A Vida Intelectual: Seu espírito, suas condições, seus métodos
III. A especialidade
Completemos sem delongas o que acabamos de dizer acerca da ciência comparada, para que não se pense que sob esse pretexto estejamos forçando uma ciência enciclopédica. Quanto mais se souber, sob certas condições, tanto melhor; mas, em verdade, as condições não podendo ser preenchidas – hoje menos do que nunca –, o espírito enciclopédico é inimigo da ciência.
A ciência constitui-se de profundidade mais do que de superfície. A ciência é um conhecimento pelas causas e as causas mergulham como raízes. É sempre preciso sacrificar a extensão à penetração, pela razão de que a extensão, em si mesma, não é nada, e que a penetração, ao nos introduzir no centro dos fatos, nos fornece a substância do que se procurava numa busca sem fim.
Argumentamos no sentido de uma certa extensão, porém era em prol da própria profundeza e a título de formação. Uma vez obtida a formação e assegurado o aprofundamento de suas possibilidades, é preciso pôr-se a cavar, e só a especialização o permite.
Ocorre frequentemente que o que é indispensável num primeiro momento se torne hostil posteriormente. A hostilidade se manifestaria aqui de inúmeras maneiras e ela acarretaria a decadência do espírito por diversos caminhos.
Em primeiro lugar, cada um tem suas capacidades, seus recursos, suas dificuldades interiores ou exteriores, e é o caso de se perguntar se seria sábio cultivar tanto aquilo para o que se foi feito quanto aquilo que fica mais ou menos fora de sua alçada. Vencer uma dificuldade é bom e é necessário, mas a vida intelectual não deve virar uma acrobacia permanente. É muito importante trabalhar num estado de alegria, logo de facilidade relativa, logo segundo suas aptidões. É preciso, seguindo num primeiro momento por diversos caminhos, descobrir-se a si mesmo e, uma vez a par de sua vocação específica, nela estabelecer-se.
Em seguida, um perigo está à espreita dos espíritos que se expandem em demasia: o de se contentar com pouco. Satisfeitos com suas explorações através de tudo, eles interrompem seu esforço; seus progressos, acelerados de início, são os de um fogo-fátuo sobre a terra. Nenhuma energia se despende por muito tempo se não for estimulada pela dificuldade crescente e sustentada pelo interesse também crescente de escavações trabalhosas. Tendo o conjunto sido examinado, avaliado em suas relações e sua unidade à luz dos princípios fundamentais, torna-se urgente, se não se quiser andar sem sair do lugar, lançar-se numa tarefa específica, delimitada, proporcional a suas forças, e entregar-se a ela desde então do fundo do coração.
Nossas propostas de há pouco encontram aqui sua recíproca. Dizíamos: é preciso tomar diversos caminhos para experimentar a sensação dos encontros; é preciso abordar a terra usando de largueza para chegar a profundezas. Feito isso, se se pensar exclusivamente em cavar no centro, o estreitamento aparente trará proveito ao espaço todo, o fundo do buraco mostra o céu inteiro. Assim que se sabe algo a fundo, contanto que não se seja totalmente ignorante quanto ao restante, este restante em toda a sua extensão se beneficia da viagem rumo às profundezas. Todos os abismos se parecem e todos os fundamentos se comunicam.
Além disso, supondo-se que se decida enfrentar com uma mesma e duradoura energia todos os ramos do saber, de pronto se estará diante de uma tarefa impossível. O que se fará então? Tendo pretendido ser legião, se terá esquecido de ser alguém; visando ser gigante, fica-se diminuído enquanto homem.
Cada qual, na vida, tem sua obra; ele tem de se dedicar a ela com aplicação e coragem, e deixar para outrem o que a Providência reserva para outrem. Deve manter-se distante da especialização enquanto se tratar de tornar-se um homem culto e, no tocante ao herói destas páginas, um homem superior; mas é necessário novamente apelar para a especialidade quando se tratar de ser um homem no exercício de uma função e propondo-se a ter um rendimento útil. Em outras palavras, é preciso compreender tudo, mas com o objetivo de conseguir fazer alguma coisa.