A Vida Intelectual: Seu espírito, suas condições, seus métodos

VI. Apropriar-se e viver

Sobretudo para com os homens muito superiores, é uma espécie de profanação assumir uma atitude provocativa. Podemos entristecer-nos com seus erros, mas não massacrá-los; vamos construir pontes, não cavar fossos entre suas doutrinas. Há uma grande luz na descoberta das ligações que aproximam secretamente as ideias e os sistemas mais disparatados. Dedicar-se a esse trabalho de reconstituição do verdadeiro integral através de suas deformações é muitíssimo mais proveitoso do que ficar perpetuamente criticando.

No fundo, se soubermos como utilizá-los, os grandes homens nos fazem, todos eles, comunicar-nos com as mesmas verdades essenciais. Não estou dizendo que eles todos as proclamem, mas todos nos colocam na perspectiva dessas verdades, nos levam ou nos impelem até elas irresistivelmente. Eles parecem combater-se e dividir a ciência, desmembrar o espírito humano; na realidade, eles convergem. As colunas do templo plantam seus fundamentos sobre as lajes, se afastam, se enfileiram muito espaçadamente; mas elas impulsionam os arcos um em direção ao outro e, mediante inúmeras nervuras, eles acabam formando uma única abóbada. Ver esse abrigo e nele buscar refúgio é o que convém a seu apelo, visto que os senhores procuram não o barulho, o choque entre facções, a contenção ou a excitação factícia da inteligência, mas tão somente a verdade.

 

VI. APROPRIAR-SE E VIVER

Uma última indicação de capital importância é inevitável no tocante às leituras. O leitor, por mais passivo que deva ser, sob certo aspecto, a fim de abrir-se à verdade e não atravancar a sua dominância, é solicitado a reagir acerca do que lê para disso apropriar-se e com isso compor sua alma. Lê-se unicamente para refletir, enriquece-se para utilizar, ingere-se alimentos para viver.

Condenamos o eterno ledor que progressivamente assume um ritmo mecânico, um automatismo mental que deixa de ser trabalho efetivo. Mas não é necessário ser um ledor exagerado para cair nessa passividade. Muitos leem como quem faz tricô. Entregue a uma espécie de indolência, seu espírito assiste ao desfile das ideias, deixa-se estar, inerte, e

Como um pastor adormecido olha a água fluir.

(Alfred de Musset)

O trabalho é entretanto uma vida, a vida é assimilação, a assimilação uma reação do organismo vivo à alimentação. Não basta ceifar no devido tempo, amarrar seu trigo em feixes e no final assar seu pão, é preciso elaborar a carne de seu corpo, pois essa é a serventia dos grãos seletos.

Aquele que aprende sempre pode chegar a nunca se instruir se ele não modificar em sua própria substância o que aprendeu em dóceis intercâmbios. A docilidade é virtuosa e necessária, ela não é o bastante. “A obediência é a base do aperfeiçoamento”, diz Auguste Comte; mas ela não é o aperfeiçoamento. O gênio que nos instrui poderia dizer, como seu Inspirador: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (João 10:10). O que era vida em outrem será em nós apenas algo como uma lâmpada apagada?

Ninguém pode instruir-nos sem nós. A leitura nos propõe coisas verdadeiras: temos de fazê-las nossas. Não é a comerciante do mercado que alimenta meu corpo. O que eu absorvo deve tornar-se eu: só eu estou capacitado a fazer isso. “Pela doutrina, escrevia Boécio, o espírito do

homem fica apenas excitado para saber.”[28] Santo Agostinho dissera antes dele: “Um homem está para o ensinamento somente o que o agricultor está

para a árvore”.[29]

Santo Tomás, descendo mais profundamente na questão, observa que a palavra ou a escrita não alcançam o mesmo espírito. Seu papel se limita, por meio dos sons e dos sinais, a fornecer à alma uma matéria. O som ressoa; a luz vibra; nossos sentidos percebem e comunicam o sinal e, por um movimento inverso, esse sinal, que se origina na ideia, tem a missão de provocar uma ideia semelhante. Mas com isso tudo os espíritos permanecem separados; os sinais de um só indiretamente entram em contato com o outro, e o que faz a ciência não é o sistema de sinais que nos é proposto, é o trabalho de nossa própria razão sobre esses sinais.

