A Vida Intelectual: Seu espírito, suas condições, seus métodos
IV. A disciplina do corpo
Como já dissemos, a doutrina da composição humana se opõe a uma dissociação das funções espirituais e das funções corporais, mesmo as mais estranhas, em aparência, ao pensamento puro. Santo Tomás concorda plenamente com este pensamento irônico de Aristóteles: “É tão ridículo
dizer: só a alma entende, quanto dizer: ela constrói ou ela tece”.[7] Ele próprio formula estas proposições aparentemente materialistas: “As diversas disposições dos homens às obras da alma se devem às diversas
disposições de seu corpo”.[8] “À boa compleição do corpo responde a
nobreza da alma.”[9]
Isso nada tem de surpreendente. O pensamento nasce em nós depois de longas preparações em que a máquina corporal em seu todo está em operação. A química celular é a base de tudo; as mais obscuras sensações preparam nossa experiência: esta é o produto do trabalho dos sentidos que elaboram lentamente suas aquisições e as fixam pela memória. É em meio a fenômenos fisiológicos, dando-lhes continuidade e sendo deles dependente, que o fato intelectual se produz. Ninguém pensa, mesmo que não esteja senão fazendo uso de uma ideia feita, sem evocar todo um conjunto de imagens, de emoções, de sensações, que são o caldo de cultura da ideia.
Quando queremos suscitar um pensamento em alguém, quais são os meios de que dispomos? Apenas deste: produzir nele pela palavra, pelos sinais, estados de sensibilidade e de imaginação, de emoção e de memória, nos quais ele descobrirá nossa ideia e poderá torná-la sua. Os espíritos não se comunicam senão pelo corpo. Da mesma forma, o espírito de cada um não se comunica com a verdade e consigo mesmo senão pelo corpo. Tanto é que a mudança pela qual passamos da ignorância à ciência deve ser atribuída, segundo Santo Tomás, diretamente ao corpo e só “por acaso” à
parte intelectual.[10]
Uma tal doutrina, constantemente retomada pelo Doutor, tão essencialmente, tão providencialmente moderna, não deve engendrar esta convicção segundo a qual, para pensar, sobretudo para pensar com ardor e sabedoria durante toda uma vida, é indispensável submeter ao pensamento não somente a alma e seus diversos poderes, mas também o corpo e todo o conjunto das funções orgânicas? Tudo, num intelectual, deve ser intelectual. As compleições física e mental, a substância homem, estão a serviço dessa vida especial que por certos ângulos parece tão pouco humana: vamos mantê-la livre de obstáculos! Vamos nos tornar uma harmonia cujo resultado será a conquista do verdadeiro.
Ora, existem aí duas coisas que se devem encarar, tanto uma como a outra, sem nenhum respeito humano, se bem que a primeira tenha a tendência de assustar os indivíduos espirituais com juízo pouco firme.
Antes de mais nada, não tenham vergonha de se preocupar em ter boa saúde.
Grandes gênios gozaram de uma saúde deplorável, e se Deus quiser que assim seja com os senhores, nem vamos mais tocar no assunto. Mas se for por sua própria opção, será um caso de tentação de Deus acarretando-lhes muita culpa. Estão certos, alunos dos gênios, de possuírem como eles vigor suficiente para sair em triunfo da luta permanente da alma contra a debilidade de sua carne? Nada indica que os próprios gênios não tenham visto suas taras fisiológicas desviar ou reduzir seus talentos. Não poucas anomalias intelectuais, nos mais bem dotados, se explicariam talvez dessa maneira, e a fraca produção de alguns teria a mesma explicação.
Em situação de igualdade de dons, é certo que a doença constitui-se num fator de séria inferioridade; ela diminui o rendimento; ela interfere na liberdade da alma nos momentos em que esta desempenha suas delicadas funções; ela distrai a atenção; ela pode falsear o raciocínio pelos efeitos da imaginação e da emotividade que o sofrimento provoca. Uma doença do estômago muda o caráter de um homem; seu caráter muda seus pensamentos. Se Leopardi não tivesse sido o aborto que foi, estaria ele incluído entre os pessimistas?
Consequentemente, quando se trata de levar uma vida elevada, não pensem estar rebaixando a discussão se se preocuparem, ao mesmo tempo que com o pensamento, com todos os seus substratos orgânicos. “Uma alma sã num corpo são” continua sendo o ideal. O pensador tem uma fisiologia especial; ele deve preservá-la e não hesitar em consultar o especialista nessa
arte.[11]
Em todo caso, as recomendações costumeiras devem ser seguidas. Uma boa higiene equivale para os senhores a uma virtude quase que intelectual. Para nossos intelectuais modernos, em quem a filosofia é às vezes tão pobre, a higiene é rica: não a desprezem, ela enriquecerá sua filosofia.
