A Vida Intelectual: Seu espírito, suas condições, seus métodos

C – As anotações

I. COMO ANOTAR

Somos obrigados a nos repetir com frequência. Se o fazemos ao máximo para falar das leituras, da memória e das anotações, é que esses três itens formam, por assim dizer, uma coisa só. Trata-se, com isso tudo, de completar-nos para poder, no devido tempo, realizar nossa obra.

Deve-se ler relativamente pouco; deve-se reter na memória muito menos ainda, e a natureza, quanto ao restante, assume o controle. As anotações, que são uma espécie de memória exterior a nós, uma “memória de papel”, dizia Montaigne, devem restringir-se imensamente por comparação com as leituras; mas elas podem se expandir mais que a lembrança, suplementá-la, consequentemente aliviá-la e vir ao socorro do trabalho numa medida difícil de se estipular.

Se fosse preciso fiar-se à memória para conservar intacto e pronto para uma utilização imediata o que encontramos ou descobrimos no decorrer de nossa vida estudiosa, seria uma grande infelicidade. A memória é infiel por natureza; ela perde, soterra, e não obedece aos chamados. Recusamos impor-lhe excesso de peso, abarrotar o espírito; preferimos a liberdade da alma à riqueza indigesta. A solução é a caderneta de anotações ou o arquivo de fichas.

Além disso, a memória classifica a seu modo e nós tentamos ajudá-la, mas suas classificações são cheias de caprichos e de instabilidade. Para encontrar no momento certo a recordação certa, seria necessário um domínio de si de que mortal algum é capaz. Nessa altura, novamente os cadernos e os fichários virão nos socorrer. É indispensável organizar nossas reservas, depositar nossas economias no banco, onde elas não se acrescerão, é verdade, de nenhum juro, mas não deixarão de estar em lugar seguro e à disposição. Nós é que seremos o caixa.

As práticas, nesse ponto, são muito diversificadas; há porém algumas leis gerais que é sempre bom lembrar, para que cada um possa nelas se inspirar.

Dois tipos de apontamentos podem ser distinguidos, correspondentes à preparação distante ou à preparação imediata do trabalho. Os senhores leem ou meditam para formar-se e alimentar o espírito; apresentam-se ideias que lhes parecem interessantes para se registrar; fatos, indicações diversas aí estão que bem que poderão voltar a ser úteis; os senhores os anotam. Por outro lado, tendo de estudar um assunto específico, de realizar uma produção, os senhores procuram documentar-se, leem o que se publicou sobre o assunto, recorrem a todas as fontes de informação de que dispõem e refletem por si, tudo isso com a pena na mão.

A primeira categoria de notas tem por característica ser um tanto fortuita. Apenas os limites da especialidade e a sabedoria de suas leituras podem reduzir nelas a proporção do acaso. Como a vida é sempre complexa, o espírito é fugaz e nós mesmos pregamos os alargamentos, há muito de aleatório introduzindo-se nas anotações dessa categoria. Pelo contrário, quando se anota com vistas a produzir, tendo a produção um caráter definido, as notas também se definem, cercam bem de perto o tema abordado e formam um todo relativamente orgânico.

Há, para esses dois grupos de anotações, regras comuns e regras particulares.

Nos dois casos, é preciso evitar o excesso, o abarrotamento dos materiais em que se fica depois imerso e se tornam inaproveitáveis. Certas pessoas têm cadernos tão cheios e tão numerosos que uma espécie de desânimo prévio os impede de sequer vir a abri-los. Esses pretensos tesouros custaram muito tempo e muito empenho, e não dão o menor rendimento; um monte de não-valores os entope; suas próprias utilidades poderiam com frequência permanecer de modo bem mais proveitoso nos volumes de que foram tirados, bastando uma simples menção à fonte com um breve resumo em lugar de páginas e mais páginas enfadonhas.

