A Vida Intelectual: Seu espírito, suas condições, seus métodos
III. Cooperar com seus semelhantes
Todas as nossas explicações bem mostram que a solidão cujo elogio acabamos de tecer é um valor que deve ser temperado por valores conexos, que o completam e o utilizam. Não defendemos a solidão à toa. O sacrifício dos relacionamentos e da simpatia de nossos irmãos vale uma compensação. Temos direito tão somente ao esplêndido isolamento. Ora, este não será tão mais rico e tão mais fecundo que o convívio superior buscado no retiro será favorecido por relacionamentos escolhidos e medidos com sabedoria?
O primeiro relacionamento do intelectual, aquele que o qualificará segundo o que ele é, sem prejudicar suas necessidades e seus deveres de homem, é o relacionamento com seus iguais. Eu disse relacionamento, mas preferiria dizer cooperação, pois relacionar-se sem cooperar não é agir de maneira intelectual. Porém, quão rara é uma tal conjunção de espíritos, nessa época de individualismo e de anarquia social! O padre Gratry o deplorava. Ele sonhava com Port-Royal e queria fazer do Oratório “um Port-Royal menos o cisma”. “De quanto trabalho poderíamos nos poupar”, dizia ele, “se soubéssemos unir-nos ou entreajudar-nos! Se, em grupos de seis ou sete, partilhando o mesmo modo de pensar, procedêssemos por ensinamento mútuo, tornando-nos recíproca e alternadamente aluno e mestre; se até, por não sei que feliz concurso de circunstâncias, pudéssemos viver juntos! Se além das aulas da tarde e dos estudos dessas aulas, conversássemos no fim do dia, até mesmo à mesa, de todas essas belas coisas de modo a aprender mais sobre elas pela troca e infiltração de ideias
do que pelas próprias aulas!”[15]
As oficinas de outrora, e sobretudo as oficinas de arte, constituíam-se em amizades, em famílias: a oficina de hoje é um cárcere, ou então um meeting. Mas não chegaremos a ver, sob a premência da necessidade que pesa cada vez mais a nosso redor, esse ateliê familial ampliado, aberto para fora, e não menos concentrado do que antigamente? Seria o momento certo para conceber e fundar a oficina intelectual, associação de trabalhadores igualmente entusiasmados e zelosos, livremente associados, vivendo na simplicidade, na igualdade, nenhum deles tentando se impor aos demais, mesmo que possuísse uma superioridade acatada por todos e que lhes fosse de grande valia. Alheios a rivalidades e ao orgulho, procurando apenas a verdade, os amigos assim reunidos seriam, se me é permitida a expressão, multiplicados um pelo outro, e a alma em comum comprovaria uma riqueza para a qual não haveria explicação suficiente em parte alguma.
É preciso ter uma alma tão forte para trabalhar sozinho! Ser por si só seu grupo social intelectual, seu incentivo, seu respaldo, encontrar num pobre querer isolado tanta força quanto pode haver num movimento de massa ou na dura necessidade, que heroísmo! Tem-se primeiro o entusiasmo, depois, à medida que surgem as dificuldades, o demônio da preguiça nos diz: Para quê? Nossa visão do objetivo se enfraquece; os frutos estão muito longínquos ou nos parecem amargos; temos a vaga sensação de estar sendo enganados. É certo que o apoio de outrem, os intercâmbios e o exemplo seriam contra esse spleen de uma eficácia admirável; eles supririam em muitos indivíduos a deficiência no poder de imaginação e na constância de virtude de que só alguns dispõem e que são entretanto indispensáveis ao prosseguimento perseverante de um grande fim.
Nos conventos onde não há conversas nem visitas, a influência de uma fileira de celas laboriosas anima e ativa contudo cada asceta; esses alvéolos aparentemente isolados constituem uma colmeia; o silêncio é coletivo e o trabalho conjunto; a concordância das almas ignora as muralhas; um mesmo espírito paira, e a harmonia dos pensamentos releva cada um deles como um motivo de sinfonia que a corrente geral dos sons sustenta e prolonga. Quando em seguida as trocas intervêm, o concerto se enriquece; cada qual expressa e escuta, aprende e instrui, recebe e dá, recebendo ainda mais segundo o que der, e talvez este último aspecto da cooperação possa ser o mais invejado.
A amizade é uma maiêutica; ela extrai de nós nossos mais ricos e nossos mais íntimos recursos; ela faz com que se abram as asas de nossos sonhos e de nossos obscuros pensamentos; ela controla nossos julgamentos, experimenta nossas ideias novas, entretém o ardor e inflama o entusiasmo.
Há exemplos disso hoje em dia nos grupos de jovens e nas revistas de jovens, em que adeptos convictos assumem uma tarefa e se dedicam a uma concepção. Os Cahiers de la Quinzaine nasceram desse voto, a Amitié de France, a Revue des Jeunes, as Revues de Juvisy et du Saulchoir ficam dele cada dia mais imbuídas. Lá não se convive o tempo todo, mas se trabalha com um mesmo ânimo e se chega a um acordo, se emenda, se é a um só tempo preservado e provocado por um ambiente para o qual o essencial provém de um pensamento inovador ou de uma grande tradição.
Tentem, se puderem, agregar-se a uma irmandade desse tipo, ou até constituir uma se necessário for.
Em todo caso, mesmo em pleno isolamento material, procurem em espírito a convivência com os amigos da verdade. Unam-se ao grupo deles, sintam-se fraternalmente ligados com eles e com todos os pesquisadores, todos os produtores que a cristandade congrega. A Comunhão dos Santos não é um falanstério, entretanto ela é uma unidade. “A Carne – por si só – não serve para nada”; o espírito, por si só, pode alguma coisa. A unanimidade útil consiste menos em estar junto em um refúgio ou em um grupo catalogado do que em se esforçar, cada um, com a sensação de que outros também se esforçam, para se concentrar, onde se estiver, outros também estando em concentração, de tal maneira que uma tarefa se cumpra, que um mesmo princípio de vida e de atividade esteja na liderança, e que os componentes do relógio, para cada um dos quais um artesão em seu domicílio volta uma atenção exclusiva, tenham Deus por montador.