A Vida Intelectual: Seu espírito, suas condições, seus métodos
II. Conservar a solidão
Na organização da vida, o ponto essencial a resguardar e em vista do qual se opta por todo o restante são as medidas a serem tomadas interna e externamente em prol da solidão. Santo Tomás atribui-lhe tamanha importância que dos dezesseis conselhos ao intelectual, sete ele dedica aos relacionamentos e ao retiro. “Quero que sejas lento para falar e lento para dirigir-te ao parlatório.” “Não te inquiras de nenhum modo sobre os atos de outrem.” “Mostra-te amável para com todos”, mas “não sejas familiar demais com ninguém, pois familiaridade demais gera desprezo e dá ensejo a muitas distrações”. “Não te imiscuas de nenhum modo em palavras e ações seculares.” “Evita acima de tudo os deslocamentos inúteis.” “Ama tua cela, se queres ter acesso ao celeiro de vinhos.”
O celeiro de vinhos de que aqui se fala, alusivamente ao Cântico dos Cânticos e ao comentário de São Bernardo, é o abrigo secreto da verdade, cujo cheiro atrai de longe a Esposa, isto é, a alma ardente; é o refúgio da inspiração, o lar do entusiasmo, do gênio, da invenção, da busca calorosa, é o palco dos jogos do espírito e de sua sábia embriaguez.
Para ingressar nessa morada, deve-se deixar de lado as banalidades, deve-se praticar o retiro, cuja cela monástica é o símbolo. “Nas celas, como ao longo dos grandes corredores”, escreve Paul Adam (Dieu [Deus], pág. 67), “o silêncio assemelha-se a uma pessoa magnífica, trajada da brancura das paredes, a velar”. Que está ela a velar, senão a prece e o trabalho?
Sejam, pois, lentos para falar e lentos para ir ao local onde se fala porque muitas palavras fazem o espírito esvair-se como água; paguem com sua cortesia para com todos o direito de frequentar verdadeiramente apenas aqueles poucos com quem o relacionamento é proveitoso; evitem, mesmo com esses, uma familiaridade excessiva que rebaixa e desorienta; não corram atrás das novidades que ocupam o espírito em vão; não cuidem de ações e de conversas seculares, isto é, sem repercussão moral ou intelectual; evitem os trâmites inúteis que desperdiçam as horas e favorecem a ociosidade do pensamento. Tais são as condições do recolhimento sagrado. Só assim é possível aproximar-se dos segredos reais que fazem a felicidade da Esposa; só mediante esse comportamento é possível apresentar-se com todo o respeito diante da verdade.
O retiro é o laboratório do espírito. A solidão interior e o silêncio são suas duas asas. Todas as grandes obras foram preparadas no deserto, inclusive a redenção do mundo. Os precursores, os continuadores e o Mestre se submeteram ou devem se submeter à mesma lei. Profetas, apóstolos, pregadores, mártires, pioneiros da ciência, inspirados de todas as artes, simples homens ou Homem-Deus, todos pagam um tributo ao isolamento, à vida silenciosa, à noite.
É durante a noite astral e dentro de sua vacuidade solene que o universo foi sovado pelo Criador: aquele que quiser desfrutar das alegrias da criação não deve apressar-se em pronunciar o fiat lux – faça-se luz – nem sobretudo em passar em revista todos os bichos do mundo; sob as sombras propícias, que ele tome, como Deus, todo o tempo de que precisar para preparar a matéria dos astros.
Os mais belos cantos da natureza ressoam à noite. O rouxinol, o sapo com voz de cristal e o grilo cantam à sombra. O galo proclama o dia e não fica a esperá-lo. Todos os anunciadores, todos os poetas, e também os catadores e pescadores de verdades avulsas, têm de mergulhar na grande vacuidade que é uma plenitude.
Nem um grande homem sequer tentou escapar disso. Lacordaire dizia que ele tinha feito para si em seu quarto, entre sua alma e Deus, “um horizonte mais vasto que o mundo” e tinha conseguido obter para si “as asas do repouso”. Emerson se proclamava “um selvagem”. Descartes se trancava em seu “forno”. Platão havia declarado que ele consumia “mais azeite em sua lâmpada do que vinho em seu cálice”. Bossuet levantava-se à noite para seu encontro com o gênio do silêncio e da inspiração; os grandes pensamentos não lhe vinham senão longe do barulho e dos problemas fúteis. Não tem todo poeta a impressão de estar meramente traduzindo, em seus versos, as misteriosas revelações do silêncio, que ele ouve, segundo a expressão de Gabriele d’Annunzio, como “um hino sem voz”?
O que realmente conta deve erguer uma barreira entre si e o que não conta. A vida banal e os ludibria de que falava Santo Agostinho, os jogos e as brigas de criança que um beijo acalma, devem cessar sob o beijo da musa, sob a carícia inebriante e apaziguante da verdade.
“Para que tu vieste” perguntava a si próprio São Bernardo acerca da clausura: ad quid venisti? E o senhor, pensador, para que veio a essa vida fora da vida comum, essa vida de consagração, de concentração, e, em decorrência, de solidão? Não teria sido em virtude de uma escolha? Não houve uma preferência pela verdade à mentira cotidiana de uma vida dispersiva, ou até mesmo às preocupações elevadas, conquanto secundárias, voltadas para a ação? Assim sendo, como mostrar-se infiel a seu culto, deixando-se ser absorvido pelo que optou livremente por descartar?