Tenham anotações feitas usando de raciocínio, de sobriedade. Para evitar as surpresas de um primeiro contato, o efeito de preocupações passageiras e também os arroubos causados às vezes por uma expressão brilhante, arquivem definitivamente depois de transcorrido um certo tempo. Com tranquilidade, com distanciamento, avaliarão suas colheitas e armazenarão tão somente o bom grão.

Nos dois casos igualmente, anota-se após um vigoroso trabalho mental e em função de um sentido de necessidade pessoal. Trata-se de se completar a si mesmo, de se preencher a si mesmo, de se armar com uma panóplia verdadeiramente à sua medida e à altura das demandas da batalha que se pretende enfrentar. Que uma coisa seja bela e boa, que ela seja preciosa teoricamente, não é uma razão para escrevê-la. Graças a Deus, há muitas belas coisas nos livros: vão então recopiar a biblioteca nacional inteira? Não se compra uma jaqueta por ser bonita mas por ser de seu tamanho, e um móvel que se admirou na loja de antiguidades deve permanecer lá se nem suas dimensões nem seu estilo convierem ao aposento a mobiliar.

Evitem incorrer em caprichos qualquer que seja a situação. Tal como a leitura é nutrição e a lembrança uma possessão enriquecedora que está integrada à pessoa, as anotações são uma reserva alimentar e pessoal também. Leituras, lembranças, notas, tudo isso deve nos rematar, logo assemelhar-se a nós, ser de nossa espécie, estar dentro de nosso papel, de nossa vocação, responder a nossos fins e à forma dos gestos pelos quais podemos e queremos realizá-los.

Sabe-se o quanto uma escrituração contábil pode dar uma ideia bem completa de seu proprietário, de seu modo de vida e dos objetivos que ele procura alcançar: o registro de anotações, o arquivo de fichas, deveria estar próximo assim do intelectual, do que ele deve e quer ser. Aí está o levantamento do haver, nem que seja parcial, e essa conta tem de corresponder ao possuidor de um lado, à despesa presumida de outro. Estou refletido em minhas obras: tenho de me refletir em meus meios, se consegui adaptá-los convenientemente uns aos outros tanto quanto a mim mesmo.

Melhor ainda, seria desejável que além dos documentos propriamente ditos, fatos, textos ou estatísticas, as anotações que fossem feitas estivessem não só adaptadas aos senhores, mas dos senhores, e isso não apenas quando emanam de suas reflexões, mas também quando procedem de uma leitura. A leitura também deve ser pensada, e dizíamos que um empréstimo pode tornar-se nosso a ponto de não mais se diferenciar de uma autêntica criação.

Leio, e ao ler escrevo; porém escrevo o que eu penso em contato com outrem, mais do que escrevo o pensamento de outrem, e meu ideal é que isso seja verdadeiro mesmo se transcrevo textualmente, não tendo a esperança de expressar melhor o pensamento comum. O escritor é aquele que concebe e também eu concebo o que eu me aproprio em profundidade, o que me esforço por penetrar, por compreender no sentido pleno da palavra, o que faço meu: sou, pois, seu escritor também e coloco-o à parte como uma riqueza própria.

No tocante às notas tomadas a distância, não há mais nada de essencial a ser considerado. De perto, visando um trabalho, é necessário primeiramente reforçar a aplicação de nossas regras, e é preciso acrescentar o que se segue.

Pedíamos que a maneira de anotar fosse pessoal, quer dizer, estivesse em relação exata com o escritor: é preciso que ela esteja ainda em relação rigorosa com a obra a executar. Os senhores têm um objeto preciso: pensem nele intensamente; que seu espírito trace, se for o caso, um plano provisório segundo o qual orientarão suas leituras e suas reflexões, também segundo o qual anotarão isto ou aquilo que irá preenchendo os campos programados. Claude Bernard declarava que uma observação científica é uma resposta a uma pergunta que o espírito coloca a si próprio, e que só se encontra, na realidade, aquilo que se procura. Da mesma forma, uma leitura inteligente é uma resposta possível à pergunta que foi suscitada em nós pelo tema a tratar; assim, é preciso ler num estado de espera, como se acompanha com os olhos, na saída de uma estação ferroviária, a leva de passageiros em que se funde um amigo.

