A Vida Intelectual: Seu espírito, suas condições, seus métodos
II. Em que ordem memorizar
Resolvida a questão da quantidade, deve-se pensar na da ordenação do conteúdo. Uma memória não deve ser um caos. A ciência é um conhecimento pelas causas; uma experiência vale unicamente por suas conexões, seus agrupamentos e suas hierarquias de valores. Estocar amontoando tudo equivale a tudo tornar inutilizável e condenar-se a só rememorá-lo por mero acaso.
É plenamente recomendável que uma memória intelectual alcance ter as características da intelectualidade. Ora, esta não se satisfaz com noções díspares, sem afinidades específicas. Procurem sempre o que liga isto àquilo, o que condiciona isto e aquilo, e que seja essa coordenação, não fragmentos esparsos, que fique estabelecida em sua memória. Uma mente bem constituída é como uma árvore genealógica em que todas as ramificações estão presas ao tronco e desse modo comunicam-se entre si; os parentescos de todos graus aparecem claramente, revelando uma linhagem em todas as suas relações particulares e no conjunto.
E isso quer dizer que se deve relacionar tudo ao essencial, na memória tanto quanto no próprio pensamento. O primordial, o fundamental, o simples, do qual o complexo sai escalonado e por diferenciações sucessivas: eis o que sustenta a memória, como também a ciência, e a torna eficaz nos momentos em que ela deve intervir.
De nada serve ter adquirido miríades de noções se as noções primeiras, em vez de se acharem assim enriquecidas graças às situações de dependência manifestadas pela memória, ficam aí refreadas como que ante um obstáculo e veem dessa forma agravada sua ruinosa solidão. Cinquenta dados não valem mais que um se não expressarem a mesma relação profunda; esmigalhados, eles são infecundos e, como a figueira do Evangelho, ocupam a terra em vão.
Conservem antes de tudo – tal como dissemos que as procurassem antes de tudo – as ideias mestras; que elas estejam presentes à primeira chamada, prontas para clarear tudo quanto se oferecer aos senhores, para manter em seu devido lugar, apesar de eventuais contribuições novas, as ideias antigas, para desenvolver-se a si próprias por ocasião de cada progresso como o cérebro aproveita aquilo que o estômago recebe, e o coração o exercício praticado pelos membros.
Um pensamento novo age retrospectivamente; uma tocha aclara também para trás. Materiais desprezados se transfiguram quando resgatados em prol de algum conceito. Tudo então passa por uma recriação em nós e ganha vida nova. Mas para tanto é preciso que os caminhos da claridade estejam abertos, que nossos pensamentos estejam enfileirados e possam comunicar-se de um a outro.
Tendo resolvido sua organização interior, se estará quase que automaticamente protegido contra a sobrecarga e se constatará que dois preceitos aparentemente distintos não constituem por assim dizer senão um só. O inútil, que consegue abrir espaço para si no caos, não o consegue dentro de uma ordem. Que se tenha serventia, ou que não se tome espaço em vão! Há um certo ridículo na tentativa que alguém ou alguma coisa faz para invadir uma estrutura onde não lhe haviam previsto um lugar por não poder completá-la nem ser-lhe de qualquer ajuda. Toda hierarquia tem um sistema de controle próprio.
Estando desse modo mais aliviado e bem assentado, um espírito poderá dedicar-se a suas obras com força total; ele abordará diretamente seu assunto e não se demorará em ninharias que, para outros, é bem verdade, podem se tornar o principal.
Quando Pasteur esteve no sul do país para atacar e vencer rapidamente o mal que ameaçava a sericicultura francesa, ele não conhecia os costumes do bicho-da-seda; inquiriu-se a respeito um tanto distraidamente com o grande entomologista Henri Fabre. Este surpreendeu-se de início com a aparente leviandade do “parisiense”; mas bem depressa, vendo que Pasteur pesquisava em profundidade e trabalhava junto às próprias fontes da vida, ele compreendeu e mais tarde viria a exaltar essa simplicidade genial.
Há em cada matéria algumas ideias que tudo regem, que são chaves mestras; há as que regem também a vida, e é diante delas que se deve acender, no íntimo de nossos corações, a lâmpada do santuário.
A faculdade criadora depende em grande parte da sabedoria e da sobriedade da memória. O comprometimento com o essencial mantém abertas para o exterior todas as perspectivas, e a lógica do que se domina tende a estender-se a novas aquisições. Os pensamentos têm o papel de desencadear os pensamentos; só no rio pode chegar água; só se empresta aos ricos; ao que tem se lhe dará e ele terá em abundância, declara o Evangelho. Cada verdade é o alvorecer de uma nova verdade; toda possibilidade procura sua realização, e quando a ordem interior se coloca ao dispor da experiência, dá-se o mesmo que quando uma raiz mergulha na terra: sua substância se põe ao trabalho, seus filamentos se expandem e captam os sucos; a vida se amplia porque a adaptação do que está vivo a seu meio é a única condição para sua fertilidade tal como, no princípio, para sua substância.