A Vida Intelectual: Seu espírito, suas condições, seus métodos
VI. Preservar em tudo o silêncio interior
Parece-me resultar disso tudo que a solidão útil, o silêncio e o retiro do pensador são realidades abrandadas, mas fundamentadas num espírito com alto grau de exigência. É com vistas ao retiro, ao silêncio e à solidão íntima que a ação e os relacionamentos são tolerados e é em função deles que são dosados. Assim deve ser, se verdadeiramente o intelectual é um consagrado, e se não se pode servir a dois senhores.
O espírito de silêncio será, pois, exigido onde se estiver. É ele sobretudo que importa. Diz-se às vezes que a solidão é a mãe das obras. Não, e sim o estado de solidão. Tanto que podemos, a rigor, conceber uma vida intelectual fundada num trabalho com duração de duas horas por dia. Seria possível pensar que, estando essas duas horas a salvo, a conduta subsequente se daria como se elas não existissem? Seria um erro de entendimento muito grave. Essas duas horas são ofertadas à concentração, mas nem por isso deixa-se de requerer a consagração da vida inteira.
Um intelectual deve ser intelectual o tempo todo. O que São Paulo sugere ao cristão – quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei tudo pela glória de Deus – deve se aplicar ao cristão em busca de luz. A glória de Deus é para ele a verdade: ele deve pensar nela onde quer que esteja, submeter-se a ela em tudo. A solidão que lhe é recomendada é menos uma solidão de lugar do que uma solidão de recolhimento; ela é elevação mais do que afastamento; ela consiste em se isolar pelo alto, graças ao dom de si às coisas superiores e mediante a fuga das leviandades, das divagações, da mobilidade e de toda vontade caprichosa; ela realiza a Conversatio nostra in cælis do apóstolo ao levar nossa morada e nosso trato ao céu dos espíritos.
Ficar em casa e se entregar a um falatório interior, ao embate dos desejos, à exaltação do orgulho, à corrente de pensamentos que introduzem em nós um meio exterior absorvente e repleto de discórdia, seria de fato isso a solidão? Há uma falsa solidão tal como há uma falsa paz. Em contrapartida, sair e agir por dever, por sabedoria ou pelo propósito de se distrair, cuja necessidade voltaremos a defender mais adiante, pode constituir uma solidão superior, que alimenta e tonifica a alma em vez de diminuí-la.
O que Santo Agostinho chama de “pureza da solidão” pode ser preservado em toda parte; sua impureza pode manchar até seu próprio refúgio. “Tu podes estar numa cidade”, escreveu Platão, “como um pastor em sua cabana no alto de uma colina”. Tenham a inspiração interior, o comedimento, o amor daquilo a que se entregaram, tenham a seu lado o Deus da verdade, e estarão sozinhos em pleno universo.