A Vida Intelectual: Seu espírito, suas condições, seus métodos
II. A concentração
Esse espírito de zelo deve conciliar-se com uma concentração que todos os homens com pensamento profundo nos recomendam. Não há nada tão desastroso quanto a disseminação. Difundir a luz é enfraquecê-la em proporções geometricamente crescentes. Pelo contrário, concentrem-na por meio da interposição de uma lupa, e o que mal estava aquecido pela livre radiação queima no foco onde a ardência se avulta.
Que seu espírito aprenda a exercer esse efeito de lupa, graças a uma atenção convergente; que sua alma esteja toda tendida para o que se instalou em seu interior sob a forma de ideia dominante, de ideia absorvente. Ordenem os trabalhos, de modo a poderem entregar-se a eles integralmente. Que cada tarefa os envolva a fundo, como se ela fosse única. Era o segredo de Napoleão; é o de todos os grandes ativos. Os próprios gênios não foram grandes senão pela aplicação de toda a sua força no ponto em que eles tinham decidido investir-se por completo.
Deve-se deixar cada coisa transcorrer por si, realizá-la no devido tempo, reunir todas as condições necessárias para esse fim, dedicar-lhe a totalidade dos recursos de que se dispõe e, uma vez que ela tiver sido executada, passar tranquilamente para outra. O que se acumula assim, sem arruinar-se em agitação inútil, é inacreditável.
Isso não quer dizer que não se possam ter vários trabalhos paralelos em andamento: isso é até necessário; pois para conseguir um certo distanciamento, para avaliar-se melhor e eventualmente corrigir-se, para descansar de um esforço por meio de outro, talvez também por razões acidentais, não se pode evitar a interrupção e a troca das tarefas. Mas então o que dizemos acerca da concentração se aplica a cada atividade e a cada retomada que lhe diga respeito. No momento em que se estiver desenvolvendo essa questão específica, será preciso excluir aquela outra, estabelecer um sistema de separação estanque, levar o mais longe possível o ponto abordado e só depois proceder a uma permuta.
Os vaivéns nunca levam a bons resultados. O viajante que se desloca às apalpadelas e opta sucessivamente por várias estradas fica estafado, perde o ânimo e não progride. Pelo contrário, prosseguir continuamente por um caminho e alternar retomadas enérgicas com descansos oportunos, o que se dá quando a primeira fase da atividade foi encerrada satisfatoriamente, é a maneira de produzir com rendimento máximo e ao mesmo tempo de conservar o pensamento em pleno frescor e a coragem intacta. A alma de um autêntico trabalhador, a despeito de suas preocupações múltiplas e sucessivas, deveria sempre, entre dois pensamentos fervorosos sobre o obstáculo, mostrar-se serena e nobre como a aglomeração das nuvens sobre a linha do horizonte.
Acrescente-se a isso que essa lei aplicável a toda atividade fica reforçada quando se tratar de pensamento puro, em razão da unidade do verdadeiro e da importância de manter todos os seus elementos em nosso campo de visão para que a claridade possa irromper. Cada ideia, por menor que seja, é de uma riqueza infinita. Estando interligada a todas as demais, ela pode assim se regenerar incessantemente. Enquanto suas dependências esclarecedoras se descobrirem, enquanto o verdadeiro irradiar, não distraiam o olhar, não larguem o fio que os conduz através do labirinto; semeiem o grão da reflexão fecunda e depois o da nova planta; não se cansem nem do cultivo nem da semeadura: um único germe vale por toda uma plantação.
Todas as produções de um espírito bem constituído deveriam ser apenas desdobramentos de um pensamento único, de um sentimento da vida que procura suas formas e suas utilizações. O sr. Bergson não o repetiu ainda recentemente? “Um filósofo digno desse nome”, escreve ele, “não disse senão uma única coisa”. Isso é tanto mais válido quando aplicado a todas as operações de um determinado período, de um empreendimento, de uma sessão de estudo, que devem assumir uma orientação e uma concentração obedecendo a uma rigorosa disciplina. Cavar sempre o mesmo buraco é o melhor meio de descer fundo e de tirar da terra os seus segredos.
Um dos efeitos dessa condensação será o de efetuar uma escolha na massa confusa de informações que quase sempre se apresenta a nós por ocasião das primeiras pesquisas. Pouco a pouco as conexões essenciais se descobrirão, e é nisso que consiste basicamente o segredo das obras marcantes. O valor não está, em circunstância alguma, na multiplicidade; ele se situa nas relações entre alguns elementos que dominam o caso todo, ou o ser todo, que fornecem a lei que o rege, e permitem consequentemente a seu sujeito a criação original, a obra que tem relevo e sólido alcance. Alguns fatos bem escolhidos ou algumas ideias firmes – digo firmes quanto a sua coerência e seus encadeamentos mais do que quanto a seu teor – são material suficiente para uma produção genial. Conduzir adequadamente suas investigações e centralizar adequadamente seus trabalhos, nisso consistiu toda a arte dos grandes; é o que, seguindo seu exemplo, é preciso que cada qual, por si, tente fazer para ir até o limite máximo de si mesmo.