A Vida Intelectual: Seu espírito, suas condições, seus métodos

V. O senso do mistério

Está já claro o bastante que o senso do mistério deve perdurar, mesmo depois de nosso esforço máximo e mesmo depois que a verdade deu a impressão de ter comparecido com um sorriso. Os que pensam tudo compreender só com isso já provam que não compreenderam nada. Os que se contentam com respostas provisórias para problemas que na realidade se colocam permanentemente deturpam a resposta que lhes é dada, pois desconhecem que ela é parcial. Toda pergunta é um enigma que a natureza nos propõe, e Deus por seu intermédio: o que Deus propõe, só Deus pode resolver. As portas do infinito estão sempre abertas. O que há de mais precioso em cada coisa é o que não se expressa. Não foi Biot que, tendo sido abordado por um colega nestes termos: “Vou fazer-lhe uma pergunta interessante”, respondeu: “É inútil: se sua pergunta é interessante, eu não tenho a resposta”? “Não sabemos tudo sobre nada” diz Pascal, e “para compreender a fundo uma só coisa”, acrescenta Claude Bernard, “seria preciso compreendê-las todas”. Pode-se dizer da plena verdade acerca de um assunto qualquer o que dizia de Deus Santo Agostinho: “Se entendes, então dize a ti mesmo que não é o que entendeste”. Mas o espírito limitado acredita possuir o cosmo e sua riqueza; segurando um balde com três litros de água reluzente, ele diz: “Vejam, capturei o oceano e os astros”.

Santo Tomás, no fim da vida, tomado pelo sentimento do mistério de tudo, respondia ao frei Réginald, que o incitava a escrever: “Réginald, não me é mais possível: tudo o que escrevi não me parece nada mais do que palha”. Não tenhamos a presunção de desejar que esse alto desespero venha cedo demais; ele é uma recompensa; é o silêncio precursor do grande grito que fará vibrar a alma inteira ao ser invadida pela luz; mas um pouco desse transtorno emocional é o melhor dos corretivos para o orgulho que cega e para as pretensões que desnorteiam. É também um estimulante para o trabalho, pois as luzes distantes nos atrairão enquanto conservarmos a esperança de alcançá-las. Pelo contrário, se achamos que tudo está dito e basta aprender, trabalhamos dentro de um círculozinho e lá nos imobilizamos.

Um caráter elevado sabe que nossas luzes não passam de gradações de sombra pelas quais subimos rumo à claridade inacessível. Balbuciamos, e o enigma do mundo é perfeito. Estudar significa conferir precisão a algumas condições, estabelecer a classificação de alguns fatos: só se estuda com grandeza ao colocar esse pouco sob os auspícios daquilo que ainda se ignora. Não equivale a colocá-lo na escuridão; pois a luz que não se vê é a que melhor sustenta os reflexos de nossa noite astral.

O mistério é em todas as coisas a luz do conhecido, como a unidade é a fonte da quantidade, como a imobilidade é o segredo das corridas vertiginosas. Sentir em si o rumor de todo o ser e de toda a duração, chamá-los a testemunhar, é novamente, apesar do silêncio em que eles se mantêm, cercar-se das melhores garantias para a obtenção do verdadeiro. Tudo está interligado a tudo, e as claras relações dos seres mergulham nessa noite onde penetro tateando.