A Vida Intelectual: Seu espírito, suas condições, seus métodos

III. A submissão ao verdadeiro

Mas um outro fator é ainda mais importante, é o de nos submetermos paralelamente à disciplina do trabalho, à disciplina do verdadeiro, e esta é a condição imprescindível para ficar em contato com a verdade. Uma pronta obediência: eis o que chama em nós a verdade. Para esse encontro solene, temos de trazer uma alma reverente. A verdade só se revela se estivermos primeiramente despojados e inteiramente determinados a que ela, e tão somente ela, nos baste. A inteligência que não se entrega está num estado de ceticismo, e o cético está mal equipado para a verdade. A descoberta é obra da simpatia; ora, quem diz simpatia, diz dom.

Pelo pensamento nós encontramos algo, nós não o fazemos. Recusar nossa submissão à verdade é não poder encontrá-la, e não nos submetermos com antecedência é esquivar-nos do encontro com ela. Cedendo diante do verdadeiro e verbalizando-o para nós mesmos da melhor maneira possível, mas sem cometer alteração criminosa, prestamos um culto ao qual o Deus interior e o Deus universal responderão revelando sua unidade e estabelecendo uma ligação com nossa alma. Nisso como em tudo, é a vontade pessoal que é a inimiga de Deus.

Essa submissão pressupõe a humildade, e teríamos de lembrar aqui o que dizíamos das virtudes para o reinado da inteligência; pois as virtudes têm todas elas por base a exclusão da personalidade orgulhosa que sente repulsa pela ordem. Intelectualmente, o orgulho é o pai das aberrações e das criações factícias; a humildade é o olho que lê no livro da vida e no livro do universo.

O estudo poderia se definir pelas seguintes palavras: é Deus que toma em nós consciência de sua obra. Do mesmo modo que qualquer ação, a intelecção vai de Deus a Deus como que através de nós. Deus é a causa primeira dela. Ele é seu fim último: nessa passagem, nossa emoção transbordante pode fazer com que o ímpeto se desvie. Vamos de preferência abrir os olhos com sabedoria, para que nosso Espírito inspirador veja.

Nosso intelecto é globalmente uma potência passiva; é-se forte, intelectualmente, na medida em que se é receptivo. Não é que seja o caso de reagir; mas a reação vital sobre a qual nos alongaremos não deve alterar em nada o conteúdo de nossas aquisições, ela apenas as torna nossas. Uma vasta cultura, ao se instalar no espírito, cria nele novos pontos de partida e aumenta sua capacidade; porém, sem a humildade, essa atração exercida sobre o exterior se tornará por sua vez uma fonte de mentiras. Pelo contrário, ao espírito culto e humilde, as luzes vêm de todos os lados, elas se agarram a ele como a aurora aos cumes.

Além da humildade, é recomendável ao pensador uma certa passividade de atitudes adequada à natureza do espírito e à da inspiração. Conhecemos mal o funcionamento do espírito; mas sabemos que a passividade é sua lei básica. Conhecemos ainda menos as vias da inspiração; mas podemos constatar que ela faz uso em nós muito mais da inconsciência do que das iniciativas. Progredimos através das dificuldades como um cavaleiro dentro da noite: mais vale nos fiarmos a nossa montaria que tomar insensatamente as rédeas.

Uma atividade excessivamente intencional torna nossa inteligência menos segura e menos receptiva. Por ficarmos demasiadamente ansiosos, permanecemos centrados em nós mesmos, quando compreender é tornar-se outro e sujeitar-se a uma invasão muito positiva. Tentem pensar no objeto da ciência, não em si próprios, assim como quando se fala, deve-se falar no espaço, não em suas próprias cavidades. Os cantores sabem do que estou falando; aqueles que experimentaram alguma inspiração também me entenderão. É preciso olhar através do espírito, em direção às coisas, não dentro do espírito, mais ou menos esquecidos das coisas. No espírito, há aquilo por meio de que se vê, mas não aquilo que se vê: que o meio não nos distraia do fim.

“O essencial é estar em êxtase”, escreve o pintor de afrescos Louis Dussour, “e ao mesmo tempo tentar entender como é que tudo se encadeia e se constrói”. Às vezes falta o êxtase, outras vezes a construção. Mas aqui é a primeira que nos interessa.

Eis o trabalho profundo: deixar-se penetrar pela verdade, submergir-se nela mansamente, nela afogar-se, não mais pensar que se pensa, nem que se é, nem que nada no mundo é, afora a própria verdade. Tal é o bem-aventurado êxtase.

