A Vida Intelectual: Seu espírito, suas condições, seus métodos

II. O tomismo, quadro ideal do saber

Eis que fui levado de maneira muito natural a expor meu pensamento com relação ao tomismo considerado enquanto quadro para uma ciência comparada.

Não haveria como contestar a utilidade de se estar em poder, o quanto antes, desde o início se possível, de um conjunto de ideias condutoras formando um corpo e capaz, como um imã, de atrair e de submeter a si todos os nossos conhecimentos. Quem não dispõe disso se assemelha, no universo intelectual, ao viajante que cai muito facilmente no ceticismo por frequentar tantas civilizações desencontradas e tantas doutrinas contraditórias.

Esse desvario é um dos infortúnios desta época. Afastar-se dele, graças ao equilíbrio intelectual que uma doutrina segura propicia, é algo incomparavelmente benéfico. Ora, o tomismo, a esse respeito, é soberano.

Aqui estou já à espera de protestos. Deparei-me com eles em 1920, tenho de prever outros mais. Assim, penso ser útil dizer a quem se dispuser a acreditar, por pouco que seja, em mim: quanto mais eu avanço, mais me convenço de que aí se encontra verdadeiramente o futuro para nossas inteligências católicas, para seu valor em si mesmas, e, de mais a mais, e mais do que tudo, para sua adaptação a este tempo atual. O que quer que digam os partidários da última moda, o peso de uma doutrina e sua novidade são duas coisas diferentes. O gênio datado não existe. Visto tratar-se das coisas eternas, a sabedoria consiste em reportar-se a quem soube mergulhar, numa data qualquer do tempo, o mais profundamente no coração da eternidade.

Devo ainda assinalar aqui um obstáculo. Deslumbradas com a glória de Santo Tomás, certas pessoas o abordam com entusiasmo. Vamos ver! E depois de terem percorrido duas ou três páginas, já estão desanimadas. É que, sem sequer se darem conta, elas esperavam encontrar aí, em vez de pesadas barras de ouro, as joias da última moda e, obviamente, ficam desapontadas. É porém um erro abordar as obras-primas do pensamento como as da arte ou da natureza, comparando-as à ideia vaga e falsamente grandiosa que delas se tinha. Elas não conseguem preencher o quadro geral de uma tal expectativa. Em compensação, suas sólidas perfeições não deixam de existir e é estupidez abrir mão delas por não ter esperado encontrá-las, por não se adaptar a elas.

Consequentemente, vou persistir em dizer aos jovens católicos que estão me lendo: estudem Santo Tomás, é o homem deste tempo. Dá a impressão de ter sido criado com sete séculos de antecedência para saciar nossa sede. Comparado à água lamacenta que nos servem, ele é uma fonte cristalina. Depois de ter superado mediante um esforço enérgico as primeiras dificuldades de uma exposição arcaica, ele tranquiliza seu espírito, assenta-o em plena luz e lhe fornece um quadro a um só tempo maleável e resistente para suas aquisições ulteriores.

O tomismo é uma síntese. Não é, por esse motivo, uma ciência completa; mas a ciência completa pode apoiar-se nele como num poder de coordenação e de sobre-elevação quase milagroso. Se um papa pôde dizer da obra de Santo Tomás examinada em detalhe Quot articuli, tot miracula, de modo bem mais justificado ainda o conjunto pode ser classificado como um prodígio.

Estudem esse sistema, apreciem suas características, julguem suas ideias mestras, depois sua ordem, depois a fecundidade de sua genealogia descendente, a abertura de ângulo ou, melhor dizendo, a capacidade vital de cada noção diante dos fatos e noções acessórias que podem alimentá-la: verão com espanto que nenhum conjunto parcial pode ser comparado a esse enquanto força de atração referente ao todo, que nenhuma semente tem mais poder para absorver e canalizar as seivas da terra.

O tomismo é uma posição do espírito tão bem escolhida, tão distante de todos os extremos onde se abrem os abismos, tão central em relação aos cumes, que se é logicamente conduzido a ele a partir de todos os pontos do saber, e a partir dele se irradia, sem fraturas do caminho, em todas as direções do pensamento e da experiência.

Outros sistemas se contrapõem aos sistemas vizinhos: esse os concilia numa luz mais elevada, tendo investigado o que os seduzia e preocupando-se em reconhecer tudo que há neles de correto. Outros sistemas foram renegados pelos fatos: esse vem a seu encontro, os envolve, os interpreta, os classifica e os consagra como se fosse um direito deles.

Metafísica alguma oferece às ciências da natureza princípios de ordenação e de interpretação profunda de maior ajuda; psicologia racional alguma está mais bem integrada ao que a psicologia experimental e as ciências anexas descobriram; cosmologia alguma é mais flexível e mais acolhedora para com os achados que desconcertaram tantos antigos devaneios; moral alguma presta melhor serviço ao progresso da consciência humana e das instituições.

Não me é possível tentar provar aqui, mesmo que ligeiramente, a pertinência dessas afirmações; fico no aguardo de que cada um o sinta por si, é questão de ter confiança. Ora, a confiança do católico não deve dirigir-se espontaneamente àquela que foi investida com a missão e a graça de guiar do alto o enlevo de seu espírito?

A Igreja crê hoje, como ela acreditou desde o primeiro momento, que o tomismo é uma arca salvadora, capaz de manter flutuando os espíritos no dilúvio das doutrinas. Ela não o confunde com a fé, nem tampouco com a ciência em toda a sua extensão; ela sabe que ele é falível e que ele tomou parte, em tudo que se constituiu em teoria transitória, nos erros através dos tempos; porém ela julga que sua estrutura corresponde em seu todo à constituição do real e da inteligência, e ela constata que tanto a ciência como a fé lhe trazem uma contribuição, pois ele próprio se posicionou entre ambas como uma fortaleza no cruzamento das estradas.

Não se pode impor nada num domínio tal como esse; mas digo àqueles que se decidirem pela ciência comparada, isto é, que tomarem o propósito de desenvolver simultaneamente as ciências particulares, a filosofia e a teologia como constituindo-se numa mesma e única pesquisa: consultem a si próprios; procurem encontrar em seu coração fé suficiente em seu guia muitas vezes centenário para não incorrer em negociações a respeito do que deve ser uma livre adesão filial. Se conseguirem, sua fidelidade será recompensada; subirão a uma altura que é desconhecida tanto do solipsismo orgulhoso quanto da modernidade sem base eterna.