A Vida Intelectual: Seu espírito, suas condições, seus métodos
IV. Os alargamentos
Enfim, para enobrecer o espírito do trabalho, é preciso acrescentar ao fervor, à concentração, à submissão, um esforço de ampliação que confere a cada estudo ou a cada produção um alcance de certa forma total.
Um problema não pode permanecer encerrado em si. Ele transborda em razão de sua natureza própria, porque a inteligibilidade pela qual ele clama pertence a fontes mais elevadas que ele próprio. O que dissemos da ciência comparada nos é de grande ajuda aqui. Cada objeto de nosso estudo faz parte de um conjunto onde ele age e recebe ações, está subordinado a condições e impõe as suas; não se pode estudá-lo separadamente. O que recebe a denominação de especialidade ou análise pode perfeitamente ser um método, mas não deve ser um espírito. O trabalhador será ludibriado por seu próprio estratagema? Isolo uma peça de um mecanismo para vê-la melhor; mas, enquanto eu a seguro e meus olhos a observam, meu pensamento deve mantê-la em seu lugar, acompanhar seu desempenho no conjunto todo, do contrário estou alterando a verdade tanto no todo que ficou incompleto quanto na engrenagem que se tornou incompreensível.
O verdadeiro é um; tudo está interligado na verdade suprema única. Entre um objeto particular e Deus, há todas as leis do mundo, cuja amplidão vai aumentando a partir da norma aplicada a esse objeto até o Axioma eterno. Por outro lado, o espírito do homem também é um; sua estruturação não poderia se contentar com a mentira das especialidades enquanto esmigalhamento do verdadeiro e do belo em frações esparsas. Por mais restrita que seja sua investigação, por exíguo o caso que estiverem examinando, é o homem todo e o universo todo que estão, na realidade, em causa. O sujeito e o objeto almejam, ambos, o universal. Estudar verdadeiramente alguma coisa é evocar gradativamente o sentimento de todas as outras e de sua solidariedade, é mesclar-se ao concerto dos seres; é unir-se ao universo e a si mesmo.
Falávamos há pouco de concentração. Sabia-se, contudo, que não estávamos de modo algum tentando assim restringir o estudo. Concentrar e expandir não são, tal a sístole e a diástole, senão um mesmo e único movimento. Chamo de concentração a convergência da atenção sobre um ponto; chamo de expansão o sentimento de que esse ponto é o centro de um vasto conjunto, ou até mesmo o centro de tudo, pois na imensa esfera “o centro está por toda parte e a circunferência em parte alguma”.
Nossa mente tem esta dupla tendência: unificar os detalhes para chegar a uma síntese compreensiva; perder no detalhe, por esquecer-se de si mesmo, a consciência da unidade. É preciso equilibrar essas duas inclinações. A primeira corresponde ao objetivo da ciência, a segunda à nossa fraqueza. Temos de isolar para uma melhor penetração, mas a seguir temos de unir para uma melhor compreensão.
Logo, não coloquem, quando estiverem trabalhando, seu ponto de perspectiva baixo demais. Pensem lá do alto. Conservem a alma de um vidente ao esmiuçar um broto de verdade que desponta, e, mais justificadamente ainda, não apequenem as questões sublimes. Sintam-se em conexão com os grandes segredos, no sopro dos grandes seres; reparem na luz filtrada aqui e ali, mas que mais à frente passa desse fiozinho tênue a uma claridade que inunda os universos e se junta à Fonte pura.
Corot não pinta uma árvore esquecendo o horizonte; Velázquez coloca suas Meninas em pleno Escurial, em plena vida, seria mais verdadeiro ainda dizer-se em pleno Ser, pois é essa sensação de mistério do Ser que faz desse talento prodigioso um gênio que deixa atônita a alma ao encantar os olhos. É uma regra da arte de pintar, que se deva pensar sobretudo na parcela que não se pinta e, além disso, que esta parcela ceda seu lugar ao caráter, à abrangência global do tema, a seu prolongamento para fora da tela.
O artista, acerca do mínimo detalhe, deve se encontrar num estado de devaneio universal; o escritor, o filósofo, o orador, em estado de pensamento e emoção universais. Ao colocar o dedo num ponto do mapa-múndi, deve-se sentir toda a sua extensão e sua redondeza. É sempre do todo que se está falando.
Fujam desses espíritos que não conseguem jamais sair da escolaridade, que são escravos do trabalho em vez de colocá-lo diante de si em plena luz. Deixar-se amarrar em fórmulas limitadas e permitir que o espírito se petrifique em estruturas livrescas é uma marca de inferioridade que contradiz claramente a vocação intelectual. Hilotas ou eternas crianças: assim devem ser chamados esses pretensos trabalhadores, que estão fora de lugar em qualquer região mais elevada, diante de qualquer horizonte mais largo e que de bom grado reduziriam os outros à sua ortodoxia de gente primária e tacanha.
A genialidade consiste em ver no trabalho aquilo que não se colocará nele, e nos livros o que eles não conseguiriam dizer. As entrelinhas de um grande texto constituem seu verdadeiro tesouro; elas sugerem, elas levam a crer que nada é alheio aos mais profundos pensamentos do homem. Em vez de diminuí-los, de esvaziá-los, emprestem aos temas restritos o que constitui sua sólida substância, quer dizer, aquilo que não lhes pertence, mas é comum a eles e a outros, a eles e a todos, como a luz é comum às cores e a sua distribuição sobre os seres.
O ideal seria estabelecer em seu espírito uma vida comum de pensamentos que se interpenetrariam e resultariam por assim dizer em uma só. Assim é em Deus; pode-se chegar a modelo melhor para guiar de longe nossa pobre ciência?
O espírito de contemplação e de oração que estivemos requerendo nos aproximaria com toda a naturalidade desse estado; por si mesmo ele já dispõe desse fruto. Ao adotar o ponto de vista de Deus, graças ao qual cada coisa obtém sua junção suprema e toda sua coesão, devemos sentir-nos no centro de tudo, solicitados por riquezas e possibilidades inesgotáveis.
Querendo dar-se ao trabalho de refletir um pouco a respeito, constatar-se-á que a espécie de ofuscação que nos toma diante de uma verdade nova se deve a esse sentido das perspectivas indefinidas e das ligações universais. Esse único passo dado em direção ao verdadeiro é como uma excursão de luz. Vê-se o mundo sob um novo prisma; sente-se o todo palpitante pelo contato com o fragmento reencontrado. Mais tarde, essa ideia, resgatada para aquém dos confins onde ela desempenhava um papel de precursora, poderá parecer mesquinha àquele que ela fascinava. Não evocando nada além de si mesma, ela perde a vitalidade, ela decepciona o sentimento do infinito que é a alma de qualquer pesquisa.
Os grandes homens sofreram esse ressecamento das ideias. Sua visão era grande: eles acham seus resultados pequenos. Por isso deve-se lê-los também com um enfoque não literal, não livresco, com um espírito de superação que os remeterá de volta simplesmente a si mesmos. A letra mata: que a leitura e o estudo sejam espírito e vida.