A Vida Intelectual: Seu espírito, suas condições, seus métodos
V. Conciliar, em vez de opor
Santo Tomás, em quem me inspiro aqui, conclui partindo dessas observações que devemos nossa gratidão até mesmo àqueles que, desse modo, nos expuseram a tentações, se pela oportunidade que nos deram e as circunstâncias que provocaram conseguimos progredir em alguma coisa. Diretamente somos devedores apenas ao verdadeiro; contudo indiretamente devemos àqueles que erram a dose suplementar de formação fornecida a
nós, graças a eles, pela Providência.[27]
Avaliem o quanto a Igreja deve às heresias e a filosofia a seus grandes litígios. Se não tivesse havido Ário, Eutiques, Nestório, Pelágio, Lutero, o dogma católico não teria sido constituído. Se Kant não tivesse abalado os fundamentos do conhecimento humano, a criteriologia seria ainda uma criança, e se Renan não tivesse escrito a história das origens cristãs, o clero católico estaria bem longe da formação histórica e exegética que ele detém.
O que é verdadeiro coletivamente é verdadeiro individualmente. Deve-se aprender a pensar adequadamente sobretudo em contato com os sábios; mas a própria loucura traz ensinamento; quem escapa a seu contágio extrai dela alguma força. “Quem tropeça e não cai, dá um passo maior.”
V. CONCILIAR, EM VEZ DE OPOR
Uma condição essencial para tirar proveito das leituras, sejam correntes, sejam geniais, é a de tender sempre a conciliar seus autores, em vez de os contrapor. O espírito crítico tem suas aplicações; pode-se ter de desemaranhar opiniões e classificar homens; o método contrastivo é então cabível, contanto que não seja forçado. Mas quando se tratar de formação, de uso pessoal ou até de exposição doutrinal, a história é bem diferente. Pois o que fica interessante nesse caso não são os pensamentos, mas as verdades, não são os combates dos homens, mas sua obra e o que dela permanece. Logo, alongar-se indefinidamente acerca de diferenças é vão; interessar-se por pontos de contato, eis a investigação fecunda.
Santo Tomás nos dá aqui um exemplo admirável. Ele sempre se esforçou em cotejar as doutrinas, em esclarecê-las e completá-las umas pelas outras. Aristotélico, ele se apoia em Platão; sem ser agostiniano, ele faz de Agostinho seu alimento constante; ele que declara ser Averróis um depravador do peripatetismo, nem por isso deixa de chamá-lo de um sublime espírito (præclarum ingenium) e o cita a todo momento. Quando faz comentários, ele recorre se necessário ao texto, favorecendo sua mais pura verdade ou sua maior riqueza, informando o que se deve ver nele, fechando caridosamente os olhos ao que nele possa haver de lamentável. Ninguém se assemelha menos que Santo Tomás a esses revisores de provas cuja leitura tem por único fim encontrar erros de impressão.
Aquele que deseja adquirir, pelo intercâmbio com autores, não aptidões para combater e sim verdade e penetração, deve vir munido deste espírito de acomodação e de diligente extração, o espírito da abelha. O mel se faz a partir de muitas flores. Um processo de exclusão, de eliminação sumária e de escolha limitada é extremamente pernicioso para uma formação, e ele denuncia no espírito tentado a praticá-lo uma tara de funesto agouro. “Todo indivíduo que não é criador, escreve Goethe, tem um gosto negativo, restrito, exclusivo, e ele consegue despojar de sua energia e de sua vida o ser criador.” Uma inteligência constituída desse modo fica diminuída; em vez de tudo encarar do ponto de vista do universal, constata-se que ela descamba para o espírito de panelinha e os fuxicos.
Nem todos os mexeriqueiros são donas de casa postadas à soleira da porta, há os que estão na história da filosofia, das ciências, da própria teologia, e muitos são seus imitadores. Elevem-se mais acima. Os senhores que procuram a verdade, prontos para reconhecer seu semblante onde quer que seja, não joguem seus servidores um contra o outro, nem que eles sejam desses “anjos incompletos”, gênios parciais que o verdadeiro visitou sem optar por neles fixar-se.