A Vida Intelectual: Seu espírito, suas condições, seus métodos
II. A virtude própria ao intelectual
Temos agora a certeza de que a virtude tomada em sentido geral é necessária à ciência, e que, quanto maior a retidão moral nela investida, mais fecundo será o estudo. Há entretanto uma virtude própria ao intelectual, e convém insistir-se nela, se bem que ela deva reaparecer com frequência no decorrer destas páginas.
A virtude própria ao homem de estudo é evidentemente a estudiosidade. Que não haja precipitação em julgar isso um tanto simplicista: nossos mestres nessa doutrina incluíram aí muitas coisas, e daí excluíram muitas
outras.[4]
Santo Tomás classificava a estudiosidade sob a categoria da temperança moderadora, para indicar que, em si, o saber é sem dúvida sempre bem-vindo, mas que a constituição da vida nos pede para temperar, isto é, adaptar às circunstâncias e juntar às demais obrigações um apetite por conhecer que cai facilmente nos excessos.
Ao dizer excessos, refiro-me aos dois extremos. No reino da estudiosidade, dois vícios se opõem: a negligência de um lado, a vã curiosidade de outro. Não vamos nos deter aqui na primeira: se ela não for odiosa ao leitor na hora de fechar este livrinho, é porque ele terá se cansado no caminho ou porque nós teremos traçado muito mal o percurso. Mas não direi o mesmo acerca da curiosidade. Esta pode se aproveitar de nossos melhores instintos e viciá-los no exato instante em que simula estar satisfazendo-os.
Já mencionamos os intuitos ambiciosos que desorientam uma vocação intelectual. Sem chegar a tanto, a ambição pode contudo alterar a estudiosidade e seus efeitos úteis. Uma ação ambiciosa no que diz respeito à ciência não é mais uma ação científica, e aquele que a comete não merece mais o nome de intelectual.
Qualquer outra finalidade pecaminosa pediria o mesmo veredicto.
Por outro lado, o estudo, mesmo que desinteressado e íntegro em si, nem sempre é oportuno. Se não o for, o sujeito da ciência esquece sua função de homem, e que intelectual é esse que não é um homem?
Outros deveres que não os do estudo são deveres humanos. O conhecimento tomado no absoluto é sem dúvida nosso bem supremo; mas o que dele se experimenta aqui fica com frequência subordinado a outros valores que lhe serão equivalentes sob os auspícios do mérito.
Um pároco do interior que se sacrifica por seus paroquianos, um clínico que desleixa a ciência para prestar primeiros socorros, um filho de família que ingressa numa profissão para ajudar os seus e assim renuncia a sua disponibilidade para se cultivar não estão profanando seu gênio interior, estão prestando homenagem a esse Verdadeiro que é juntamente com o Bem um único e mesmo Ser. Se eles agissem de outro modo, não ofenderiam menos a verdade do que a virtude já que, por um desvio, eles iriam contrapor a ela mesma a Verdade viva.
Veem-se, dessa forma, muitos curiosos da ciência que não temem sacrificar-lhe suas mais estritas obrigações. Não são mais cientistas, são diletantes. Ou então eles deixam de lado o estudo que corresponde a suas obrigações para prosseguir aquele que preenche seus desejos, e a desqualificação é a mesma.
Os que almejam ir mais alto do que suas forças lhes permitem e se expõem ao erro, os que estragam suas faculdades efetivas para adquirir outras ilusórias, são igualmente curiosos no sentido antigo. Dois dos dezesseis conselhos de Santo Tomás em matéria de estudo são a eles dirigidos: “Altiora te ne quæsieris – não procures acima de teu alcance”. “Volo ut per rivulos, non statim, in mare eligas introire – quero que decidas entrar no mar pelos regatos, não diretamente”. Conselhos preciosos, proveitosos para a ciência tanto quanto para a virtude por equilibrarem o homem.
Não sobrecarreguem o solo e não levantem a edificação além do que a base pode sustentar ou antes que ela esteja firme: seria fazer com que tudo desmoronasse.
Quem são os senhores? Até que ponto chegaram? Que fundamentos intelectuais têm a oferecer? Eis o que é determinante para suas sábias empresas. Para colher o grande, comecem plantando o pequeno, como dizem os especialistas florestais, e vem a ser este, só que em outras palavras, o conselho tomista. O sábio começa pelo início e só dá o passo seguinte depois de ter firmado o anterior. Esse é o motivo pelo qual os autodidatas têm tantos pontos fracos. Não se consegue começar sozinho pelo começo. Quando nos juntamos ao grupo em andamento, ele põe a nosso dispor etapas já superadas sem indicar o caminho para sua superação.
Por outro lado, o que é verdade para cada um quanto às etapas de seu desenvolvimento é verdade para cada um em relação aos outros. Não se deve superestimar-se, e sim avaliar-se. Aceitar-nos tais como somos é obedecer a Deus e preparar para nós vitórias seguras. Será que a natureza procura ir além do que pode? Tudo nela tem sua medida certa, sem esforço inútil e sem avaliação hipócrita. Cada ser age segundo aquilo de que dispõe quantitativa e qualitativamente, segundo sua natureza e sua força, e depois permanece em paz. Só o homem vive de pretensões e de tristeza.
Que ciência e que virtude ficam patentes no julgar-se corretamente e permanecer o que se é! Há um papel que só a nós cabe desempenhar e que convém desempenhar com perfeição, em vez de tentar forçar a sorte. Os destinos não são intercambiáveis. Ao procurar subir demais ou nos rebaixar, acabamos por nos perder. Caminhem em frente seguindo seu próprio ritmo, com Deus por guia.
Santo Tomás acrescenta a essas precauções necessárias a preocupação em não deter sua curiosidade nos objetos cá na terra em detrimento do objeto supremo. Tiraremos daí, mais adiante, uma consequência importante
para a organização do trabalho;[5] mas, primeiramente, que o estudo não tome o lugar do culto, da oração, da meditação direta sobre as coisas de Deus. Ele próprio é um ofício divino, conquanto sob forma de reflexo; ele procura e homenageia os “vestígios” criadores ou ainda as “imagens”, de acordo com o que estiver investigando, a natureza ou a humanidade; mas ele deve ceder seu lugar, no devido tempo, ao contato direto. Se se esquecer disso, além de desconsiderar um dever de suma importância, a imagem de Deus no âmbito das coisas criadas forma uma barreira diante da nossa visão, e os vestígios não conseguem senão nos afastar para bem longe d’Aquele que eles atestam.
Estudar tanto que não mais se pratique a prece, o recolhimento, que não mais se leia nem a palavra sagrada, nem a dos santos, nem a das grandes almas, tanto que se caia no esquecimento de si mesmo e que, de tão concentrado nos objetos do estudo, se chegue a descuidar do hóspede interior, é um abuso e uma enganação. Supor que assim se progredirá e se produzirá mais equivale a dizer que o rio fluirá melhor se sua fonte secar.
A ordem do espírito deve corresponder à ordem das coisas. No real tudo se eleva ao divino, tudo dele depende, porque tudo dele provém. Na efígie do real em nós, as mesmas dependências se manifestam, a menos que tenhamos transtornado as relações do verdadeiro.