Para que o Espírito nos leve para as solidões interiores, como Jesus para o deserto, temos de lhe ofertar as nossas. Sem recolhimento não há inspiração. Mas sob o círculo de luz da lâmpada, como num firmamento, todos os astros do pensamento se reúnem.
Quando a tranquilidade do silêncio sobe em nós e o fogo sagrado crepita por si, bem afastado da barulheira das estradas, e quando a paz, que é a tranquilidade da ordem, instaura a ordem das ideias, dos sentimentos, das investigações, estamos na disposição máxima para a aprendizagem, podemos juntar e, a seguir, criar; estamos literalmente ao pé da obra: não é hora de dar ouvidos a choradeiras, de cuidar da vidinha enquanto o tempo voa e de vender o céu a troco de quase nada.
A solidão lhes proporciona o contato consigo próprios, contato tão indispensável se quiserem realizar-se, a si próprios, e não ser mais o papagaio de um punhado de fórmulas que aprenderam, e sim o profeta do Deus interior que com cada um fala uma linguagem única.
Vamos retomar com vagar essa ideia de uma instrução especial conferida a cada um, de uma formação que é uma educação, isto é, uma expansão de nossa alma, alma única e que não teve nem terá uma igual a ela através dos séculos, pois Deus não se repete. Mas é preciso ter consciência de que não se pode sair assim de si a não ser quando se está vivendo consigo mesmo, de muito perto, na solidão.
O autor da Imitação dizia: “Nunca estive entre os homens sem ter de lá regressado menos homem”. Levem a ideia mais adiante e digam: que não tenha de lá regressado menos homem do que sou, menos eu mesmo. Na multidão, nós nos perdemos, a menos que nos seguremos com firmeza, e primeiro é necessário criar essa amarra. Na multidão, nós nos ignoramos, estando atravancados por um eu estranho a nós que é múltiplo.
“Qual é teu nome? – Legião”: esta seria a resposta do espírito dispersivo e dissipado em sua vida exterior.
Os higienistas recomendam para o corpo o banho de água, o banho de ar e o banho interior de água pura. Eu acrescentaria para a alma o banho de silêncio, a fim de tonificar o organismo espiritual, de acentuar sua personalidade e de lhe dar um sentimento ativo dela, como o atleta sente seus músculos e prepara o jogo destes pelos movimentos internos que são a própria vida da musculatura.
Disse Ravignan: “A solidão é a pátria dos fortes, o silêncio é sua prece”. Que prece à Verdade, de fato, e que força de cooperação para sua influência, num recolhimento prolongado, frequentemente retomado, a horas certas, como que para um encontro marcado que se tornará pouco a pouco uma continuidade, um convívio plenamente partilhado! Não se pode, diz Santo Tomás, contemplar o tempo todo; mas aquele que vive apenas para a contemplação, que norteia em sua direção todo o restante e a retoma assim que o consegue, lhe dá uma espécie de continuidade, tanto quanto é
possível sobre a terra.[14]
A serenidade também terá aí participação, pois a “cela onde nos detemos de modo adequado se torna doce: cella continuata dulcescit”. Ora, a doçura da contemplação faz parte de sua eficácia. O prazer, explica Santo Tomás, aperta a alma contra seu objeto, tal como uma ferramenta de serrar; ele reforça a atenção e expande as capacidades de aquisição, que a tristeza ou o tédio comprimiriam. Quando a verdade captá-los e a penugem de sua asa docemente se colocar sob sua alma para erguê-la em harmoniosos impulsos, é hora de elevarem-se com ela e de planarem, enquanto ela os sustentar, nas altas regiões.
Nem por isso os senhores se tornarão os isolados que nós condenávamos; não estarão mais distantes de seus irmãos por terem se afastado do barulho que eles fazem e que os separa deles espiritualmente, impedindo assim a verdadeira fraternidade.
O próximo, para o senhor, intelectual, é o ser que necessita da verdade, como o próximo do bom Samaritano era o ferido na estrada. Antes de dar a verdade, adquira-a, e não jogue fora o grão de sua semeadura.
Se a palavra da Imitação é verdadeira, longe dos homens se será mais homem e se estará mais com os homens. Para conhecer a humanidade e para servi-la, é preciso entrar para dentro de si, lá onde todos os nossos objetos ficam em contato conosco e tomam de nós quer nossa força da verdade, quer nossa potência do amor.
Unir-se ao que quer que seja só pode ocorrer na liberdade interior. Deixar-se dominar, perturbar, seja por pessoas ou coisas, é trabalhar pela desunião. Longe dos olhos, perto do coração.
Jesus bem nos mostra que se pode estar voltado inteiramente para dentro e inteiramente entregue aos outros, inteiramente aos homens e inteiramente em Deus. Ele preservou sua solidão. Ele não tocou na multidão a não ser com uma alma de silêncio cuja palavra é como a porta estreita para as trocas da caridade divina. E que eficiência soberana, nesse contato que reservava tudo, exceto o ponto preciso pelo qual Deus podia passar e as almas podiam ir a seu encontro!
Não deveria precisamente haver lugar, entre Deus e a multidão, senão para o Homem-Deus e para o homem de Deus, para o homem da verdade e do dom. Aquele que se crê em união com Deus sem estar em união com seus irmãos é um mentiroso, diz o apóstolo; não passa de um falso místico e, intelectualmente, um falso pensador; mas aquele que está unido aos homens e à natureza sem estar unido a Deus em segredo, sem ser freguês do silêncio e da solidão, não é mais do que o súdito de um reino de morte.