No fundo, os discursos científicos que nos são feitos permanecem tão exteriores à inteligência quanto as próprias coisas que se trata de conhecer; eles têm unicamente esta vantagem de corresponder, enquanto sinais, a ideias já elaboradas e ordenadas. Isso facilita para nós o pensar, mas não se substitui a ele. O ensino não nos fornece senão meios de agir espiritualmente, como a medicina oferece a nosso corpo meios de curar-se; mas assim como medicina alguma tem força de ação sobre um organismo inerte, ensino algum será bem-sucedido se o espírito que o recebe for negligente.

Na realidade, a natureza se cura por si e o espírito só é iluminado por sua própria luz, a menos que se diga: pela luz de Deus infundida nele, segundo as palavras do Salmo: “A luz da tua face está impressa em nós, Senhor” (Salmos 4:7). Assim, Deus é afinal nosso único Mestre, Ele que nos fala de dentro, e é Dele conosco que nos vem toda instrução; de homem para

homem, o pensamento é rigorosamente incomunicável.[30]

Essa análise penetrante tem consequências práticas. Se a ideia não chega até nós, se é necessariamente em nós que ela tem de nascer, vamos nos esforçar para que a matéria intelectual fornecida pelo livro, para que esses sinais de um interlocutor silencioso nos elevem efetivamente ao pensamento formulado e até para além dele, pois uma evocação, num espírito ativo, sempre deveria suscitar outra.

Só penetramos na intimidade dos gênios participando de sua inspiração; escutá-los de fora é nos condenar a não ouvi-los. Não é nem com os olhos, nem com os ouvidos que se ouve a palavra superior, é com uma alma situada no mesmo nível do que lhe está sendo revelado, com uma inteligência iluminada por uma mesma luz.

A fonte do saber não está nos livros, ela está na realidade e no pensamento. Os livros são placas de sinalização; o caminho é mais antigo, e ninguém pode fazer por nós a viagem da verdade. O que diz um escritor não é o que nos importa prioritariamente; trata-se daquilo que é, e nosso espírito tem o propósito não de repetir, mas de compreender, isto é, de pegar consigo, isto é, de absorver vitalmente, e finalmente de pensar por si mesmo. A palavra ouvida, é preciso, depois do autor, graças a ele talvez, mas no fim de tudo independentemente dele, obrigar a alma a dizê-la novamente para si mesma. É preciso reinventar para nosso próprio uso toda a ciência.

O principal benefício da leitura, pelo menos a das grandes obras, não é, diga-se de passagem, a obtenção de verdades esparsas, é a recrudescência de nossa sabedoria. Amiel, comparando o espírito francês e o espírito alemão, dizia: “Os alemães empilham a lenha para a fogueira; os franceses trazem as fagulhas”. A afirmação é talvez um tanto radical, mas o que sem sombra de dúvida se sobressai são as fagulhas.

A eclosão da sabedoria era o objetivo principal de nossa educação; ela é o da educação que nós oferecemos a nós mesmos. Sem ela, o que é introduzido em nós não teria valor algum, seria o decalque de um livro, um outro livro, tão inútil quanto o primeiro quando estava na biblioteca. Há em nós também volumes e grandes textos que não lemos.

Que abuso, dispor de gênios na vizinhança e deles aproveitar meramente fórmulas! E como isso ficará patente quando quisermos, ao pôr-nos a escrever, utilizá-los! Não demora para que se perceba tratar-se de psitacismo e para que se constate que quem se tem diante de si não é ninguém.

