A Vida Intelectual: Seu espírito, suas condições, seus métodos

II. O intelectual não é um isolado

Uma outra característica da vocação intelectual consiste no fato de que o trabalhador cristão, que é um consagrado, não deve ser um isolado. Qualquer que seja a situação, por mais abandonado ou retirado que se suponha que esteja materialmente, ele não deve se deixar tentar pelo individualismo, imagem deformada da personalidade cristã.

A solidão vivifica tanto quanto o isolamento paralisa e esteriliza.

De tanto ser uma alma, acaba-se por deixar de ser um homem, diria Victor Hugo. O isolamento é inumano; pois trabalhar humanamente é trabalhar com o sentimento do homem, suas necessidades, suas grandezas, solidariedade que nos une numa vida intimamente partilhada.

Um trabalhador cristão deveria viver constantemente no universal, na história. Já que ele vive com Jesus Cristo, não pode dele separar as épocas, nem os homens. A vida real é uma vida una, uma vida de família imensa com a caridade por lei: se o estudo quer ser um ato de vida, não uma arte pela arte e uma monopolização do abstrato, ele deve deixar-se reger por essa lei de unidade cordial. “Rezamos diante do crucifixo” diz Gratry – devemos também trabalhar diante dele – “mas a verdadeira cruz não está isolada da terra”.

O verdadeiro cristão manterá permanentemente diante dos olhos a imagem desse globo onde a cruz está fincada, onde os humanos necessitados erram e sofrem, e onde o sangue redentor, em filetes numerosos, procura vir a seu encontro. A porção de claridade que ele detém o reveste de um sacerdócio; o que ele quer alcançar com isso é uma promessa implícita de dom. Toda verdade é prática; a mais abstrata em aparência, a mais elevada, é também a mais prática. Toda verdade é vida, orientação, caminho em vista do fim humano. Eis porque Jesus Cristo disse como uma afirmação única: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”.

Trabalhem pois sempre num espírito de utilização, como prega o Evangelho. Ouçam o gênero humano rumorejar a seu redor; identifiquem, em meio a todos, tais e tais, indivíduos ou grupos, de quem conhecem a indigência; descubram o que pode arrancá-los da noite, enobrecê-los, o que, de perto ou de longe, os salva. Não há santas verdades que não sejam as verdades redentoras, e não seria em vista de nosso trabalho como de tudo o mais que o Apóstolo disse: “A vontade de Deus é que sejais santos”?

Jesus Cristo precisa de nosso espírito para sua obra como ele precisava, sobre a terra, de seu próprio espírito humano. Tendo ele partido, nós lhe damos continuidade; temos essa honra incomensurável. Somos seus “membros”, consequentemente seu espírito por participação, consequentemente seus cooperadores. Ele age por nós no exterior e por seu Espírito inspirador no interior como quando, estando vivo, agia no exterior por sua voz e no interior por sua graça. Nosso trabalho sendo uma necessidade dessa ação, trabalhemos como Jesus meditava, como ele se provia, para distribuir, nas fontes do Pai.