A Vida Intelectual: Seu espírito, suas condições, seus métodos
III. Como proceder para memorizar
O meio da ciência é o cosmo, que já é – em si – organização, estrutura: é preciso e é o quanto basta, para que o homem de estudo progrida, que ele estabeleça dentro de si, graças à memória, uma estrutura correspondente que lhe permita adaptar-se, e dessa maneira agir.
III. COMO PROCEDER PARA MEMORIZAR
Falta dizer como se obtém uma memória com essa qualificação e como utilizá-la. Não é segredo nenhum, conquanto isso decorra das bases mais profundas de nossa vida mental.
Santo Tomás propõe quatro regras:
1ª ordenar o que se quer reter;
2ª nisso investir profundamente o espírito;
3ª sobre isso meditar frequentemente;
4ª quando se quiser rememorá-lo, tomar a cadeia de dependências por
uma extremidade, a qual acarretará todo o restante.[33]
Ele acrescenta acessoriamente, baseando-se em Cícero, que é bem-vindo fazer a junção entre a memória das coisas intelectuais e aquela das coisas sensíveis, pois estas últimas, diz ele, são o objeto próprio do intelecto e pertencem por si mesmas à memória, as outras só indiretamente,
acidentalmente.[34]
A importância da ordem já havia sido lembrada de outro ponto de vista, mas para registrar a recordação, cada qual já teve a oportunidade de passar por essa experiência. Uma sequência de palavras, de números, de ideias ou de elementos sem nexo é muito difícil de alojar em nós. Esses itens avulsos não se acomodam em parte alguma; cada um fica aí como que perdido e some num piscar de olhos. Uma série, pelo contrário, forma um todo e consegue defender-se. O que se apoia em sua própria razão e em seu agrupamento natural, o que mergulha em seu meio social corre um risco de dispersão bem menor. Só aquilo que existe se conserva, e um elemento não existe senão pela metade quando separado dos elementos conexos.
Logo, se quiserem memorizar, prestem atenção nas ligações e nas razões das coisas; analisem, procurem os porquês, observem a genealogia dos eventos, as sucessões e as dependências, imitem a ordem matemática, onde a necessidade parte do axioma e resulta nas mais longínquas conclusões. Compreender a fundo, aprender depois e introduzir em seu espírito não elos e mais elos, e sim uma cadeia, é assegurar a aderência do conjunto. A união faz a força.
A aplicação do espírito, que se recomenda a seguir, tem o objetivo de pressionar o misterioso buril que grava em nós a figura das palavras e das coisas. Quanto mais fervorosa for a atenção, mais o buril entalha e mais os traços resistirão ao fluxo permanente que tende a substituir as ideias como a morte substitui os seres. Quando lerem ou escutarem no intuito de aprender, estejam inteiramente concentrados e inteiramente presentes; repitam como que em voz alta tudo quanto lhes for dito; martelem isso sílaba por sílaba. Falo em sentido figurado; mas algumas vezes, aplicá-lo ao pé da letra pode trazer certas vantagens. Estejam em condições, tão logo estiver lido ou ouvido aquilo de que se tratar, de dizê-lo novamente na exata medida em que seja o caso de fixá-lo. Se se tratar de um livro, não o larguem antes de poder resumi-lo, apreciá-lo. Acrescento esta última palavra porque o objeto que provocou uma intervenção ativa de nossa parte se torna muito menos fugidio; ele fica assimilado à pessoa.
Depois disso, meditar com toda a frequência que for possível e que mereça o objeto a preservar do esquecimento, eis uma necessidade consecutiva da primeira. A vida apaga os rastros da vida, e por esse motivo era-nos aconselhado burilar com força. O mesmo motivo nos incentiva, ao constatar que apesar de tudo as marcas se enfraquecem, a passar de novo o buril nos entalhes, a não poupar a água-forte, isto é, a revigorar constantemente nossos pensamentos úteis e a ruminar os fatos que queremos manter à vista.
A agitação do espírito é contrária a esse trabalho, de modo que uma vida tranquila e um distanciamento das paixões são exigidos para um bom uso da memória tanto quanto para o de todas as funções intelectuais.
A faculdade da admiração, o frescor da alma diante da natureza e da vida contribuem igualmente com a lembrança. Rememora-se melhor o que foi marcante. Mais uma razão, depois de tantas outras, para que o intelectual cultive esse sentimento do novo em folha, do sempre novo, que é o ponto de partida para impulsões vigorosas rumo a criações fecundas ou rumo à pesquisa.
Por fim, tratando-se de recobrar a lembrança e de reativar imagens antigas, o conselho é apoiar-nos uma vez mais sobre este fato das dependências mútuas entre os pensamentos, entre as impressões, que serviu de base à constituição da memória. Tudo se encadeia em maior ou menor grau no cérebro, mesmo sem que se queira: tendo querido com todas as nossas forças e tendo elaborado meticulosamente as ligações o mais naturais possível entre as noções, só nos restará recolher os lucros.
Que não se procure, pois, ao acaso num todo que não foi construído ao acaso; que se proceda logicamente, utilizando a lógica das coisas tal como ela se impõe por si mesma, ou tal como foi concebida de início, subindo ou descendo ao longo das séries estabelecidas, invocando a contiguidade das ideias, das circunstâncias, em suma, trazendo de volta à força para o foco da atenção aquilo que a atenção fixara e estocara de acordo com suas leis.
É o que Santo Tomás chama de puxar a corrente, e a ponta da corrente que ele aconselha a pegar é a que se apresenta como sendo a mais imediatamente dependente do que estamos procurando. Um exemplo: lembro-me de ter pensado num plano de estudo; esse plano me escapa, mas sei que eu estava na ocasião em tal lugar, ou que eu conversava com tal amigo, ou que isso estava relacionado com tal conjunto de operações espirituais, com tal aspecto de minha vocação, ou ainda que o projeto se inspirara numa leitura anterior, ou era exigido por trabalhos prévios. Para recuperar a ideia que se esfumou, eu recordarei a impressão do lugar, do entorno amigável, do conjunto ideológico, do papel a desempenhar, do livro analisado ou do trabalho executado. Partindo daí, explorarei a vizinhança e, fazendo diversas tentativas, procurarei encontrar o que sei estar ligado com um desses dados.
Para resumir, o que importa à memória não é tanto a quantidade de suas aquisições e sim primeiramente sua qualidade, em segundo lugar sua ordenação e por fim a habilidade para sua manipulação. Os materiais não são o que falta ao pensamento, é o pensamento que lhes faz falta. Aprender não é nada sem assimilação inteligente, penetração, encadeamento, unidade progressiva de uma alma rica e organizada.
O que é interessante não é o canteiro de obras, é a arquitetura, e é sobretudo o espírito do morador. Tenham uma aspiração elevada, uma atenção fervorosa, emoção diante do verdadeiro, dedicação pela pesquisa, e terão recordações suficientes.