A Vida Intelectual: Seu espírito, suas condições, seus métodos
III. O espírito de oração
Essas disposições ficarão a salvo se, independentemente da devoção preexistente ao estudo, se cultivar no próprio trabalho o espírito de oração.
É novamente Santo Tomás que diz ao apaixonado pela ciência: “Orationi vacare non desinas – não abandones jamais a oração” e Van Helmont nos explica esse preceito por essas sublimes palavras: “Todo estudo é um estudo da eternidade”.
A ciência é um conhecimento pelas causas, dizemos nós constantemente. Os detalhes não são nada; os fatos não são nada; o que importa são as dependências, as comunicações de influência, os laços, as trocas que constituem a vida da natureza. Ora, por trás de todas as dependências, há a dependência original; no nó de todos os laços, o Laço supremo; no topo das comunicações, a Fonte; sob as trocas, o Dom; na sístole e na diástole do mundo, o Coração, o imenso Coração do Ser. Não deve o espírito a ele voltar-se continuamente e não perder por um minuto sequer o contato com o que é deveras o todo de todas as coisas e por conseguinte de toda ciência?
A inteligência não assume plenamente seu papel senão quando exerce uma função religiosa, isto é, quando cultua o verdadeiro supremo através do verdadeiro diminuído e disperso.
Cada verdade é um fragmento que expõe por todos os lados suas amarras; a Verdade em si mesma é una, e a Verdade é Deus.
Cada verdade é um reflexo: por detrás do reflexo e conferindo-lhe valor, está a Luz. Cada ser é uma testemunha; cada fato é um segredo divino: para além está o objeto da revelação, o herói do testemunho. Todo verdadeiro se destaca sobre o Infinito como sobre seu fundo de perspectiva; assemelha-se a ele; pertence a ele. Por mais que uma verdade particular ocupe o primeiro plano, as imensidões estão mais além. Poder-se-ia dizer: uma verdade particular não passa de um símbolo, um símbolo real, um sacramento do absoluto; ela representa, e é, mas não por ela própria; ela não basta a si própria; ela vive por empréstimo e morreria se abandonada à sua inconsistência.
Para a alma em pleno despertar, toda verdade é, pois, um ponto de encontro; o Pensamento soberano solicita a presença do nosso: deixaremos de comparecer ao sublime encontro?
A vida do real não se encontra por inteiro naquilo que se vê, naquilo que se analisa pela ciência. O real tem uma vida oculta, como Jesus, e essa vida é também uma vida em Deus; é como uma vida de Deus; é uma revelação de sua sabedoria pelas leis, de seu poder pelos efeitos, de sua bondade pelos proveitos, de sua tendência à propagação pelos intercâmbios e pelo crescimento: convém venerar e amar essa espécie de encarnação pelo próprio contato com Aquele que se encarna. Destacar esse “corpo de Deus” de seu Espírito é dele abusar, como é abusar do Cristo ver nele unicamente o homem.
A encarnação do Cristo resulta na comunhão, na qual não se dissociam o corpo, o sangue, a alma e a divindade do Salvador: a quase encarnação de Deus no ser, da Verdade eterna em cada caso do verdadeiro, deve resultar também num êxtase celeste, em lugar de nossas buscas distraídas e de nossas admirações banais.
Temos de optar por trabalhar sob a proteção das leis maiores e sob a Lei suprema. Nem o conhecimento, nem qualquer manifestação de vida deve ser apartada de suas raízes na alma e na realidade, onde o Deus do coração e o Deus dos céus se revelam e se unem. A unidade deve fazer-se entre nossos atos (incluindo-se o ato de aprender) e nossos pensamentos e nossas realidades primordiais. Em tudo, tenhamos a alma toda, a natureza toda, a duração toda e a própria Divindade conosco.
Para alcançar esse espírito de oração na ciência, não é, por sinal, necessário recorrer a nenhum encantamento misterioso. Esforço extrínseco algum é requerido. Sem dúvida a invocação a Deus e a sua intervenção especial encontram aqui seu lugar. Santo Tomás sempre orava antes de ditar
ou de pregar; ele tinha composto com esse fim uma oração admirável:[6] o filho da ciência que balbucia procura com toda a espontaneidade a palavra que lhe falta no olhar divino. Mas na própria ciência, na ciência cristã, encontramos a banqueta na qual subiremos para erguer-nos mais perto de Deus e retomarmos o estudo com a alma mais esclarecida e como que providos dos dons do profeta.
Tudo o que instrui conduz a Deus por um caminho coberto. Toda verdade autêntica é, por si, eterna, e a eternidade que ela veicula orienta em direção àquela da qual ela é a revelação. Através da natureza e da alma, aonde afinal se pode ir, a não ser rumo a sua fonte? Se não se chegar lá, é porque se tomou um desvio durante o trajeto. Com um simples salto o espírito inspirado e direito transpõe os intermediários, e a toda pergunta que surge nele, quaisquer que sejam as respostas particulares que ele apresente, uma voz secreta responde: Deus!
Daí por diante é só deixar o espírito prosseguir em seu impulso de um lado, em sua atenção por outro lado, para que, entre o objeto de um estudo particular e aquele da contemplação religiosa, um vaivém se estabeleça em proveito de ambos. Num movimento arrebatado e não raro inconsciente, passa-se do vestígio ou da imagem a Deus, e daí, saltando com forças renovadas, volta-se aos rastros do divino Caminhante. O que se encontra é então comentado, enaltecido; vê-se aí um episódio de um imenso acontecimento espiritual; mesmo tratando de um nada, tem-se o sentimento de ser um frequentador de verdades perante as quais as montanhas são efêmeras; o Ser infinito e a duração infinita nos envolvem e nosso estudo é efetivamente “um estudo da eternidade”.