Para Santo Tomás, o êxtase é filho do amor. Ele os transporta para o exterior, em direção ao objeto de seus sonhos: amar a verdade com o fervor suficiente para nela concentrar-se e assim transportar-se para dentro do universal, para dentro do que é, no âmago das verdades permanentes, é a atitude de contemplação e de produção fecunda. Está-se então encolhido sobre si, mas com o olho fito sobre a presa, como uma fera, e a vida interior está intensa, mas com um sentimento de lonjura, como se se circulasse pelos astros. A sensação é de se estar simultaneamente realizado e acorrentado, livre e escravo; de se ser plenamente si mesmo entregando-se ao ser mais alto do que si mesmo; de exaltar-se perdendo-se: é o nirvana da inteligência deslumbrada e poderosa.

Assim, façam o possível, se forem visitados por esse espírito, para não desanimá-lo e repeli-lo por uma forma de trabalho inteiramente artificial e exterior. Se ele estiver ausente, apressem seu retorno rogando-lhe humildemente. Sob o maravilhamento divino, terão mais a ganhar em pouco tempo do que em muito entregues apenas a seus pensamentos abstratos, “pois um dia nos teus átrios, Senhor, vale mais que mil”(Salmos 84:10).

Protelem tanto quanto possível o retorno da atividade desenvolvida por vontade própria, o despertar da Esposa. Que seu espírito seja a cera, não o sinete, para que a marca da verdade permaneça pura. Pratiquem o santo abandono; obedeçam a Deus; sejam como o poeta inspirado, como o orador que uma onda interior carrega para o alto e em quem o pensamento perdeu o peso.

Por outro lado, tendo de receber também dos homens pela leitura, pelo ensino, pelos relacionamentos, apreciem esta regra de ouro inserida por Santo Tomás entre seus Dezesseis Preceitos: “Não olhes de quem tu ouves as coisas, mas tudo o que se disser de bom, confia-o à tua memória”.

A história das ciências está repleta de resistências entre um talento e outro, entre um gênio e outro, entre uma facção e outra, entre uma capelinha e outra. Laënnec discorda de Broussais, Pouchet de Pasteur; Lister tem toda a Inglaterra contra ele, Harvey toda a humanidade com mais de quarenta anos. Tem-se a impressão de que a verdade é por demais luxuriante e de que é preciso conter sua proliferação. Entretanto, as leis do mundo submetem a si a matéria: por que o espírito tem tanta dificuldade em sujeitar o espírito?

Em I Coríntios (cap. 14) está dito que se ao menor dos fiéis em oração algo for revelado, os demais devem calar-se e ouvi-lo. Ao que se segue este comentário de Santo Tomás: “Ninguém, por mais sábio que seja, deve

rejeitar a doutrina de um outro, por pequeno que ele seja”,[24] e isto é uma referência a outro conselho paulino: “Considerai, com toda a humildade, todos os outros superiores a vós” (Filipenses 2:3). É superior, naquele momento, aquele que se encontra mais perto da verdade e recebe sua luz.

O que importa num pensamento não é sua proveniência, são suas dimensões; o que é interessante no próprio gênio não é nem Aristóteles, nem Leibniz, nem Bossuet, nem Pascal, é a verdade. Quanto mais preciosa for uma ideia, menos importância tem saber de onde ela provém. Elevem-se à indiferença para com as fontes. A verdade, e só ela, tem direito, e ela tem direito onde quer que ela apareça. Da mesma forma que não se deve tornar-se vassalo de ninguém, deve-se ainda menos desprezar quem quer que seja, e se não é cabível “crer em todos”, não se deve tampouco recusar-se a acreditar em seja quem for, contanto que apresente suas credenciais.

Aí é que está a grande liberdade, e sua recompensa é tão ampla que a avareza a arrebataria para si, se não achasse mais justificada a opção de montar guarda diante de seus cofres. Acreditamos muito facilmente deter tudo, ser capazes de tudo, e só damos ouvidos de modo muito distraído às vozes alheias. Só uns poucos privilegiados, homens ou livros, retêm nossa atenção e nos servem de inspiradores. Ora, a inspiração está por toda parte; o Espírito sopra no fundo dos vales tanto quanto ronda os cumes. Na mais pobre das inteligências está um reflexo da Sabedoria infinita, e a profunda humildade sabe identificá-la.

Como não se sentir na presença de Deus, quando um homem está a ensinar? Não é ele a própria imagem divina? Imagem às vezes deformada, mas frequentemente autêntica, e a deformação sempre é apenas parcial. Perguntar-nos qual seria o custo da retificação e em que medida o correto se mantém seria uma reação mais produtiva do que levantar os ombros ou contestar duramente. Contestar nunca leva a nada; mais vale a reflexão. Por toda parte onde o Deus da verdade deixou algo de si, temos de nos prontificar a recolher, a venerar religiosamente e utilizar com esmero. Pois nos lugares por onde passou o semeador eterno não obteremos nós uma boa colheita?