Utilizar verdadeiramente é inventar. Mesmo fazendo uma citação literal, se o trecho citado for embutido num discurso em que ele ocupa o lugar exato e que já é em si um discurso de bom nível, pertencente ao mesmo lote do empréstimo e apto a reabsorvê-lo em sua unidade e vitalidade, seremos com isso originais por assim dizer em pé de igualdade com o mestre. Conferindo glória ao outro, recebe-se em retorno outra idêntica. A citação lhes pertence como a palavra que o dicionário lhes fornece e que no entanto os senhores criam, como a alma cria seu corpo.

É assim que cita Santo Tomás, e assim também Bossuet, e assim também Pascal. E nós que nos propomos apenas tarefas bem humildezinhas, temos de aplicar nelas as mesmas leis do espírito. A verdade é o ancestral de todos os homens; a sabedoria convida-os todos; não se deve deixar para os maiores o monopólio das utilizações superiores. Diante dos gênios não passamos de crianças, mas crianças que são herdeiras. O que eles nos dão é nosso, já que pertence à eternidade; eles próprios o receberam dela. O que existia antes deles e existe acima deles, o que Deus prepara para todos, é o que se deve contemplar enquanto eles nos falam.

A originalidade tem esse preço e se um dia nossa sabedoria crescer, bem que vamos querer fazer um trabalho original, no bom sentido do termo. No que se refere a uma produção verdadeiramente pessoal, a leitura não pode servir senão para nos excitar, para alimentar nosso ser em si, não nossas páginas. Está aí um sentido novo para o que eu dizia: encontrar nos livros o que não está lá, portas de entrada para penetrar em novas áreas.

Já se sabendo que só se chega aos conhecimentos normais por si mesmo, mais justificadamente ainda uma contribuição em termos de pensamento novo só pode ocorrer por esforço próprio. Quando leio, eu gostaria de encontrar para mim no livro um ótimo ponto de partida, para, porém, abandoná-lo o quanto antes, me livrar da impressão de ter uma dívida em aberto. Tenho o dever de ser eu. Para que repetir o que diz o outro? Por pouco que eu seja, eu sei que Deus não faz em vão nenhum de seus espíritos, muito menos ainda do que nenhuma das coisas da natureza. Obedeço a meu Mestre libertando-me.

Eu vivo, eu não sou um reflexo, e eu quero uma vida fértil. O que não engendra não é: que minha leitura me possibilite engendrar pensamentos, à semelhança não de meu inspirador, mas de mim mesmo!

Aí está, creio eu, a última palavra acerca da questão dos livros. Um livro é um sinal, um estímulo, uma ajuda, um iniciador, não é um substituto, e não é uma corrente. É necessário que o pensamento seja nós. Ao ler, não devemos ir a nossos mestres, devemos deles partir. Uma obra é um berço, não é uma cova. Fisicamente, nós nascemos jovens e nós morremos velhos; intelectualmente, à proporção de nossa herança centenária, “nós nascemos

velhos; temos de procurar morrer jovens”.[31]

Os verdadeiros gênios não quiseram nos algemar, e sim nos tornar livres. E se tivessem planejado escravizar-nos, teríamos sido obrigados a nos defender contra eles, nos proteger dessa invasão que aniquila tanto mais completamente que não somos capazes de lutar usando dos mesmos meios. Saibamos emancipar nossa alma. Quanto mais o pensamento provier de nosso íntimo, de nossa incomunicabilidade, mais ele refletirá o homem, e mais os outros homens se reconhecerão nele. O respeito humano se afasta, a espontaneidade se aproxima da humanidade. As repetições feitas aberta ou disfarçadamente tornam-se depressa cansativas. “Quando se fala apenas do que se leu”, diz Schopenhauer, “não se consegue fazer-se ler”.

Trabalhemos, em suma, entre a verdade e nós, entre Deus e nós. Nosso modelo se encontra no pensamento criador. Os gênios não passam de uma sombra. Ser a sombra de uma sombra é uma decadência para aquele que, pequeno ou grande, é um fato espiritual incomparável cá embaixo, inédito e único.

O homem é múltiplo e nós somos um de seus casos; Deus está em todos: saibamos honrar em nós o homem e em nós respeitar a Deus.