Levem tanto quanto possível uma vida ao ar livre. É um fato comprovado que a atenção, esse nervo da ciência, está em estreita correlação com a respiração e, para a saúde geral, é sabido que a abundância de oxigênio é uma condição básica. Janelas abertas ou entreabertas dia e noite quando a prudência o permitir, sessões frequentes de respirações profundas, principalmente se combinadas com movimentos que as ampliem e as normalizem, passeios antes e depois do trabalho, ou até mesmo entremeados com ele de acordo com a tradição grega: eis aí práticas excelentes.
É importante trabalhar numa postura que libere os pulmões e não comprima as vísceras. É salutar interromper de vez em quando uma sessão de estudo aplicado para respirar profundamente, para se estirar em dois ou três movimentos ritmados que relaxam o corpo e o impedem de ficar, por assim dizer, todo moído e alquebrado. Descobriu-se que inspirar profundamente e se alçando sobre a ponta dos pés, em frente à janela aberta, é ainda mais eficaz. Invistam nisso tudo para não incorrer numa congestão de seus órgãos e sua consequente debilitação.
Uma sessão de exercícios por dia faz-se necessária. Lembrem-se do comentário do médico inglês: “Aqueles que não encontram tempo para fazer exercícios terão de encontrar tempo para ficar doentes”. Se não puderem exercitar-se ao ar livre, há métodos alternativos excelentes. O de
J.-P. Muller é um dos mais inteligentes, mas existem outros.[12]
Os trabalhos manuais amenos e descontraídos seriam igualmente preciosos para a mente e para o corpo. Nossos pais não o ignoravam, mas nosso século tornou-se desvairado e incapaz de respeitar a natureza; é por isso que a natureza se vinga. Programem seriamente suas férias uma vez por ano e, acessoriamente, no decorrer do ano. E não entendo com isso ausência total de trabalho, o que seria relaxante demais para faculdades já por si inconstantes, e sim predominância do repouso, do ar livre e do exercício em plena natureza.
Sejam cuidadosos com sua alimentação. Comida leve, simples, moderada quanto à quantidade e ao preparo lhes permitirá maior prontidão e liberdade no trabalho. Um pensador não passa sua vida em sessões de digestão.
Vigiem mais de perto ainda seu sono. Não invistam nele nem muito nem muito pouco. Muito, torna pesados, ensebados, espessos o sangue e o pensamento; muito pouco os expõe a prolongar ou a superpor perigosamente as excitações do trabalho. Observem-se. Em matéria de sono como a respeito da alimentação, encontrem a medida certa e tomem a firme resolução de mantê-la. Não há nesse ponto uma lei geral.
Globalmente, compreendam que o cuidado com o corpo, instrumento da alma, é para o intelectual uma virtude e uma sabedoria; Santo Tomás reconhece-lhe plenamente essas qualidades e inclui a sabedoria do corpo entre os elementos que contribuem para a beatitude temporal, que dá ensejo
à outra.[13] Não se transformem em raquíticos, em fracassados que mais tarde se tornariam talvez estupidificados, velhotes prematuros, logo imbecis avarentos do talento a eles confiado pelo Mestre.
Mas a preocupação com esse consorte corporal comporta também outros elementos. Nós nos referimos às paixões e aos vícios como sendo formidáveis inimigos do espírito. Estávamos então focados em seus efeitos psicológicos, nas perturbações que eles trazem ao juízo, à orientação do espírito, que eles transformam, ao chegar a determinado grau, em potência das trevas. Atualmente trata-se de seus efeitos corporais que tornam a ser, indiretamente, doenças da alma.
Ao se permanecer um guloso, um preguiçoso, um escravo do travesseiro e da mesa; ao se abusar do vinho, do álcool, do tabaco; ao se entregar a excitações insanas, a hábitos ao mesmo tempo debilitantes e enervantes, a pecados talvez periodicamente perdoados mas cujos efeitos se prolongam, como se poderá praticar a higiene cuja necessidade acabamos de defender?
Um amigo do prazer é um inimigo de seu corpo e se torna depressa um inimigo de sua alma. A mortificação dos sentidos é exigida em prol do pensamento e é a única apta a nos levar a este estado de clarividência de que falava Gratry. Se obedecerem à carne, estarão prestes a se tornar carne, enquanto têm de se tornar inteiramente espírito.
Por que se chama Santo Tomás de Doutor angélico? Seria unicamente por seu gênio alado? Não, é porque tudo nele ficava subordinado ao pensamento genial e santo, porque sua carne, originária das margens tirrenas, se havia revestido das alvuras do Carmo e do Hermon; porque, casto, sóbrio, fervoroso e alheio a qualquer excesso, ele era todo alma, “uma inteligência servida por órgãos”, segundo a célebre definição.
A disciplina do corpo e sua mortificação, juntamente com os cuidados necessários dos quais, em si mesmas, elas constituem a melhor parte: tal é, trabalhadores cristãos, e sobretudo os senhores, homens jovens, uma das mais valiosas salvaguardas de seu porvir.