Como consequência, que a leitura seja cada vez mais tendenciosa, que ela não se paute mais unicamente na vocação e na pessoa, mas também naquilo para o qual ambas estão voltadas no momento. Uma leitura desse tipo equivale à adoção de uma norma de ação pré-determinada. Ora, uma norma é tal qual um crivo que retém o grão desejado e deixa passar os demais. Não se distraiam; não se demorem; tenham exclusivamente seu objetivo presente diante de si, sem qualquer consideração pelo do autor, que talvez seja totalmente diferente. Ouso dizer, a despeito do que esta palavra tem de desagradável e de contraindicado em quase todos os casos: usem antolhos, para melhor se concentrarem naquilo que, neste exato momento, exige-os presentes por inteiro.

Há aqui dois procedimentos um pouco diferentes que talvez caiba empregar alternadamente, conforme a natureza da obra.

Os senhores podem montar um plano detalhado e só depois reunir a documentação. Podem começar pela documentação, por reflexões e leituras que pressupõem obviamente algumas diretrizes, mas sem um plano propriamente dito. Passam então a rodear o assunto, a encará-lo sob todos os seus aspectos, a sondá-lo tentando não deixar nada por explorar; ideias de planos vão surgindo e os senhores as anotam, como Pascal, quando escreve encabeçando um fragmento: ordem; os senhores separam os documentos a utilizar sem alterações; fixam as ideias a desenvolver, assinalando apenas, se elas se apresentarem, suas características principais; mencionam os termos adequados, as comparações acertadas que lhes ocorrerem; vez por outra redigem um trecho inteiro, não na intenção de dá-lo por encerrado, mas porque surgiu espontaneamente e a inspiração é como a graça, que passa e não volta mais.

Quando acharem ter esgotado a matéria, quero dizer quanto ao que pretendem ou esperam, seu trabalho está pronto; o canteiro está repleto de materiais dentre os quais alguns não têm forma, outros foram talhados provisoriamente. Falaremos dentro em pouco da construção; mas já se vê que o plano provirá nesse caso dos próprios materiais, e não os materiais do plano.

Este último procedimento, que parece o menos lógico, e que de fato tem menos lógica, falando-se de modo abstrato, tem a vantagem de deixá-los mais soltos em suas reflexões e em seus estudos preparatórios, de entregá-los mais à inspiração, de mantê-los na alegria, em função de poderem encontrar sem se obrigarem a procurar de modo excessivamente direcionado, de poderem ir, voltar, protelar, esperar uma boa disposição e só trabalhar num estado de frescor, sem imposição mental.

Uma obra pode, assim sendo, estar pronta sem ter sido começada; todo seu valor está determinado em suas anotações; o plano lá está de modo latente, com todas as alternativas de combinações que os arquitetos preveem ao montar um projeto; mas a matéria está apreendida, dominada e os senhores estão seguros, estando definido o plano, de que não será um esquema arbitrário, um sistema de campos numerados a serem necessariamente preenchidos mesmo que às vezes os senhores não tenham para colocar lá nada que seja como um jorro espontâneo e, consequentemente, vivo.

Os apontamentos considerados sob esse enfoque, anotações de estudo, anotações de inspiração, não podem ser feitos quando se está “à toa”; constituem um trabalho efetivo, deve-se reservar sua busca para o que chamamos de momentos de plenitude. As outras anotações, sem escapar à obrigação do esforço, terão por vezes um caráter de feliz achado, de acaso. As melhores serão entretanto as que um estudo aprofundado os incita a colher e a armazenar como a riqueza de uma vida.