo desperta os maus pensamentos cujas
sementes ele encontra em nós”.[25]
Logo, é preciso escolher, o que significa duas coisas: escolher os livros e escolher nos livros.
Escolher os livros. Não se fiar nas propagandas interesseiras e nos títulos tentadores. Ter conselheiros dedicados e conhecedores. Saciar a sede unicamente nas fontes. Não ter relacionamentos senão com a elite dos pensadores. O que nem sempre é viável em matéria de contatos pessoais é fácil – e deve-se tirar proveito disso – em matéria de leituras. Admirar de coração o que merece sê-lo, mas não prodigalizar sua admiração. Desprezar as obras malfeitas, que são provavelmente mal pensadas.
Ler apenas em primeira mão, lá onde brilham as ideias mestras. Estas são pouco numerosas. Os livros se repetem, se diluem, ou então se contradizem, o que é uma outra maneira de se repetir. Se formos ver de perto, os achados do pensamento são raros. O fundo antigo ou, melhor dizendo, o fundo permanente é sempre o melhor; é preciso apoiar-se nele para comungar verdadeiramente com a inteligência do homem, longe das pequenas individualidades balbuciantes ou briguentas. Foi uma comerciante do mundo da moda (srta. Bertin) quem achou esta formulação: “Só é novo o que está esquecido”. A maioria dos escritores não passam de editores; já é alguma coisa, mas o autor está me chamando e vou já acudir.
Assim, deverão ler sem preconceito o que se escreve de bom; reservem para a atualidade a parte que lhe cabe; esta parte será ainda mais ampla quando se tratar de informação, de noções positivas em evolução ou em crescimento; os senhores querem fazer parte de seu tempo, não serão “gente ultrapassada”. Mas não tenham tampouco superstição pela novidade; amem os livros eternos, que dizem as verdades eternas.
Devem em seguida escolher nos livros, onde nem tudo tem valor equivalente. Nem por isso assumam a postura de juízes; sejam, antes, para com seu autor, um irmão na verdade, um amigo, e um amigo inferior já que, sob certos aspectos pelo menos, o tomam por guia. O livro é um ancião; deve-se honrá-lo, dirigir-se a ele sem orgulho, escutá-lo sem prevenção, tolerar seus defeitos, procurar o grão na palha. Mas os senhores são homens livres; mantenham-se responsáveis: resguardem-se o suficiente para preservar sua alma e, caso necessário, defendê-la.
“Os livros são as obras dos homens”, diz ainda Nicole, “e a corrupção do homem intervém na maioria de suas ações, e como ela consiste em ignorância e em concupiscência, quase todos os livros ressentem-se de
ambos os defeitos”.[26] Filtrar, a fim de depurar, é, pois, frequentemente necessário no decorrer de uma leitura. Para tanto, temos de nos confiar a Deus e ao melhor nós mesmos, ao nós mesmos que é filho de Deus e em quem um instinto do verdadeiro, um amor pelo bem servirá de salvaguarda.