A Vida Intelectual: Seu espírito, suas condições, seus métodos
III. O intelectual pertence a seu tempo
E, depois, pensem que se todos os tempos são iguais perante Deus, se sua eternidade é um centro radiante onde todos os pontos da circunferência do tempo se apresentam a igual distância, o mesmo não se dá com os tempos e conosco, que residimos na circunferência. Estamos aqui, sobre a vasta roda, não em outro lugar. Se aqui estamos, é que Deus aqui nos colocou. Todo momento da duração nos diz respeito e todo século é nosso próximo, assim como todo homem. Essa palavra próximo, porém, é uma palavra relativa, que a sabedoria providencial especifica para cada um, e que cada um, em sua sabedoria submissa, deve especificar da mesma forma.
Eis-me, homem do século XX, contemporâneo de um drama permanente, testemunha de transtornos como talvez nunca o globo havia visto desde que surgiram os montes e que os mares foram perseguidos para dentro de seus antros. O que devo fazer por esse século resfolegante? Mais do que nunca o pensamento aguarda os homens e os homens o pensamento. O mundo está em perigo por falta de máximas de vida. Estamos num trem propelido a toda velocidade, sem nenhuma sinalização à vista, nenhum agulheiro. O planeta não sabe para onde está indo, sua lei o largou: quem vai lhe restituir o sol?
Ao dizer isso não tenciono restringir o campo da pesquisa intelectual e confiná-la no estudo exclusivamente religioso. Isso ficará claro. Já disse que toda verdade é prática, que toda verdade salva. Mas aponto um espírito, e esse espírito, do ponto de vista da ocasião atual como de modo geral, exclui o dilentantismo.
Ele descarta também uma determinada tendência arqueológica, um amor pelo passado que não dá a devida importância às dores do presente, um apreço dado ao passado que parece ignorar a presença universal de Deus. Todos os tempos não se equivalem, mas todos os tempos são tempos cristãos e há um que para nós e na prática os supera todos: o nosso. Com vistas a ele existem nossos recursos inatos, nossas graças de hoje e de amanhã, consequentemente também os esforços que devem trazer-lhe uma resposta.
Não vamos nos assemelhar àqueles que dão sempre a impressão de estar carregando os cordões do pano mortuário nos funerais de antigamente. Utilizemos o valor dos mortos para viver. A verdade é sempre nova. Como a relva da manhã recoberta de um delicado orvalho, todas as virtudes antigas têm vontade de reflorescer. Deus não envelhece. É preciso ajudar esse Deus a renovar não os passados sepultados e as crônicas extintas, mas a face eterna da terra.
Tal é o espírito do intelectual católico, tal sua vocação. Quanto mais cedo ele especificar esse dado geral pela descoberta do tipo de estudos aos quais deve se dedicar, melhor será.
Ouçam agora quais as virtudes que Deus lhe pede.